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Você piscou e perdeu: o desfecho da trilogia de Steven Soderbergh está na Netflix

Dinheiro não é nada mais que o começo e o final do mecanismo de transformação do sagrado esforço do homem por sua melancólica permanência no mundo, truculento, alheio e hostil, nas coisas maravilhosas de que não necessita. Comumente, em poder de muitos, o dinheiro tem o potencial destrutivo que drogas as mais perversas nunca alcançam, derretendo a última noção de ética e autorrespeito de uns tantos, inspirando atitudes tresloucadas e criminosas que movimentam as esquinas e recheiam os jornais. Não se engane: “Treze Homens e um Novo Segredo” é um filme sobre o pior do homem. No fechamento da trilogia, Steven Soderbergh continua mirando no que vê e acertando no que não vê, e poucos diretores manejam tão bem uma espiral de reviravoltas que fundem-se umas nas outras e deixam o espectador preso até o último lance.

Os roteiristas Brian Koppelman e David Levine moldam os tipos criados por George Clayton Johnson (1929-2015) e Jack Golden Russell de modo a nos fazer elucubrar acerca da viabilidade do plano de vingança dos treze ladrões do título, revelado aos poucos à medida que os personagens vão surgindo. O argumento central volta ao trabalho de Lewis Milestone (1895-1980), de quarenta anos antes, que, por seu turno, alude a“Bob, o Jogador” (1956), de Jean-Pierre Melville (1917-1973), um clássico do cinema francês do século 20. Não há nada de fenomenal na história, quiçá nem o tal segredo. Reuben Tishkoff, uma lenda da jogatina, pretende abrir um cassino em Las Vegas. Inexplicavelmente, Reuben, uma velha raposa do submundo, não é capaz de farejar o perigo das companhias desleais e aceita como sócio Willie Banks, outro veterano dos negócios suspeitos, e baixa no hospital ao saber que Banks o alijara da direção do estabelecimento. 

Os amigos de Reuben saem em sua defesa, e é esse o ponto de que Soderbergh se vale para ampararseu filme. Se num primeiro momento Elliott Gould e Al Pacino brilham sem muito esforço, o núcleo mais jovem, liderado por George Clooney, passa a ditar o ritmo do enredo, com breves referências aos longas anteriores. Na pele do carismático Danny Ocean, a primeira missão de Clooney é dar verossimilhança aos tantos artifícios usados pelo diretor a fim de fazer de Rusty Ryan, Linus Caldwell e Basher Tarr, os malandros vividos respectivamente por Brad Pitt, Matt Damon e Don Cheadle, mais que somente anti-heróis confortáveis com sua natureza maldita e conferir-lhes um propósito de vida, embora bastante torto. Sob o pseudônimo de Peter Andrews, Soderbergh volta a atacar de diretor de fotografia, e não faz feio, investindo no contraponto de cores quentes e tons cinzentos e perturbadoramente escuros para atenuar as doidices da quadrilha de Ocean, feito a ideia de alugar uma máquina de perfuração de quase seiscentas toneladas para causar um pequeno terremoto em plena avenida Strip e desse modo boicotar o cassino que Banks surrupiara de Reuben. Há quem não suporte imaginação tão fértil, mas ninguém pode dizer-se vítima de uma cilada qualquer: Soderbergh é delírio puro.

Filme:
Treze Homens e um Novo Segredo

Diretor:

Steven Soderbergh 

Ano:
2007

Gênero:
Ação/Drama/Thriller

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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