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João Bosco detalha sua trajetória na música às vésperas de completar 80 anos de vida

João Bosco detalha sua trajetória na música às vésperas de completar 80 anos de vida

Oito décadas de vida não cabem no espaço ordinário de uma reportagem, mas é tempo suficiente para eternizar centenas de canções. Foi justamente isso o que se acostumou a fazer o cantor e compositor João Bosco. Em 2026, ele chega à marca octogenária de uma existência transversal à própria música brasileira. O artista, que já prepara um álbum comemorativo, volta a se apresentar em Pernambuco, neste sábado (30), no Teatro Guararapes, em Olinda, às 21h.


A última aparição de Bosco em Pernambuco foi em dezembro de 2022, à voz e violão, no Teatro RioMar. Agora, no palco do Guararapes, ele apresenta o show “João Bosco Quarteto” acompanhado do seu sempre virtuoso violão e dos músicos Ricardo Silveira (guitarra), Guto Wirtti (baixo) e Kiko Freitas (bateria), em um espetáculo que mistura músicas mais atuais ao seu repertório de clássicos consagrados, a exemplo de “O Bêbado e a Equilibrista”, “Bala com Bala”, “Kid Cavaquinho”, “De Frente pro Crime”, entre tantos outros.


“Costumo dizer que um show é sempre uma retrospectiva, mesmo quando você está cantando alguma coisa recente. Você não pode cantar em disco inteiro recente num show, porque tem três anos que eu não vou ao Recife e o público que me acompanha quer ouvir também aquelas coisas que dizem respeito à nossa amizade, ao princípio de tudo. Então, eu acho que o show tem essa medida de contar uma história que tenha um início, um meio e um momento atual”, conta João Bosco.




Origem

Foi em Ponte Nova, município histórico da Zona da Mata mineira, a cerca de 180 km de Belo Horizonte, que nasceu João Bosco de Freitas Mucci, em 13 de julho de 1946. E a música já lhe despertava interesse desde a infância. Aos 11 anos, ganhou de presente da irmã Auxiliadora, uma exímia pianista, um violão verde com cordas de aço, com o qual começou a desbravar a música.

Entre outras memórias de infância na cidade natal, algumas ficaram marcadas. “Ídolos da música brasileira apareciam para dar shows nos clubes. Eu não podia entrar, porque eu ainda não tinha idade para assistir aqueles shows naqueles bares. Mas me lembro que quando a Angela Maria esteve lá, ela fez um desfile de carro pela cidade e eu corri atrás do carro, porque eu era muito fã Angela Maria”, conta.

“E eu me lembro que ‘Babalu’, por exemplo, uma canção que ela cantava que me marcou profundamente. Agora, recentemente, descobri que o meu querido amigo de tantos anos, Milton Nascimento, termina o filme dele ouvindo ‘Babalu’, porque também foi uma canção que marcou muito a vida dele”, compartilha o artista sobre Bituca, apresentado a ele por um amigo de infância de Ponte Nova.


Andanças

João Bosco, que chegou a morar por um tempo em Porto Alegre, atribui sua chegada a Ouro Preto para cursar Engenharia como um divisor de águas para encontros significativos na música. “Senti naquela cidade uma vibração muito diferente de tudo. Talvez porque seja uma cidade de grande unidade barroca. Eu sei que vocês têm isso em Olinda e sabem o que quer dizer”, diz.


“Ali eu tive uma outra vida. E foi ali que eu conheci várias pessoas importantes na minha vida, como, por exemplo, o Vinícius de Moraes, o pintor gaúcho Carlos Scliar. Na casa do Carlos eu conheci e vi muita gente passando, como Baden Powell, e foi lá que eu ouvi o primeiro disco do Caetano solo, que foi o ‘Alegria’, depois dele gravar com a Gal Costa e outros. Ouro Preto foi um lugar muito diferente. Lá fiz músicas com Vinícius, mas foi lá também que eu conheci o Aldir [Blanc]”, detalha o compositor.


Parceiros

“Conheci um amigo do Aldir que me viu tocando no palco. E e ele me viu cantando umas músicas estranhas como ‘Bota Babalu Pra Pular No Pagode’ e ele chegou e disse: ‘Vem cá, essas coisas esquisitas aí que você canta, são suas?’. Eu falei: ‘São!’. E ele disse ‘Vem cá, eu tenho um amigo lá no Rio que adoraria colocar umas umas palavras aí, posso trazer ele aqui?’ Eu digo: ‘Claro’. Mas ele não estava em Ouro Preto e o amigo dele morava no Rio’, detalha.


João Bosco conheceu os grandes nomes da música brasileira em Ouro Preto e no Rio de Janeiro | Foto: Victor Correia/Divulgação


“Achei que fosse coisa de Noel Rosa, ‘conversa de botequim’ e não ia dar em nada. Mas acabou que na semana seguinte o Aldir apareceu lá uma Kombi cheia de de pessoas, inclusive o Melo Menezes, que é o pintor e fez algumas capas de disco para nós. E outros, Paulo Emilio, que era nosso parceiro do movimento artístico universitário, onde figurava o Gozaguinha, o Ivan Lins, o pianista Darcy de Paulo… era uma Kombi com umas oito pessoas”, recorda.

“Eu e o Aldir, quando nos conhecemos, no início, no verão de 1970, começamos a fazer música. Ele me disse: ‘esse amigo meu’ – o amigo dele chamava-se Pedro Lourenço Gomes, também já falecido – ‘o Pedro disse que você tem umas músicas e tal’. Aí eu eu mostrei ‘Bala com o Bala’ e mostrei o ‘Agnus Sei’, que ainda não tinham letras”.


“O Aldir gravou isso no gravador dele, numa fita cassete, levou para o Rio e começamos a trabalhar. Ele começou a mandar para mim umas letras do Rio para Ouro Preto, para eu musicar. Isso de 70 a 72. E eu comecei a musicar as letras dele, como, por exemplo, ‘Cabaré’ e ‘Caçador de Esmeraldas’. Nós tínhamos essa essa facilidade, eu musicava e ele entrava depois. No futuro, quando eu vim morar no Rio, com o amadurecimento dessa dupla, nós começamos, inclusive, a fazer coisas ao mesmo tempo, juntos”, relembra.


“E o Vinícius [de Moraes] acompanhou esse trabalho, porque ele ia todo ano para Ouro Preto. Ele passava lá o mês de maio, que é o mês que nós estamos, um mês muito bonito. (Tenho até uma canção com o Alicia Romão e com Antônio Cícero, que se chama ‘Maio’, do disco ‘Zona de Fronteira’). Geralmente Vinícius chegava no final de abril e ficava o mês de Maio, que era um era um mês muito agradável em Ouro Preto, porque a temperatura começava a esfriar e aí aquele aquele chá que ele dizia que era para tomar em Ouro Preto para se recuperar, acabava virando aquele whisky com gelo e naquela temperatura caia muito bem”, comenta.

Prestes a completar 80 anos, João Bosco segue aberto para encontros na música. “Eu estou falando dos amigos antigos, mas os amigos novos, por exemplo, o Lenine é um cara que eu admiro profundamente e somos amigos. Agora estamos tentando uma parceria, quer dizer, já até fizemos, mas ainda não tivemos tempo de ajeitar as coisas, escolher o que que a gente vai querer aqui ou ali, mas já está pronto. Eu, ele e o Chico César, que também é outro nordestino maravilhoso, o que eu amo”, antecipa.



Rio de Janeiro

A sua ida ao Rio de Janeiro, após viver a efervescência de Ouro Preto, o faria se destacar nacionalmente na música. Em 1972, teve sua primeira gravação fonográfica, marco inicial de sua profissionalização, no projeto Disco de Bolso, do jornal “O Pasquim”, no qual um artista consagrado apresentava um artista jovem e ele foi apresentado por Tom Jobim, como lado B para ‘Águas de Março’, gravou ‘Agnus Sei’, parceria com Aldir Blanc”.


“Quando a gente gravou o ‘Disco de Bolso’, o Vinícius morava aqui no bairro que eu moro hoje, na Gávea, numa rua muito próxima daqui. (…) Ele, então, fez uma recepção para mim e para o Aldir e convidou alguns amigos para ouvir o nosso repertório, incluindo o Chico Buarque, o Flávio Rangel, que dirigia o show da Maria Bethânia e era um grande diretor”, lembra.


De 1972 até hoje, foram mais de 32 álbuns com grandes sucessos e trilhas de novela que marcaram gerações.


“Quando eu cheguei no Rio de Janeiro a primeira vez, em 1969 – o Vinícius de Moraes havia me convidado – então ele me deixou no telefone um recado dizendo: ‘olha, você vem, mas quando chegar na rodoviária, você pega um táxi, diz que você quer ir para o Leblon, mas que você quer ir pela orla, pela praia, que aí você vai ver o mar’. Eu nunca tinha visto o mar do Rio de Janeiro. Como bom mineiro, eu só conhecia o mar do Espírito Santo, mas o mar do Rio de Janeiro eu nunca tinha visto”, recorda.

“Cheguei ali o início do Leblon, Copacabana, Ipanema, me lembro muito bem que era uma uma hora muito diferente onde a noite estava ainda insistido em ficar, mas já havia um sol no horizonte querendo nascer. Então, era uma situação muito peculiar, muito bonita, porque a lua estava dentro da água e o Sol no horizonte ao mesmo tempo. E Jobim fez uma canção chamada ‘Fotografia’, onde ele conta um pouco essa paisagem. Então, eu sempre gosto de cantar essa música porque ela diz muito respeito a mim’.

80 anos de arte

“É uma questão física. Você às vezes se cansa mais facilmente e isso brincadeira. Mas a cabeça não sente. Por quê? Acho que o fundamental é o que está dentro da gente, que é uma coisa que eu chamo de ‘desejo’. O desejo é que é a mágica de tudo, sabe? Quanto você deseja, você corre atrás dele, você se coloca à disposição, se esforça por ele. Você quer chegar até ele. E eu e eu tenho dentro de mim um desejo enorme pela música”, compartilha.

“Nunca pego no violão para fazer uma música. Eu pego no violão para tocar uma canção de alguém que eu admiro. Entendeu? Então, por exemplo, uma canção do Moacir Santos, ‘April Child’, que eu adoro, quem até me apresentou essa música foi Elvis Regina, quando ele gravou nos Estados Unidos. Conhecia o LP dele ‘Coisas’, mas essa música, não. Então, um dia na casa dela, ela falou assim: ‘Você já ouviu isso aqui?’ e tocou o April Child, com o próprio Moacir Santos cantando, gravado nos Estados Unidos com aquela big band, com um arranjo dele e ele mesmo tocando o saxofone. E com aquela voz impressionante, diferente de tudo, maravilhosa”.


“Enfim, eu toco canções de outros compositores. Eu começo assim a minha vida, a minha minha noite, o meu dia. Geralmente é à meia-noite, que é a hora que tudo fica mais calmo e tudo mais sereno e o telefone toca menos. Então, vou tocando aquilo e, de repente, pode acontecer uma centelha de uma ideia que está ligada ao desejo, porque você está ali para isso. Você está desejando isso. Então, de repente acontece”, conta.

“Acho que é isso que me faz ir para o palco, porque eu também desejo tocar as canções, entendeu? E eu fico duas horas em pé, duas horas e meia, além da passagem de som, e tocando coisas e aprendo muitas músicas com amigos, parceiros, enfim. E fico procurando, assistindo e acho que o segredo é esse. O desejo é a palavra fundamental para tudo e no meu caso, é a música”, reflete.

Ouça “Boca Cheia de Frutas”, mais recente álbum do artista:

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