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Julio Talon revela como a GE Celma prepara sua maior expansão

Julio Talon revela como a GE Celma prepara sua maior expansão

Líder da GE Celma, Julio Talon relembra quatro décadas de transformação e projeta o futuro da empresa

À frente das cinco unidades da GE Celma no Brasil, Julio Talon acompanha de perto uma operação que reúne mais de 3 mil funcionários e ocupa posição central na rede global de manutenção, reparo e revisão de motores da GE Aerospace. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Católica de Petrópolis, iniciou sua trajetória na empresa em 1986, ainda como estagiário, quando a Celma pertencia ao governo federal. Depois de ocupar diferentes funções, incluindo a gerência de operações entre 2005 e 2010, tornou-se responsável por todas as plantas da Celma no país. Também preside a representação de Petrópolis da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro.

Nesta entrevista à AERO Magazine, Talon fala sobre os 75 anos da Celma, a expansão em Três Rios, a formação de mão de obra, a cultura de segurança e os próximos passos de uma das maiores operações de MRO de motores do mundo.

  • Você costuma dizer que trabalhou em diferentes empresas sem sair da Celma. Como foi acompanhar tantas fases da companhia ao longo de quatro décadas?
    Entrei na Celma em 1986, quando a empresa ainda pertencia ao Ministério da Aeronáutica. Trabalhei durante cinco anos em uma organização estatal, administrada por militares e muito voltada ao atendimento da Força Aérea Brasileira e do mercado doméstico. Com a privatização, em 1991, passamos a conviver com uma disciplina maior em relação a desempenho, prazos, custos, inventários e competitividade. A empresa também começou a buscar mais clientes na América Latina. Em 1996, quando a GE assumiu integralmente a Celma, começou outra fase, marcada por investimentos em pessoas, processos, infraestrutura e acesso a novas tecnologias. Mais recentemente, com a criação da GE Aerospace como empresa independente, vivi uma quarta transformação sem deixar o mesmo lugar.
  • Quando você entrou na empresa, a Celma também se preparava para atender ao programa AMX, certo?
    Sim, naquela época, também começava a atuar na fabricação de componentes para motores do AMX. Foi uma etapa importante para desenvolver competências industriais que iam além da revisão e manutenção de motores.
  • O que permaneceu na cultura da Celma durante essas mudanças?
    A Celma já tinha uma cultura de verticalização e buscava executar internamente grande parte dos reparos e construiu uma cultura muito forte ao longo de 75 anos. Existem gerações inteiras de famílias ligadas à empresa: o avô trabalhou aqui, depois o pai, agora o filho e, provavelmente, um dia o neto. Isso cria um senso de pertencimento, comprometimento e paixão não apenas pelo trabalho, mas também pela empresa. Preservar essa cultura é uma de nossas prioridades. Estamos levando para Três Rios os processos, os conhecimentos e as pessoas que já trabalham em Petrópolis, mas também queremos criar na nova unidade o mesmo sentimento de identidade que existe aqui há décadas.
  • Como está a Celma no ano em que completa 75 anos?
    A aviação vive um momento positivo e o mercado está bastante aquecido. Ainda existem desafios, principalmente na cadeia de suprimentos, porque a retomada e o crescimento após a pandemia aconteceram muito rapidamente. Ao mesmo tempo, surgiram muitas oportunidades. Para a Celma, 2026 está sendo um bom ano. Aumentamos o volume, tivemos um primeiro semestre dentro das metas planejadas e vemos de forma positiva tanto o restante do ano quanto os próximos exercícios. A empresa está bem-posicionada, tem uma reputação forte entre os clientes e dentro da GE Aerospace e mantém sua perspectiva de crescimento.
  • Você citou a nova unidade de Três Rios. O que ela representa para essa expansão? A inauguração ocorrerá ainda em 2026?
    Nosso objetivo é concluir a estrutura e iniciar a transição até dezembro de 2026. Mas, a inauguração deverá ocorrer no primeiro trimestre de 2027, quando a unidade já estiver com as pessoas, os processos e os equipamentos em operação. Três Rios terá aproximadamente 35 mil metros quadrados e será destinada ao LEAP, motor que já revisamos em Petrópolis. Portanto, não estamos começando um produto do zero. Vamos transferir para a nova unidade uma atividade, os processos e uma equipe que já existem. Por isso, a operação poderá começar com toda a estrutura necessária, e não apenas como um projeto experimental ou em escala reduzida.
  • Qual será a capacidade da nova oficina e como ficará a divisão das atividades entre Três Rios e Petrópolis?
    A previsão para 2026 é revisar cerca de 180 motores LEAP. Com a nova unidade, queremos aumentar gradualmente essa capacidade até chegar a aproximadamente 500 motores por ano no início da próxima década, entre 2030 e 2031. A transferência do LEAP para Três Rios abrirá espaço em Petrópolis para o crescimento do GEnx, cuja demanda também é elevada.
  • Existe previsão de ampliar os reparos do fan do GEnx ou a demanda ainda não justifica uma linha dedicada?
    Hoje, recebemos predominantemente o propulsor sem o fan, porque esse componente costuma exigir menos intervenções e ocupa muito espaço. Mas a Celma possui capacidade para receber o motor completo e já realizou esse tipo de serviço no passado. Com mais área disponível, poderemos ampliar essa flexibilidade conforme a necessidade dos clientes.
  • Há muitos anos, a Celma participa ativamente da formação de mão de obra. Essa atuação continua sendo uma necessidade ou já se tornou também parte da cultura da empresa?
    Ambos. O mecânico de manutenção aeronáutica é um profissional raro no mercado. Em uma região como a Serra Fluminense, precisamos formar essa mão de obra dentro de casa. A parceria com o Senai existe há muitos anos e foi estruturada de acordo com nossas necessidades. O programa dura 18 meses. Durante esse período, os aprendizes passam parte do dia no Senai e parte dentro das oficinas da Celma. Mais recentemente, o curso passou a incluir os módulos necessários para que, ao final da formação, o aluno possa realizar a prova da ANAC e buscar a habilitação em Grupo Motopropulsor, a GMP. Isso encurta o processo de capacitação e certificação.
  • Quantos alunos são formados por ano?
    Treinamos aproximadamente entre 120 e 150 jovens por ano e pretendemos manter esse trabalho de forma permanente. Com a expansão de Três Rios, a necessidade será ainda maior.
  • O modelo de formação de Petrópolis será reproduzido em Três Rios?
    Sim. O programa já existe em Três Rios e deverá crescer nos próximos anos, possivelmente com mais alunos que em Petrópolis. Nossa intenção é instalar dentro do Senai local uma estrutura prática semelhante à que temos aqui. Em Petrópolis existe uma espécie de pequena Celma dentro do Senai, com um motor CFM e equipamentos que permitem aos alunos ter contato com desmontagem, montagem, inspeções, manuais e procedimentos. Assim, quando chegam à oficina, eles já possuem familiaridade com o ambiente e apresentam uma curva de aprendizagem mais rápida. Queremos repetir esse modelo em Três Rios. A formação de pessoas é um dos segredos do sucesso da empresa.
  • Como a Celma transforma segurança em uma responsabilidade individual?
    É treinamento, treinamento e treinamento, além de falar sobre o tema todos os dias. Todo grupo de funcionários que entra na Celma passa cerca de 30 minutos comigo. Nesse encontro, falo sobre segurança, qualidade, entregas, compromisso com os clientes e competitividade. Quando tratamos de segurança, falamos tanto da proteção das pessoas no ambiente de trabalho quanto da qualidade do serviço executado. As duas coisas estão ligadas. Um ambiente saudável e seguro favorece produtividade, motivação e um trabalho de melhor qualidade. A Celma revisa motores aeronáuticos, mas esse não é o nosso propósito maior. Nosso propósito é garantir a segurança das pessoas que voam em aeronaves cujos motores foram revisados por nós, mesmo sem saber que existimos. Essa responsabilidade precisa estar presente em cada decisão, no chão de fábrica, na engenharia e nas áreas administrativas.
  • Segundo dados da GE, aproximadamente 500 mil pessoas voam diariamente em aeronaves com motores revisados pela Celma. O que esse número representa?
    Representa o peso da responsabilidade de quem trabalha na aviação. Entre essas pessoas podem estar nossos pais, filhos, companheiros, irmãos ou amigos. O passageiro entra no avião e normalmente não pensa se o motor foi revisado, onde isso aconteceu ou quem realizou o serviço. Essa preocupação é nossa. Por trás de cada motor existem milhares de horas de treinamento, sistemas de qualidade, ferramentas, novas tecnologias, suporte de engenharia e manuais. A aviação é um negócio complexo, mas, em certo sentido, também é simples: é preciso ter disciplina para fazer corretamente aquilo que foi estabelecido.
  • Falando em disciplina, como funciona o Flight Deck e de que maneira ele mudou a gestão da empresa?
    O Flight Deck é o sistema operacional utilizado para administrar o dia a dia em todos os níveis, do chão de fábrica à direção. Ele combina os fundamentos do Lean, como trabalho padronizado, organização, solução de problemas e gestão visual, com comportamentos que consideramos essenciais. Os três principais são respeito pelas pessoas, melhoria contínua e foco no cliente. Precisamos ouvir todos os níveis da organização, aproximar a liderança de quem executa o trabalho e fornecer os recursos necessários para resolver problemas rapidamente. Também precisamos avaliar cada melhoria pela perspectiva do cliente. Reduzir um processo de dez para oito dias pode parecer um bom resultado, mas a pergunta principal é se isso faz diferença para quem recebe o serviço. Uma melhoria só cumpre seu objetivo maior quando gera o benefício de que o cliente realmente necessita.
  • O que mudou após o spin-off que transformou a GE Aerospace em uma empresa independente?
    A separação foi muito benéfica porque deu foco ao negócio. Antes, a GE era um grande conglomerado. Agora existem empresas independentes, cada uma com sua liderança dedicada integralmente ao próprio mercado. Ter o Larry Culp [presidente e CEO] totalmente concentrado na GE Aerospace permite que a empresa receba mais atenção e que as decisões sejam direcionadas às necessidades dos clientes, dos funcionários e dos acionistas. Na minha avaliação, esse foco tem contribuído para os resultados da empresa.
  • Você participou da cerimônia que marcou a separação dos negócios da GE, certo? Sim, tive a honra de participar, em Wall Street, da cerimônia que marcou essa separação. Foi mais um capítulo importante dentro das diferentes fases da empresa que acompanhei durante minha carreira. Em 2026, completo 40 anos de Celma e costumo brincar que gostaria de estar começando agora.
  • Por quê? Há algum saudosismo nessa afirmação ou ela reflete principalmente as oportunidades que você enxerga pela frente?
    Porque acredito que ainda há muita coisa boa pela frente. Essa visão também resume nosso princípio de melhoria contínua: necessariamente, a Celma de amanhã precisa ser melhor que a Celma de hoje. É uma jornada que não termina.
  • Depois de quatro décadas na Celma, como você vê o futuro da empresa e da manutenção aeronáutica?
    O setor de manutenção continuará se adaptando às novas tecnologias. Antes de grandes aeronaves comerciais totalmente elétricas, acredito que veremos uma evolução mais imediata nos combustíveis sustentáveis e, eventualmente, em sistemas híbridos. Existe um compromisso da indústria com a redução das emissões, e empresas como a Celma precisarão estar preparadas para acompanhar as necessidades do mercado. Procuro não ser excessivamente otimista, mas realista. E o que vejo para a Celma é um futuro muito positivo e promissor.





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