Foram três meses chorando no camarim e entrando no palco como se fosse a última vez. Ao descobrir um câncer de tireoide, Zélia Duncan cantava como se despedisse da cena. O medo de perder o principal instrumento de sua arte, a voz, a colocou diante de uma sensação que ela descreve como “pior que morrer”.
Em entrevista ao videocast ‘ Conversa vai, conversa vem’, no ar no Youtube do Jornal Globo e no Spotify, a artista, que lançou o disco “Agudo grave”, revela detalhes da descoberta da doença à cirurgia que a salvou, passando pelo processo de recuperação. Leia trecho:
O disco “Agudo grave” traz a canção “Voz”, parceria sua com Maria Beraldo. Ela termina com a frase: “E as cicatrizes todas cantam por mim”. Essa que tem no pescoço por causa de um câncer no tireoide em 2017 é uma delas? Um golpe muito duro para uma cantora…
Muito. Quando descobri que estava com esse câncer na tiroide foi chocante. Vivia meu melhor momento: tinha um ano com a Flavia, estava me sentindo forte, saudável. Fui uma jovem cantora que não deixava botarem a mão no meu pescoço, carregava sempre um casaco, tinha o apelido de florzinha de estufa. Era a careta do grupo: a que não fuma, não bebe. Quando aconteceu, levei um tombo emocional muito forte. Até hoje, me sinto me adaptando. Já andei muito, me curei no palco. Tive medo… Pensar em perder meu instrumento era pior do que morrer. Quando voltei da cirurgia, eu muda apavorada, o médico fala: “Queria que você falasse alguma coisa”. Que medo! (se emociona). Falei: “Um dois três testando”.
Seu timbre não alterou?
Não, ele está aqui. Com a idade, a tendência é a voz se agravar, mas para uma cantora grave isso não é grave (risos). Operei com 50, estava entrando na menopausa, me preparando para aquilo, parei toda a reposição hormonal para operar, fiquei seca. Descobri em setembro, tinha muitos compromissos profissionais, e pedi ao médico para operar depois do último dele. Como não era urgente., ele deixou. Fiquei de setembro a dezembro cantando como louca. Imagina a cabeça? No camarim, eu morria de chorar. Um dia, minha fonoaudióloga me olhou e falou: “Para de se despedir”. Era isso que eu estava fazendo emocionalmente. Aí opero, começo os exercícios, entende como está e vem a grata surpresa de saber que você ainda é você.
O que sentiu no primeiro show?
Foi com o Jaques Morelenbaum (violoncelista e maestro), o mais perigoso, voz e violoncelo. Me exigia muito, era como se botasse uma lente de aumento e fosse ver uma cantora. Fiz um esforço emocional muito grande. Chorei muito antes de entrar em cena, lavei o rosto, me maquei e fui. Cantar sempre foi a coisa mais natural do mundo para mim e o que me deixava magoada era o fato de ter que pensar antes de cantar… onde teria que respirar. Tive que me adaptar e assim fui me recuperando. Me sinto bem hoje, mas tem sempre um lugar… gato escaldado. Esse negócio de “Agudo grave” tem ainda esse significado: O que que eu recuperei? Qual é a nova Zélia pra cantar? Como é que tá a voz aqui? A Maria e Tó Brandileone (músico e engenheiro de som), me ajudaram muito, mostraram empolgação com a minha voz. Ainda guardo uma coisa de antes da cirurgia: não tenho medo do microfone e nem do palco.
