Fabio Mader, CEO da CVC Corp, e Felipe Gomes, vice-presidente da CVC Corp

A CVC Corp foi questionada diretamente sobre sua exposição à crise da Apex Partners durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre de 2026. Em resposta, Felipe Gomes, vice-presidente da companhia, afirmou que a relação entre as duas empresas é exclusivamente societária e descartou qualquer vínculo operacional ou financeiro, incluindo estruturas de garantia e contratos de crédito.

A declaração ocorreu após a saída de Fernando Cinelli do Conselho de Administração da CVC. O executivo, fundador da Apex, renunciou ao cargo na quinta-feira, mesmo dia em que foi afastado da presidência da gestora.

“Queria até aproveitar a pergunta e deixar bem claro que a relação entre a Apex e essa crise que está acontecendo e a CVC se resume totalmente à participação societária”, afirmou Gomes.

Segundo o executivo, Cinelli havia sido indicado pela Apex para o conselho da CVC e renunciou à posição na quinta-feira. A partir daí, de acordo com Gomes, permanece a relação societária da Apex com a companhia aberta.

“A Apex possui um percentual de participação na companhia, como qualquer outro investidor pode ter, dado que nós somos uma companhia de capital aberto”, disse.

CVC nega relação financeira com a Apex

Ao responder sobre a possibilidade de outros vínculos entre as empresas, Gomes foi direto.

“Não temos nenhuma relação operacional com a Apex, não tem nenhuma relação financeira, não tem nenhuma estrutura de garantia ou qualquer outro tipo de contrato firmado de crédito ou nada disso”, afirmou.

O executivo reforçou que a participação societária é o único vínculo mencionado pela companhia durante a teleconferência.

A saída de Cinelli também foi citada na resposta. Segundo Gomes, o executivo havia sido indicado para o Conselho de Administração da CVC pela Apex e deixou a posição na quinta-feira. A cadeira no conselho ficou vaga até a indicação de um substituto.

Apex enfrenta crise financeira

As informações complementares fornecidas sobre a Apex apontam que a saída de Cinelli da CVC ocorreu no mesmo dia em que ele foi afastado da presidência da gestora. Também deixou a empresa o diretor financeiro Eduardo Siqueira.

Uma investigação interna da Apex identificou “inconsistências financeiras na companhia”. A empresa não detalhou publicamente quais seriam essas inconsistências nem atribuiu aos executivos responsabilidade pelos problemas identificados.

A Apex também recorreu à Justiça do Espírito Santo em meio às dificuldades financeiras. O processo judicial aponta uma estrutura que acumula R$ 986 milhões em dívida bruta.

A Justiça concedeu uma tutela cautelar que suspendeu, por 60 dias, determinadas execuções de dívidas e garantias contra a empresa. A medida não significa que a Apex esteja em recuperação judicial.

O processo também aponta que um dos fundos ligados à gestora detinha cerca de 15% do capital da CVC. No fim de junho, essa participação tinha valor nominal de R$ 261,5 milhões. O valor considerado recuperável em caso de desinvestimento era de aproximadamente R$ 190,1 milhões.

CVC diz não precisar de captação nos próximos meses

O esclarecimento sobre a Apex ocorreu durante uma apresentação em que a CVC também mostrou uma melhora na geração de caixa e na estrutura de endividamento.

A companhia registrou R$ 60,2 milhões de geração de caixa operacional no segundo trimestre. No primeiro trimestre de 2026, havia registrado consumo de R$ 121 milhões. A diferença entre os dois períodos foi de aproximadamente R$ 180 milhões.

A dívida líquida encerrou o segundo trimestre em R$ 215 milhões, uma redução de R$ 26,8 milhões em relação ao primeiro trimestre e de R$ 181,3 milhões na comparação com o mesmo período de 2025.

A alavancagem da dívida líquida sobre o EBITDA dos últimos 12 meses ficou em 0,5 vez, estável em relação ao trimestre anterior e abaixo das 0,9 vez registradas um ano antes.

Questionado sobre a necessidade de uma eventual captação, Felipe Gomes afirmou que a companhia não trabalha, neste momento, com essa necessidade.

“Não, a gente não enxerga essa necessidade nos próximos meses”, afirmou.

Segundo o executivo, a CVC trabalha com cenários base e de estresse para os próximos meses, incluindo o fim de 2026 e o início de 2027. A avaliação apresentada foi de uma situação confortável de caixa nos cenários considerados pela administração.

Entre os fatores citados estão o caixa atual, os recebíveis que ainda podem ser antecipados, a sazonalidade do segundo semestre e as medidas de disciplina de custos e capital de giro.

Reestruturação reduz despesas

A posição financeira ocorre paralelamente ao processo de reestruturação da CVC Corp. No Brasil, as despesas gerais e administrativas caíram 10,1% no segundo trimestre. A companhia atribui o movimento à revisão de contratos, iniciativas de eficiência e intensificação da gestão de despesas.

A administração estima potencial de redução de custos superior a R$ 80 milhões ainda em 2026. A expectativa é de captura integral das medidas implementadas em maio a partir do terceiro trimestre.

Para Fábio Mader, CEO da CVC Corp, “os números desse trimestre não retratam o trabalho que estamos construindo”, afirmou nas considerações finais.

Segundo Mader, a empresa está concentrada em deixar a estrutura mais leve e rápida, além de acelerar o uso de inteligência artificial. “Estamos focados na reestruturação da companhia, deixando a empresa mais leve, deixando a empresa mais rápida e atuando fortemente com inteligência artificial”, disse.

Julho teve melhor mês de vendas em dois anos

Durante a sessão de perguntas, Mader também falou sobre o início do segundo semestre. O CEO afirmou que julho foi o melhor mês de vendas da CVC nos últimos dois anos, considerando a comparação sem as duas Black Fridays.

O executivo fez a ressalva de que julho e o início de agosto ainda não permitem tratar o desempenho como tendência. Segundo ele, porém, o resultado já é um fato observado pela companhia.

Mader também citou uma acomodação dos preços das passagens aéreas em julho e uma compra mais próxima do período de embarque.

O desempenho positivo, segundo o executivo, ocorreu tanto no B2C quanto no B2B.

CVC prepara novo site e aplicativo com inteligência artificial

A tecnologia é outro eixo da estratégia apresentada pela companhia. A CVC está desenvolvendo um novo site e um novo aplicativo, com entrega prevista para outubro. Segundo Mader, o projeto está dentro do cronograma e a intenção é que a nova plataforma esteja funcionando durante a Black Friday.

O sistema será desenvolvido com conceito de inteligência artificial desde a origem. A proposta é integrar os diferentes canais de venda e atendimento, mantendo a assistência dos consultores de viagens.

A CVC encerrou o trimestre com 1.627 lojas e aproximadamente 6 mil vendedores. No segundo trimestre, 55% das vendas das lojas tiveram origem em leads digitais, segundo a companhia.

Nesse modelo, o consumidor pode iniciar a jornada em redes sociais e concluir a compra com um vendedor da loja mais próxima, sem precisar necessariamente visitar uma unidade física.

Lia registra 1,3 milhão de interações

A assistente virtual Lia também passou a fazer parte dessa estratégia. Segundo a CVC, a ferramenta registrou 1,3 milhão de interações no último mês. A tecnologia atua principalmente no período em que as lojas estão fechadas, entre 22h e 10h, qualificando os leads para posterior atendimento pelos vendedores.

A companhia informou que 50% dos clientes que tiveram contato com a Lia apresentaram posteriormente engajamento com vendedores das lojas. A conversão também cresceu 150% em comparação com o período anterior à atuação da ferramenta, segundo os números apresentados no call.

Para Mader, a ideia é integrar os canais em vez de criar uma disputa entre eles. “Não existe a loja contra o site. Existe uma jornada única”, afirmou.

A proposta é combinar a rede física, os canais digitais e a inteligência artificial em uma mesma jornada de atendimento. O novo site e aplicativo devem representar a próxima etapa desse processo, com lançamento previsto para outubro.