Investigação jornalística mostra que um Boeing 727 que operava no Brasil estaria ligado a rotas aéreas associadas aos centros logísticos usados na guerra civil no Sudão
Um Boeing 727 anteriormente operado no Brasil realizou voos entre aeroportos apontados como parte da cadeia logística utilizada pelas Forças de Apoio Rápido durante a guerra civil no Sudão. A aeronave, de matrícula PR-TTW, voou rotas cargueiras no Brasil antes de ser vendida ao exterior e transferida para uma empresa na África.
Após deixar Natal, o avião seguiu para N’Djamena, no Chade, e posteriormente operou rotas para Kufrah, na Líbia, um dos centros associados ao abastecimento do grupo paramilitar sudanês Forças de Apoio Rápido (RSF), um dos mais violentos do continente africano. O 727 era operado por uma empresa ligada ao empresário norte-americano Steven Shaulis, que mantém um histórico de contratos com o agências dos Estados Unidos e organismos das Nações Unidas (ONU).
As RSF são comandadas por Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti. Criada formalmente em 2013, a organização tem origem nas milícias Janjaweed, que atuaram na guerra de Darfur e foram acusadas de massacres, expulsões forçadas e violência contra comunidades não árabes.
Ao longo da última década, a RSF ampliou sua influência militar, política e econômica, inclusive por meio do controle de minas e do comércio de ouro. Nos últimos anos a milícia se tornou a principal rival das Forças Armadas do Sudão, comandadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, que recebe apoio do governo iraniano.
Ainda assim, nos anos que antecederam a guerra civil, a RSF manteve uma aliança de conveniência com as Forças Armadas do Sudão. As duas forças participaram da derrubada do presidente Omar al-Bashir, em 2019, passaram a dividir o poder durante o período de transição e atuaram conjuntamente no golpe militar de 2021. A cooperação, porém, convivia com uma crescente disputa entre Dagalo e al-Burhan, principalmente por pressões de aliados internacionais.
A aliança se rompeu em abril de 2023, durante as negociações para incorporar a RSF às Forças Armadas e definir quem controlaria a estrutura militar e política do país. Desde então, o grupo paramilitar tornou-se o principal rival do Exército sudanês e é acusado por organismos internacionais de execuções, estupros, saques, tortura e ataques sistemáticos contra civis, especialmente na região de Darfur.
As informações fazem parte de uma investigação publicada hoje (15) pela Reuters, baseada em registros aeronáuticos e corporativos, dados de rastreamento, imagens de satélite e entrevistas. A reportagem afirmou não ter encontrado evidências de que Shaulis ou suas empresas estejam sob sanções ou sejam formalmente acusados de irregularidades por autoridades nacionais ou internacionais.
A publicação também entrevistou mais de quarenta pessoas, entre autoridades de inteligência, diplomatas, executivos da aviação e especialistas em armamentos e política regional.
Segundo a investigação, ao menos três antigos aviões da Boeing — um Boeing 737 e dois Boeing 727 — foram utilizadas em voos entre Chade, Líbia, Somália e áreas controladas pela RSF em Darfur, conectando centros logísticos apontados por especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) como fundamentais para o abastecimento do grupo paramilitar.
Histórico de contratos
O empresário Steven Shaulis é um veterano das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos, que atua há mais de duas décadas em contratos de logística, infraestrutura e apoio operacional para governos e organismos internacionais. Ele preside a Central Asia Development Group (CADG), empresa sediada em Singapura que já prestou serviços para o governo dos Estados Unidos e agências das Nações Unidas em diferentes países.
Empresas sob seu controle receberam ao menos US$ 419 milhões em contratos financiados pelo governo norte-americano, segundo registros públicos citados na investigação. Os serviços incluíram obras em instalações militares no Afeganistão e no Iraque, intervenções em aeródromos utilizados pelo Departamento de Defesa no Quênia e projetos de assistência internacional financiados pela Usaid. Companhias ligadas a Shaulis também teriam obtido mais de US$ 160 milhões em contratos com organismos da ONU nas últimas duas décadas.
Entre as empresas associadas ao empresário estão a Occidental Support Services, registrada nos Emirados Árabes Unidos, e a Contractor Airways Proprietary Limited, sediada na África do Sul. Ambas aparecem ligadas à operação ou aquisição das aeronaves identificadas na investigação. Shaulis não é apontado como alvo de sanções nem formalmente acusado de irregularidades por autoridades nacionais ou internacionais.
Investigação a partir de Boeing 737 destruído
A investigação teve origem após a destruição de um Boeing 737 durante um ataque realizado pelas Forças Armadas do Sudão ao aeroporto de Nyala, em Darfur, em 3 de maio de 2025.
Segundo uma fonte com conhecimento direto do episódio citada pela agência, 54 pessoas morreram no ataque, incluindo 51 integrantes da RSF.
Documentos corporativos e contratos de trabalho analisados pela agência mostram que um piloto e um engenheiro de solo presentes na aeronave eram empregados da Occidental Support Services, empresa registrada nos Emirados Árabes Unidos e integralmente controlada por Shaulis.
A publicação dissenão ter conseguido determinar quem era o proprietário do Boeing 737 destruído, observando que empresas responsáveis por tripulações nem sempre são proprietárias das aeronaves utilizadas.
Boeing 727
Após a destruição do 737, outra empresa ligada a Shaulis adquiriu um outro Boeing 727. Segundo documentos da agência de aviação civil dos Estados Unidos (FAA), a aeronave foi comprada em maio de 2025 pela Contractor Airways Proprietary Limited, empresa sul-africana da qual Shaulis figura como diretor ao lado de Craig Munro, diretor-presidente da companhia.
Dados de rastreamento de voos, imagens de satélite e registros analisados pela Reuters indicam que a aeronave foi posicionada em N’Djamena, capital do Chade, e posteriormente realizou diversos voos para Kufrah, na Líbia, considerada um importante centro logístico utilizado pela RSF durante o cerco à cidade sudanesa de al-Fashir.
Aeronave brasileira na África
Outro Boeing 727 identificado pela Reuters teve origem no Brasil. A investigação também rastreou um Boeing 727 (PR-TTW), anteriormente operado pela Total Linhas Aéreas.
Segundo a empresa, a aeronave foi vendida por aproximadamente US$ 1 milhão ao corretor norte-americano Michael Ferreira, que posteriormente a revendeu para a Occidental. Documentos do Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) apontavam como operadora a empresa “Occidental Suporting Services”, grafia semelhante à Occidental Support Services.
Após partir de Natal, o Boeing seguiu para N’Djamena no fim de outubro de 2024.
Imagens de satélite analisadas pela agência mostram que a aeronave permaneceu durante meses na área militar do aeroporto da capital do Chade ao lado de outro Boeing 727 ligado às empresas de Shaulis.
A agência também identificou ao menos três voos posteriores entre N’Djamena e Kufrah.
Centros logísticos
Segundo especialistas das Nações Unidas, autoridades diplomáticas e analistas militares consultados pela publicação, os aeroportos de N’Djamena, Kufrah, Bosaso (Somália) e Nyala desempenharam papel estratégico na cadeia logística utilizada pela RSF durante o cerco de aproximadamente dezoito meses à cidade de al-Fashir.
Dados de rastreamento analisados pela agência indicam que as três aeronaves pousaram pelo menos dezesseis vezes nesses centros logísticos.
A ONU classificou os acontecimentos durante o cerco de al-Fashir como episódios de genocídio atribuídos à RSF. A tomada da cidade consolidou o controle do grupo sobre grande parte da região de Darfur.
Operações contestadas
O diretor-geral da Autoridade de Aviação Civil do Chade, Brahim Dadi, disse que nenhuma das três aeronaves possuía autorização para operar no país. O ministro das Relações Exteriores do Chade, Abdoulaye Sabre Fadoul, declarou que a participação do país no conflito limita-se aos esforços diplomáticos.
Já Abdoulaye Sabre Fadoul, ministro das Relações Exteriores do Chade, disse que o único envolvimento do Chade na guerra do Sudão ocorre por meio de esforços diplomáticos para restaurar a paz. Craig Munro, diretor-presidente da Contractor Airways, negou qualquer ligação entre a empresa e a RSF.
Steven Shaulis recusou-se a responder às perguntas da Reuters sobre as operações das aeronaves.
Guerra civil
O conflito entre as Forças Armadas do Sudão e a RSF começou em 2023, após o rompimento entre antigos aliados que haviam participado da derrubada do ex-presidente Omar al-Bashir em 2019.
Segundo estimativas citadas pela publicação, a guerra já provocou centenas de milhares de mortes, deslocou milhões de pessoas e agravou crises de fome e doenças. A ONU classifica atualmente a situação no Sudão como a maior crise humanitária em curso no mundo.
A investigação também ressalta que tanto a RSF quanto as Forças Armadas sudanesas são alvo de acusações de crimes de guerra apresentadas por investigadores das Nações Unidas e organizações de direitos humanos.
* Colaborou Edmundo Ubiratan
