Em entrevista exclusiva ao Mercado & Eventos, as autoras do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+ e pesquisadoras do CNPQ, Bruna Irineu e Larissa Pelúcio, alertam para os riscos da violência algorítmica no turismo LGBTQIAPN+. Essa agressão passa por discriminação em plataformas de recrutamento, vigilância digital em países repressivos e o silêncio das Big Techs sobre as desigualdades que seus sistemas reproduzem. O debate chega ao setor de viagens com uma pergunta central: quem os algoritmos protegem, e quem eles expõem?
Um algoritmo não é neutro. É essa a premissa central que orienta o trabalho de Bruna Irineu, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), e de Larissa Pelúcio, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ambas são coautoras do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital e bolsistas de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As pesquisadoras descrevem como as estruturas tecnológicas das plataformas digitais reproduzem e amplificam desigualdades históricas.
O que é violência algorítmica?
Irineu e Pelúcio explicam que o algoritmo é uma sequência de comandos, cálculos e decisões automatizadas que organiza o que se vê, quem aparece e quem desaparece, quem é considerado confiável, perigoso, desejável, empregável ou suspeito. A violência surge quando esse mecanismo transforma desigualdades sociais em decisões técnicas.
Para exemplificar, elas citam um exemplo bastante conhecido na literatura. A Amazon desenvolveu um sistema de recrutamento baseado em IA que analisava currículos a partir de dados dos últimos dez anos e, ao aprender com esse repositório majoritariamente masculino, passou a penalizar candidatas mulheres. Currículos com a palavra “mulheres” recebiam avaliações rebaixadas. A Amazon encerrou o projeto após identificar o viés.
O episódio não é uma exceção, é apenas a ilustração de um problema estrutural. Os dados não nascem limpos, eles carregam a história da sociedade que os produziu e se essa sociedade é racista, sexista, LGBTQIAPN+fóbica e classista, seus bancos de dados tendem a registrar essas mesmas hierarquias.
Para elas, um bom modo de explicar isso ao público é perguntar: “você já percebeu que conteúdos de ódio, escândalo ou sensacionalismo aparecem mais no seu feed, mesmo quando você segue páginas progressistas? Já teve a sensação de que falou sobre um assunto e, pouco depois, anúncios ou vídeos sobre aquilo começaram a aparecer?” Elas explicam que, “mesmo quando não há escuta literal pelo celular, existe uma imensa rede de rastros digitais, buscas, localização, curtidas, contatos, compras e padrões de comportamento que permite às plataformas inferir desejos, medos e vulnerabilidades.”
A diferença entre violência presencial e a algorítmica
A violência no espaço físico coloca o corpo em risco de modo imediato e reconhecível, como a agressão na rua, a recusa de atendimento, a expulsão de um espaço. “A violência algorítmica é mais difícil de nomear, porque se apresenta como automatização, personalização ou neutralidade.”
Uma conta derrubada, um conteúdo LGBTQIAPN+ com alcance reduzido, um anúncio de emprego ou moradia que não chega a determinados grupos, um sistema de reconhecimento facial que lê de forma equivocada a identidade de uma pessoa trans. Tudo isso constitui violência, mas vem embrulhado em linguagem técnica: “violação de diretrizes”, “conteúdo sensível”, “baixo desempenho”, “risco”.
Conteúdos de ódio, humilhação e assédio são frequentemente amplificados porque geram engajamento. “Imagens íntimas falsas produzidas por IA (deepfake e nudes) circulam em velocidade devastadora. A reparação costuma ser lenta, insuficiente ou inexistente. O dano, no entanto, é imediato, leva a vergonha pública, isolamento, adoecimento, evasão escolar e até risco de suicídio”, alertam.
Quando a recomendação vira exclusão
O mercado global de turismo LGBTQIAPN+ movimentou cerca de US$ 357,6 bilhões em 2024, com projeção de superar US$532,8 bilhões até 2030, segundo levantamento da Research and Markets. É um segmento 30% mais rentável do que o turismo convencional, de acordo com a Associação Internacional de Turismo LGBT (IGLTA). Apesar do peso econômico, as pesquisadoras apontam que a infraestrutura digital do setor ainda não tratou com seriedade as especificidades desse público.
De acordo com as pesquisadoras, ainda não há muitas pesquisas provando que sistemas de recomendação turística entregam sistematicamente resultados diferentes para pessoas LGBTQIAPN+. Porém, o que existe são evidências em camadas adjacentes. Estudos sobre plataformas de hospedagem já documentaram menor taxa de resposta ou aceitação para casais do mesmo sexo. Além disso, sabe-se que sistemas de recomendação personalizam resultados com base em histórico, localização, inferências de perfil e padrões de comportamento, o que cria um risco de viés, mesmo sem pesquisas concretas.
O turismo LGBTQIAPN+ movimenta bilhões e historicamente criou espaços de acolhimento, fuga, prazer e sociabilidade. As pessoas buscam hotéis, festas, praias, saunas, paradas LGBTQIAPN+, bairros gay, aplicativos de encontro. Tudo isso produz informação sensível sobre desejo, circulação, consumo e identidade. “No capitalismo de plataformas, esse acolhimento pode virar comoditização das identidades, quando se lucra com um segmento sem compromisso social com ele, e também extração de dados”, alertam.
Essa camada se torna crítica em países onde relações homoafetivas são criminalizadas ou socialmente perseguidas. As especialistas lembraram do caso do Grindr na região MENA, onde o aplicativo emitiu alertas a seus usuários após relatos de que policiais usaram perfis falsos para identificar e prender homens gays, bissexuais e mulheres trans.
A Human Rights Watch documentou 45 casos de prisão arbitrária envolvendo 40 pessoas LGBTQIAPN+ no Egito, Jordânia, Líbano e Tunísia. Em todos os casos, as forças de segurança vasculharam os celulares das vítimas, na maioria das vezes por meio de coerção ou ameaça de violência. O aplicativo não era apenas um canal de encontros, tornou-se uma ferramenta de mapeamento da sexualidade em contexto repressivo, com consequências que incluíram prisões, extorsões e mortes.
O pinkwashing turístico também foi lembrando. Este termo serve para denominar quando uma plataforma, por exemplo, promove um destino como “paraíso LGBT” sem contextualizar as condições políticas, sociais e de direitos humanos daquele território, produzindo uma imagem seletiva da liberdade. “A vida gay aparece como vitrine civilizatória, enquanto outras vidas são apagadas. A recomendação turística, nesse caso, não é neutra, ela organiza desejos, silencia conflitos e transforma direitos LGBTQIAPN+ em ativo de marca”, explicam.
Para quem viaja, as especialistas recomendam pesquisar a legislação local em fontes confiáveis, verificar alertas de organizações LGBTQIAPN+ e de direitos humanos, evitar expor localização em tempo real, limitar permissões de aplicativos, usar recursos de privacidade, pensar antes de compartilhar fotos íntimas ou dados de hospedagem, e considerar apagar ou ocultar aplicativos de encontro em fronteiras ou países hostis. “A questão não é culpabilizar pessoas LGBT por buscarem prazer e circulação, mas reconhecer que prazer, tecnologia e segurança estão desigualmente distribuídos.”
Quais erros evitar e como proteger o público LGBTQIAPN+
Presumir a heterossexualidade: muitos sistemas ainda organizam ofertas românticas a partir do modelo do casal homem-mulher (lua de mel, quarto, pacote, imagem promocional, linguagem de atendimento, formulário e publicidade). “Isso não impede o consumo, mas empobrece a experiência. A pessoa precisa traduzir o tempo todo sua própria vida para caber em sistemas que não foram desenhados para ela.”
Tratar inclusão como estética, e não como infraestrutura: colocar uma bandeira arco-íris na campanha de junho é uma operação de imagem. A verdadeira inclusão está em garantir denúncia rápida quando um casal lésbico é constrangido no check-in, quando dois homens são recusados por um anfitrião, quando uma pessoa trans tem seu nome social desrespeitado ou quando uma reserva é cancelada de modo discriminatório.
Não considerar a segurança digital: plataformas de viagem lidam com dados sensíveis, como nome, documento, localização, deslocamento, preferências, companhia de viagem e histórico de pagamentos. Para pessoas LGBTQIAPN+, esses dados podem revelar identidade, vínculos afetivos e práticas íntimas. Tecnologia pode acolher, mas também pode expor.
