400 anos atrs, a atual Tquio era conhecida como Edo e j era uma das maiores cidades do mundo, com uma populao prxima a 1 milho de habitantes. No entanto, estava beira do colapso ecolgico. S para se ter uma ideia, em 1600, a cidade mais populosa do Brasil, Salvador, tinha em torno de 50 mil. 400 anos depois, o Brasil tem 15 cidades com mais de 1 milho de habitantes, segundo dados do IBGE de agosto de 2025, sendo que duas delas, Guarulhos e Campinas, no so capitais. |

Anos de explorao madeireira intensa em Edo levaram ao desmatamento em massa. A cidade enfrentava escassez de madeira e os impactos da eroso severa e das frequentes inundaes que ameaavam o abastecimento de alimentos.
Mas, em apenas algumas dcadas, Edo se transformaria e se tornaria uma das cidades mais sustentveis e eficientes da histria. Ento, como surgiu essa cidade que no desperdiava nada?
Em 1467, o Japo entrou em uma srie de guerras civis sangrentas e contnuas que durariam mais de um sculo.
Mas em 1600, Tokugawa Ieyasu derrotou seus rivais senhores da guerra e unificou o Japo sob seu governo.
Isso marcou o incio do reinado do xogunato Tokugawa, que durou de 1603 a 1867.
Durante esse perodo, Ieyasu e os xoguns que o sucederam implementaram uma srie de reformas abrangentes que remodelaram a economia, a paisagem e a cultura do pas.
Preocupados com a crescente influncia de potncias externas, os xoguns impuseram severas limitaes s relaes exteriores e varreram o cristianismo do Japo.
Eles proibiram a entrada de comerciantes estrangeiros no pas e restringiram fortemente a sada de cidados.
Para compensar a queda repentina nas importaes, os xoguns Tokugawa investiram pesadamente no aumento da produo interna, ao mesmo tempo em que diminuam o consumo e o desperdcio.
Essas prticas no eram totalmente novas, elas se baseavam no conceito budista de mottainai, que enfatizava o no desperdcio de recursos e a satisfao com o “suficiente”.
Ao perceberem a extenso da destruio ecolgica que afetava a capital, Edo, os xoguns Tokugawa introduziram limitaes explorao madeireira e lanaram extensos programas de reflorestamento.

Os moradores locais foram obrigados, e posteriormente pagos, a plantar milhes de rvores. Para conter a demanda por madeira, regras rgidas de racionamento foram introduzidas, e as casas foram construdas com componentes de madeira padronizados que podiam ser desmontados e reutilizados.
Em pouco tempo, indstrias inteiras surgiram em torno da eliminao do lixo da cidade. Os moradores usavam subprodutos agrcolas, como palha de arroz, para fazer corda e material de embalagem.
Restos de cera de vela eram guardados e remodelados. Artesos consertavam guarda-chuvas velhos e sandlias gastas em vez de jog-los fora. At mesmo os dejetos humanos eram coletados e transformados em fertilizante.
Dentro das casas, as famlias desenvolveram tcnicas para reutilizar ou reaproveitar itens em vez de descart-los. Os quimonos eram constantemente remendados. Quando o tecido estava muito desgastado para ser consertado, era usado para cobrir futons, depois cortado em fraldas ou panos de limpeza, antes de finalmente ser queimado como combustvel.
Artesos reparavam habilmente cermicas usando o kintsugi, onde pedaos quebrados so colados e as linhas de fratura so pintadas com laca dourada.
Desenvolveu-se uma tradio conhecida como boro, na qual fragmentos de tecido antigo eram costurados para criar belas peas de roupa em retalhos que eram ento passadas de gerao em gerao.
Enquanto isso, a poesia, o teatro e a literatura floresceram, assim como o estudo do confucionismo chins e de textos cientficos europeus, que foram bem recebidos no pas, mesmo que seus autores no o fossem.
No entanto, embora o perodo Tokugawa tenha sido marcado por conquistas em sustentabilidade e arte, no foi isento de falhas.
Leis e regulamentos rgidos eram impostos por um regime autoritrio severo. Era uma sociedade feudal, repleta de desigualdade social e econmica.
A maioria da populao camponesa, por exemplo, era obrigada a pagar um imposto sobre o arroz, muitas vezes exorbitante, chamado nengu, aos senhores regionais conhecidos como daimyos.
E, na segunda metade do sculo XIX, o pas enfrentou uma inflao crescente, que desestabilizou sua economia, e uma presso externa cada vez maior, incluindo o uso do poder militar pelos Estados Unidos.
Tudo isso forou o Japo a reabrir suas portas para o comrcio e a influncia estrangeiros e, por fim, levou ao fim do reinado do xogunato Tokugawa.
Apesar desses desafios, esse perodo pode servir como uma lio poderosa. A transformao de Edo, de uma cidade beira do colapso ecolgico para um prspero epicentro cultural, nos mostra que o que est quebrado pode ser consertado e, ao faz-lo, podemos criar algo ainda mais belo.
Hoje, em um momento em que apenas 7% da economia global circular, a histria de Edo tambm nos lembra que podemos criar economias impulsionadas no pelo consumo e pelo desperdcio, mas sim pelo melhor aproveitamento dos recursos limitados.
Na casa da minha av tudo era reaproveitado. Eu herdava boas roupas e calados de meus tios. Se estivessem avariados, eram consertados. Vestidos se tornavam camisas e camisetas, lenis viravam panos de prato aps serem bordados.
Isso se baseava em uma histria que minha av aprendeu quando criana chamada “At que seja boto“, uma narrativa sobre um cobertor, que virou manta, jaqueta, colete, porta-moedas e, por fim, um boto coberto com o tecido pudo sem nada mais com que trabalhar alm das memrias!
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