Deborah Colker precisou olhar para dentro ao conceber seu novo espetáculo, “Remix”, de 3 a 7 de junho, no Theatro Municipal do Rio. Em busca de novos sentidos para coreografias que marcaram sua trajetória, partiu numa viagem no tempo e na memória para resgatar cenas icônicas extraídas de “Vulcão” (1994), “Rota” (1997), “4×4” (2002) e “Belle” (2014), que constroem o trabalho de agora.
O mergulho a fez mirar além do próprio repertório. Perceber que já não é mais a mesma. As duras batalhas que vem enfrentando a transformaram completamente. E ela ainda tateia à procura de uma nova forma de existir após a dor mais dilacerante: a perda do neto Theo, “a luz da minha vida”, em março. Se, enquanto esteve neste plano, o menino, que conviveu por 16 anos com a epidermólise bolhosa, inspirou a avó a criar o espetáculo “Cura”, ele segue norteando o caminho dela após sua partida.
Tanto que Deborah mudou o final da ópera “O último sonho de Frida e Diego”, sobre o reencontro do casal de artistas no Dia dos Mortos, da qual assina a direção cênica, no Metropolitan Opera House, em Nova York (hoje tem transmissão ao vivo pelo site do Met). Assim, passou ao público uma mensagem que era para si mesma: a de que a vida continua mesmo depois do fim. É o que ela mostra em entrevista ao videocast “ Conversa vai, conversa vem”, que vai ao ar nesta sexta-feira (29), às 18h, o ar no YouTube e no Spotify.
Como toda obra de arte, um livro que relê, uma música que ouve outra vez ou com um arranjo novo, sentimos novas emoções. Remontar não é só repetir os movimentos. O mais difícil é lembrar o contexto, o pensamento que deu origem ao movimento. Tudo foi pinçado cirurgicamente, roteirizado. É impressionante perceber que essas coreografias continuam fazendo sentido para mim. Tem coisas que vamos carregando na vida e outras vão ficando pelo caminho. Foram espetáculos em que experimentei muito. Tive que olhar para dentro. E quando olhei, encontrei essa história aí.
Por que esse trabalho é novo? Como fazer para que haja novos sentimentos diante de obras já apresentadas?
É como uma música que se ouve com arranjo novo. Remontar não é só repetir movimentos. É lembrar o contexto e o pensamento que deram origem ao movimento. Tudo em ‘Remix’ foi pinçado cirurgicamente, roteirizado. É impressionante perceber que as coreografias continuam fazendo sentido para mim. Há coisas que vamos carregando na vida e outras vão ficando pelo caminho. Tive que olhar para dentro. E encontrei essa história aí.
Com o feedback do público, percebe entendimento da mensagem que quis passar?
O público participa, se coloca ali ou não. “Paixão”, coreografia de “Vulcão”, é de uma intensidade que me representa. Não é sobre amor, mas sobre ímpeto, descontrole. E as mulheres botam pra quebrar, empurram os homens, ficam bravas. Depois, vem “Delírios”, de “Belle”, sobre uma mulher que ama o marido, mas tem um vazio existencial. Talvez seja sobre o que a sociedade diria que uma mulher não pode fazer. Antigamente, homens podiam ir ao bordel. Mas mulher dando vasão ao erotismo era forca. seria decapitada, queimada.
Como “Remix” dialoga com seu momento de vida?
Quando fiz “Belle”, estava num caminho novo. Adoro chamar a arquitetura, a filosofia, as artes plásticas pra falar com a dança. Ali, veio a literatura. Sempre falei da relação do movimento e do espaço. Hoje falo das ideias, dos significados e do espaço. Preciso corporalizar, é o corpo lidando com a gravidade, a fisicalidade disso. Estou mais velha, e questionando o sentido de dançar. É pra que isso?
Mais idade, outro corpo e outra cabeça…
A “Roda” do “Rota” demanda jovialidade, juventude. Tenho bailarinos que demoraram seis anos pra relaxar. O tempo é importante. O bailarino busca equilíbrio e, ali, estamos buscando o desequilíbrio, nova densidade, respiração. Na remontagem, trabalho com a memória de como aquilo foi feito. Gringo Cardia (cenógrafo e parceiro dela) confessou que nunca viu (a coreografia dos) vasos (em que bailarinos dançam no meio deles), tinha nervoso. É muito risco. Se fosse hoje, talvez, não faria. A gente vai ficando mais velho e mais medroso. Acham que tenho loucura, pelo risco, pelo difícil. Não! Gosto de desafiar a física do movimento, a gravidade. De fazer perguntas. Por que o espaço tem que ser horizontal e não vertical?
Como avalia os limites do corpo? Ou não tem limite?
Engraçado você perguntar isso, porque estou fazendo um trabalho pessoal. Preciso aprender que o limite existe (risos). Acho que existe, mas depende do que se propõe. O corpo tem infinitas possibilidades, você pode bater o seu próprio recorde. Na ópera, trabalho com uma cantora, penso que não vou poder mexer nela, mas acabo botando ela no chão gesticulando. Se tem sentido, emergência, aquilo vai encontrar um jeito de acontecer. Lido com técnica e disciplina, mas não como um aprisionamento e sim como algo libertador. Se tem técnica, pode corresponder aos desafios a que se propõe.
‘Remix’ terá um piano clássico, instrumento que tocou por dez anos, sendo tocado ao vivo. Vai tocar?
Olha, dona Maria, estou reaprendendo a viver. Tudo que quero é conseguir. Faz parte da minha história, da menina que fui e que ainda tenho dentro de mim. Fico feliz quando toco. Sinto conexões boas. Mas vamos ver…
Por que pediu ao autor da ópera, Nilo Cruz, que mudasse o desfecho do espetáculo?
Porque foi muito difícil, um desafio enorme, nesse momento, ter que dar conta daquilo. Uma ópera que fala sobre a morte no momento que perco meu neto. Eu tinha um contrato. Theo partiu em 15 de março e em 3 de abril viajei. Só entrei naquele avião porque a Clara (sua filha e mãe de Theo) e Alice (neta) estavam comigo. Fico arrepiada: era a cena final da morte de Diego e, pra mim, era importante que a morte fizesse parte da vida, e Diego encontrasse a eternidade. Aquele casal, depois de tanto conflito, ia ter paz. Falei para o Nilo: “Ninguém sabe o que é a morte, se acaba ou continua”. Na dúvida, vamos pensar que continua e há algo potente pra esses dois.
Uma mensagem que, no fundo, era para você mesma…
Theo não é só meu neto, é minha luz. Quando nasce, me indica o caminho, me transforma como pessoa e artista. Tinha determinação de encontrar a cura da doença dele, das mais terríveis. Nilton Bonder (rabino) falou: “Theo teve que ser herói por 16 anos. Agora, está encontrando a normalidade que tanto queria, esquiando na neve sem se machucar. Segue essa luz”. Mudei, comecei a acreditar.
Como assim?
Vendo Diego morrer, perdendo o ar… Eu vi o Theo morrer. Precisava de um verso potente que dissesse, no final, que o amor é tudo, que Frida e Diego iam encontrar a eternidade. É melhor escolher o tudo que o nada. Não é possível que acabe aqui. Pensar assim me deu motivação. Preciso honrá-lo. Theo é guerreiro, lutou pela EP, foi cobaia de experiências fora do Brasil, passou por situações de desrespeito, desconhecimento.
Enfrentou muito preconceito?
Esse sempre foi o meu ativismo: pela pessoa diferente. O homem que não é como o esperado porque “ai, tem feridas na pele”. Sou Leonard Cohen: na superfície perfeita, lisa, há sempre uma rachadura que é por onde a luz entra. E na rachadura que está no corpo de Frida e de Theo, a luz entra. Nilo viu que eu estava trazendo vida e morte com potência o tempo todo. Theo viveu 16 anos; Frida, 47. E dizem que foi ceifada. Não foi! Viveu com uma intensidade… Com cores, trouxe as dualidades, fez o grito e o silêncio estarem juntos. A vida e a morte. O amor e a dor.
Se tornou uma voz feroz contra o preconceito. Como pretende dar continuidade a esse legado de amor e de luta que a existência do Theo impôs?
É um caminho sem volta. Aprendo com os raros, os especiais, os únicos, os individuais. É onde consigo um caminho evolutivo. Tem que respeitar a dor do outro, respeitar as pessoas como elas são, suas condições. Todo mundo que tem que ter um lugar no mundo, bacana, digno. O que vou fazer em relação à EP eu não sei, mas algo virá. Fui completamente contaminada por essa nova percepção da vida. O preconceito, a intolerância, a estupidez são contagiosos, extremamente perigosos. Tenho pânico.
‘A morte não é o fim, e a arte ajuda a elaborar’
Em ‘Cura’, pesquisou como diferentes culturas lidavam com a morte. Como esse aprendizado te ajuda agora?
Não tenho mais como acreditar que posso viver sem espiritualidade. Ela ajuda a achar que a vida não é sobre nós, é muito maior. Me abracei ao trabalho, algo ligado ao Theo. Era a força para a missão de buscar a cura. “Vovó, vamos embora. Você tem que fazer”. Quando fiz “Cura” , encontrei a cura do que não tem cura. Tem a ver com espiritualidade: amor, alegria, dançar, rezar, conexão da terra com o céu, com forças, Deus ou deuses… Bonder falava: “Afirma a existência do Theo: Theo todo poderoso, vai!”. Eu dizia: “Não quero te arrancar, te trazer pra cá, vai!”.
O luto alterou sua relação com o tempo e a urgência de criar?
É cedo para dizer. Difícil determinar quando o luto acaba ou se aprendemos a viver com essa ausência, essa cratera. Importante respeitar. Se pular, te puxa alguma hora. A arte me ajuda a entender que o copo não está vazio. A sensação é a de que não se tem mais nada, mas quando começa a criar, vê a brotar a vida.
Qual é o limite entre lutar e aceitar?
Sempre tive dificuldade em aceitar. Cada vez mais, entendo que aceitar faz parte da luta. Se não, você fica cego, se acha onipotente. E, aí, quando não consegue, é pesado. Com Theo e o que aconteceu com o Toni (Platão, seu companheiro, que sofreu um AVC em 2024), tinha a sensação de estar em guerra. Tenho que perceber que não perdi, não fracassei. É muito importante! Enquanto o ser humano não perceber que com ele também vai acontecer, que somos vulneráveis, que mesmo sendo super-herói, tem a kriptonita…
O luto costuma paralisar, mas a dança exige movimento…
A morte não é o fim. Também movimenta. Nem que seja revelações, transformações, rituais. A memória pode ser alegre. Dentro da tristeza, buscar alegria. A arte e a cultura ajudam a elaborar, provocam a encontrar significado e a fazer novas perguntas.
Theo era inspiração na recuperação do Toni. Como ele tem lidado com a perda?
Toni sentiu muito. É ateu. Quando comecei a mexer na minha cabeça, passei a pedir a ajuda dele. É das maiores inteligências que conheço. Intelectual e de percepção, de olhar pra vida. Traz a sabedoria de ser um cara alegre. Ele está lutando, aprendendo a andar, a falar, a cantar. Deprime, entristece. Teve melhora grande. Vamos ver como isso se encaixa nessa a realidade sem o Theo. Saí do Brasil pedindo a quem estava perto pra tirar as fotos do Theo de toda a prateleira da nossa cama. Ele não deixava. Agora, começa a mexer. Significa que está lidando com isso. Temos Alice, Rafael (outros netos). Quantas vezes estou com o Toni no quarto com eles, começo a chorar e ele diz: “Para, olha as crianças”. Theo era muito preocupado com os irmãos.
Diante da morte inevitável, qual a importância de viver o agora?
Tem que ver a parte cheia do copo. Clara falava para mim: “Você precisa encontrar oxigênio”. Vamos ressignificando o momento, pessoas, afetos que estão aí, o trabalho. Tem gente que fala: “Ah, depois eu vou, depois eu faço”. Depois? Depois quando? Depois, já era!
