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O filme mais bonito que você verá neste fim de semana na Netflix

O filme mais bonito que você verá neste fim de semana na Netflix 

“Nonnas” apresenta Joe Scaravella com um objetivo simples e direto, abrir um restaurante em Staten Island para homenagear a mãe morta, convidando senhoras italianas a cozinhar como fazem em casa. A decisão inicial organiza todo o enredo, porque imediatamente liga desejo e obrigação. Para existir, o projeto precisa de dinheiro, de uma casa funcionando e de um time que aceite cozinhar para público pagante. A primeira consequência decorre do recrutamento das cozinheiras. Ao escolher avós com trajetórias e regiões diferentes, Joe garante repertório e identidade, mas também instala o conflito central. Cada senhora tem um jeito de fazer as coisas, um tempo, uma lembrança que orienta a mão. Quando todas entram na mesma cozinha, o filme passa a observar como esse encontro interfere no fluxo do serviço, no humor do salão e no caixa do fim da noite.

A apresentação dos personagens secundários delimita obstáculos e apoios. Bruno, o amigo, atua como consciência financeira, lembrando o protagonista de prazos e boletos. Olivia retorna do passado com perguntas que deslocam o foco para a vida além do trabalho, o que pressiona Joe a definir o que considera sucesso. As nonnas formam um núcleo dramático por si só. Gia fala o que pensa e protege a essência do projeto. Roberta defende rigor e cobra sequência clara de etapas. Teresa e a colega priorizam lembranças de família e preferem um clima de cozinha doméstica. Essas diferenças não servem como enfeite. Elas explicam atrasos, pratos que saem fora de ordem, reclamações de mesas e desgastes que a narrativa registra. Quando um pedido encalha porque duas cozinheiras disputam o comando de um preparo, o efeito imediato aparece no rosto de um garçom que não sabe o que levar e no cliente que olha o relógio. Já aí o filme desenha a relação de causa e efeito que seguirá até o desfecho.

O desenvolvimento aposta na lógica de tentativa e erro. Nas primeiras noites, a curiosidade enche algumas mesas, mas a operação falha por excesso de variações. Joe precisa escolher entre padronizar receitas, o que diluiria a promessa de singularidade, ou ajustar o desenho do serviço para que cada avó brilhe sem atrapalhar as demais. Ele mantém a proposta e muda a forma. Reduz o cardápio por noite, distribui tarefas por especialidade, organiza a ordem dos pratos com base em quem executa com mais segurança. O impacto é mensurável. O tempo de espera cai, a equipe para de se atropelar, a sala volta a respirar. Ainda assim, o filme não mascara o preço desse acerto. Com menos opções, parte do público estranha. Com mais foco em processo, o clima interno melhora, mas a renda não se estabiliza de imediato. As cenas alternam entre panela e planilha para sublinhar que cada ajuste na cozinha repercute no caixa.

A escalada de tensão ocorre quando atrasos pontuais se somam à entrada de críticas mornas. A casa não está vazia, porém não se paga. Joe reage convocando conversa. Ele reúne a equipe, explica que o lugar não é museu de lembranças, e sim restaurante que serve histórias em forma de prato. A fala não é abstração. Ela antecede medidas concretas. O protagonista reforça horários de preparo, define janelas de reserva e recoloca o salão como extensão da cozinha. A consequência aparece na sequência seguinte, quando a noite flui melhor e clientes percebem a mudança no ritmo. Ainda assim, o risco de fechar permanece como fantasma. Para enfrentá-lo, Joe escreve uma carta simples sobre o sentido do projeto e distribui a mensagem em canais locais. A narrativa já havia plantado sua necessidade de comunicar para além do prato. A carta consolida essa linha e provoca resposta de gente interessada em entender a proposta. O movimento aumenta e, com ele, cresce também a responsabilidade de manter o acordo interno entre as nonnas.

A direção concentra o ponto de vista onde a decisão nasce. Em trechos de pressão, a câmera se fixa em mãos, panelas e olhares, mantendo a sala fora de campo para que a atenção repouse no que cria o problema. Quando as soluções começam a funcionar, o filme abre o quadro, inclui mesas, garrafas e trajetórias dos pratos até o cliente. Essa alteração de foco não é decorativa. Ela muda a informação disponível ao espectador e orienta a leitura do conflito. A trilha de Marcelo Zarvos acompanha esse desenho. Nos picos de tensão, recua e deixa o som do ambiente conduzir a cena. Nos instantes de acerto, retoma tema melódico que alonga o fôlego do plano e sinaliza uma passagem de fase. A montagem usa elipses curtas para comprimir semanas de pequenos ajustes. Cortes entre o fogão e o caderno de contas mostram que o tempo avança e que cada escolha operacional tem efeito concreto no saldo.

Os diálogos funcionam como ferramenta de avanço. Quando Bruno diz que paixão não paga aluguel, obriga Joe a testar a redução do cardápio. Quando Olivia pergunta o que resta de Joe caso o restaurante dê certo, abre a porta para a decisão final de equilíbrio entre trabalho e afeto. As conversas entre as nonnas sobre a ordem dos passos de um molho não são folclore. Elas criam regras. Quem mexe, quem prova, quem emprata. O roteiro liga cada fala a uma ação mensurável na noite seguinte. Menos briga, mais pratos saindo no tempo. Menos dispersão, mais clientes voltando.

As atuações empurram o enredo nessa direção. Vince Vaughn interpreta Joe como alguém que aprende em movimento, capaz de reconhecer erro e ajustar rota. Esse traço explica por que as soluções não aparecem por acaso, e sim por persistência. Susan Sarandon confere a Gia um senso de cuidado direto, que pressiona o protagonista a cuidar do ritmo do salão sem apagar a personalidade da cozinha. Lorraine Bracco faz de Roberta uma voz que exige ordem, mas aceita negociação quando percebe que a regra nasce de uma memória. Talia Shire traz contenção e experiência, servindo de ponte entre o fogo alto da disputa e a calma que estabiliza o serviço. Brenda Vaccaro adiciona leveza estratégica, lembrando o time de que a mesa espera comida e não um desfile de intenções. O efeito combinado dessas escolhas se traduz na operação, e não em discursos. A casa melhora porque as pessoas mudam como trabalham.

A estrutura geral respeita apresentação, desenvolvimento, escalada e resolução. A apresentação liga a perda à promessa. O desenvolvimento testa formatos. A escalada comprova que só boa vontade não mantém a porta aberta. A resolução nasce de clareza de propósito e de organização concreta. Há facilidades pontuais, como a rapidez com que a comunicação atrai clientela mais estável. O filme oferece lastro para isso ao destacar a curiosidade em torno da proposta das avós e a força de uma narrativa afetiva quando bem explicada. Mesmo assim, preserva a coerência ao manter Joe vigilante. Ele diz não quando uma oferta de expansão ameaça a identidade do lugar e diz sim quando ajustes protegem pessoas e propósito. Essa coerência fecha o arco.

Comparações cirúrgicas ajudam a enxergar escolhas do diretor. Em “As Vantagens de Ser Invisível”, a união de um grupo repara feridas ao redor de um espaço comum. Em “Extraordinário”, a escola se reorganiza a partir de um gesto de acolhimento. Em “Nonnas”, a cozinha exerce esse papel. O espaço compartilhado cria pertencimento e impõe regras, e o salão funciona como espelho da cidade. A diferença está no tipo de pressão. Aqui, conta-se dinheiro, controla-se tempo, negocia-se menu. O mecanismo de construção de comunidade passa por serviço e por resultado no prato.

O desfecho preserva a linha de causa e efeito que iniciou a história. A homenagem vira rotina quando encontra forma repetível. Menos pratos por noite, responsabilidades definidas, comunicação clara, reservas que respeitam o ritmo das cozinheiras. A consequência é dupla. A casa se paga e a memória da mãe ganha permanência sem virar peça parada. Olivia decide ficar quando percebe que a vida de Joe não será engolida pelo trabalho. O último olhar do protagonista pela casa em funcionamento não celebra fama, registra estabilidade conquistada a partir de decisões que aprenderam com os tropeços. “Nonnas” encerra afirmando que lembrança só encontra casa quando vira prática cotidiana, partilhada entre quem cozinha e quem come, sob regras simples que protegem o sentido original.

Filme:
Nonnas

Diretor:

Stephen Chbosky

Ano:
2025

Gênero:
Comédia

Avaliação:

7/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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