Por: Beatriz Waehneldt e Felipe Abílo

Medidas afetam áreas específicas e exigem atenção de turistas com viagens marcadas (Arquivo/Aliénor)

A França vive uma nova onda de manifestações que levou autoridades a adotar toques de recolher localizados em cidades como Paris, Lyon, Nice e Lille, além de reforçar o policiamento diante da previsão de novos protestos. Os episódios de violência registrados no fim de semana de 17 de outubro atingiram áreas centrais de diferentes cidades, com confrontos, saques e danos a estabelecimentos.

O Mercado & Eventos ouviu um brasileiro e uma francesa que vivem em Lyon para entender como os acontecimentos estão afetando a rotina de moradores e o que pode mudar para quem viaja ao país neste período. Os impactos variam de acordo com a região da cidade e nem todos os bairros registram manifestações ou alterações na rotina.

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Na segunda-feira (19), o governo francês começou a aplicar toques de recolher em áreas consideradas mais afetadas pelos distúrbios. Em Paris, a medida alcança regiões como a Place de la République e Les Halles, enquanto outras cidades também adotaram restrições locais. Em Lyon, o centro da cidade passou a ter toque de recolher entre 21h e 6h, segundo informações divulgadas nesta terça-feira (20).

As medidas ocorrem depois dos confrontos registrados no sábado (17), quando manifestações que começaram relacionadas a reivindicações estudantis se ampliaram e foram acompanhadas por episódios de depredação, incêndios e saques. A prefeitura de Lyon informou que o centro da cidade registrou danos a comércios, mobiliário urbano e espaços públicos e o prédio do escritório de turismo da cidade, na Place Bellecour, também foi alvo de um incêndio.

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Comércios locais tentam se proteger de alguma forma contra os protestos (Arquivo/Casana)

Uma pessoa que esteja hospedada em uma área distante dos locais de manifestação pode encontrar uma rotina diferente daquela registrada nos pontos de concentração dos protestos. É o que relata Philippe Casana, brasileiro que vive em Lyon há dez anos. Segundo ele, houve proteção de vitrines de estabelecimentos comerciais em algumas áreas, mas sua rotina, por morar e trabalhar em uma região diferente do centro dos protestos, não foi diretamente afetada. “Tudo que vi foi apenas o que a galera posta na internet”, revela.

Casana também aponta alterações que podem afetar diretamente os deslocamentos de visitantes, mas que, mesmo com as restrições, a movimentação em áreas não atingidas pelos protestos continua. “Tiveram várias linhas que foram suspensas. e o pessoal também não recomenda sair nas áreas de manifestação. Eu trabalho sábado em um restaurante, que achei que estaria vazio, mas estava bombando”, acrescenta.

Viajar para França: situação varia conforme a cidade e o bairro

A francesa Aliénor des Ligneris, 24, mora em Lyon e acompanha os protestos na cidade que, segundo ela, começaram entre estudantes do ensino médio e posteriormente passaram a reunir outros grupos. A entrevistada relaciona as exigências iniciais a diferenças na estrutura e nos recursos disponíveis entre escolas. “A resposta do governo foi bastante dura e não respondeu a todas as reivindicações dos estudantes”, afirma.

Os protestos ganharam maior dimensão quando outros grupos passaram a participar das mobilizações e Aliénor relata que o sábado (17) foi marcado por confrontos entre manifestantes e forças de segurança em Lyon. “A polícia usou gás lacrimogêneo e equipamentos que são considerados armamentos de guerra. Foi uma confusão. Também houve muitas lojas destruídas”, relata.

A entrevistada diferencia, porém, os manifestantes dos grupos que, segundo ela, teriam aproveitado a situação para praticar saques e depredações. “Na minha opinião, isso não faz inteiramente parte dos manifestantes, são pessoas que querem aproveitar a situação para roubar.”

Os estudantes foram atacados por policiais ao protestarem (Arquivo/Aliénor)

Pessoas que estavam em uma área considerada pacífica também foram atingidas pelas bombas da polícia, de acordo com a estudante: “estávamos gritando para que parassem de agredir as pessoas, começamos a nos aproximar para filmar e, naquele momento, a polícia lançou gás lacrimogêneo contra nós. Tivemos que correr para trás por causa do gás”, relata.

A moradora diz ainda que passou a se preparar de maneira diferente para sair de casa durante os protestos. “Fiquei com medo de participar das manifestações por causa da polícia, a ponto de anotar no meu braço o nome de um advogado, de um dos pais e de uma amiga. Também levei óculos de piscina, máscara contra Covid e soro fisiológico para sair de casa preparada para enfrentar o gás”, conta.

Apesar dos relatos, Aliénor ressalta que sua percepção está relacionada principalmente à realidade de Lyon e aos dias de manifestações. Para turistas, a recomendação é considerar o endereço exato da hospedagem e os locais incluídos no roteiro, em vez de tratar a situação como uniforme em toda a França.

O que fazer se a viagem para a França já está marcada

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Resíduos das cápsulas de gás lacrimogêneo lançado contra os estudantes (Arquivo/Aliénor)

Para quem ainda não comprou a viagem, a melhor opção é fazer a reserva com o apoio de uma agência de viagens. Em um cenário de manifestações e possíveis alterações na operação de voos, transportes, atrações e hospedagens, o acompanhamento do agente pode ser importante para orientar o passageiro antes e durante, além de auxiliar em eventuais mudanças de roteiro ou remarcações.

Também é essencial contratar um bom seguro viagem e verificar, antes do embarque, quais são as coberturas, condições e canais de atendimento disponíveis durante a estadia na França. Para quem já tem a ida marcada, o cenário exige acompanhamento diário das informações oficiais, atenção aos horários de circulação e flexibilidade para alterar o roteiro.

A primeira recomendação é verificar, antes de cada deslocamento, se existe alguma restrição vigente na cidade ou no bairro visitado. Os toques de recolher são localizados e podem ser alterados pelas autoridades conforme a evolução dos protestos. Em Paris, por exemplo, as restrições anunciadas nesta semana abrangem áreas específicas, e não toda a capital.

Estudantes capturam vídeo de ataques da polícia contra manifestantes (Arquivo/Aliénor)

Outro cuidado é evitar áreas de manifestação, principalmente nos horários e dias em que atos estejam programados. Para o próximo sábado (24), o governo francês prevê reforço significativo da segurança, incluindo o emprego de forças militares para liberar policiais e gendarmes para as operações de manutenção da ordem.

O turista também deve consultar os sites oficiais de museus, atrações e empresas de transporte antes de sair. Se determinado ponto turístico estiver localizado próximo a uma área de protesto, também pode ser interessante reorganizar a programação para outro dia. O Louvre, por exemplo, informa que, em razão das manifestações de 17 de outubro, o acesso ao museu está limitado e que, entre 17 de outubro e 1º de novembro, é necessário fazer reserva para a visita, com exceções específicas.

Confira: Protestos na França fecham Museu do Louvre e afetam visitação turística em Paris

Por fim, quem ainda está planejando a viagem pode avaliar a possibilidade de priorizar cidades ou regiões que não estejam entre as áreas afetadas, caso o roteiro permita. A situação pode mudar rapidamente, portanto a escolha não deve ser baseada apenas nas condições observadas no momento da compra da passagem.

O governo francês afirma que os toques de recolher contribuíram para reduzir os episódios de violência durante a noite, mas novas manifestações estão previstas. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu declarou que as restrições podem ser ampliadas caso sejam necessárias.

Dessa forma, a pergunta sobre se é seguro viajar para a França neste momento não tem uma resposta única para todo o país. Apesar de existirem áreas onde a rotina permanece próxima da normalidade, há regiões de concentração dos protestos podem registrar interrupções de transporte, fechamento ou proteção de estabelecimentos e confrontos.

*Com informações de Reuters.