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Você começa por Scarlett Johansson e termina pensando em Dostoiévski: o thriller mais intrigante do Prime Video

Woody Allen sempre pareceu-me exausto, tomado daquele tédio estupefaciente, avassalador, invencível acerca da humanidade e sua burrice, sua má vontade, sua má-fé, seu gosto por simplificações, pelo lero-lero. Depois de passar anos gravando só em Nova York, Allen, uma espécie de consciência crítica (e melancólica) da Big Apple —, enfim, superara a preguiça da preguiça alheia e resolvera enfronhar-se em outros domínios. Todo rodado em Londres, “Ponto Final — Match Point” deu azo a empreitadas do diretor na Espanha, França e Itália, e sempre que o assunto vem à tona, especula-se sobre um possível trabalho dele no Brasil (não será para logo, infelizmente).

Quanto a “Match Point”, fazendo-se algo de que Allen tem horror, a glosa, poder-se-ia resumir que se trata da história do ex-jogador de tênis Chris Wilton, que sem aguentar mais a estressante rotina de treinos e jogos, pontuada por deslocamentos intercontinentais e a desumana pressão por vitórias, passa a viver na capital britânica, onde arruma outro emprego. Mas isso é muito pouco para se dizer acerca de um dos melhores filmes do vastíssimo universo alleniano, um oximoro para muitos sabidos, que enchem a boca de suas certezas estúpidas para cravar que a obra do cineasta é o nosso famoso samba de uma nota só, eternizado pelo grande, pelo imenso João Gilberto (1931-2019), com quem partilha semelhanças de temperamento e mesmo físicas, aliás. Insensatos corações.

É claro que muito do que ainda se diz sobre Woody Allen vem contaminado por opiniões bastante idiossincrásicas sobre seu passado amoroso. Allen, o incancelável, todavia, nunca furtou-se a corroborar que é mesmo, goste-se ou não, um gênio da estatura de João Gilberto, Tom Jobim (1927-1994), Vinicius de Moraes (1913-1980) ou Nelson Rodrigues (1912-1980), para trazê-lo para um campo semântico mais afeito ao cinema, embora seus trabalhos quase sempre soem como concertos de jazz, terreno que também conhece. Nelson disse certa feita que dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. O Anjo Pornográfico afirmara ainda que o pudor é a mais afrodisíaca das virtudes, e seu pensamento saborosamente contraditório, bem à Allen, serve como uma luva a “Match Point”, uma das tantas autoacusações do diretor-roteirista, expiando pecados de que só ele mesmo sabe.

Ascensão social e armadilhas do acaso

Aqui, Allen junta essas duas considerações no protagonista vivido por Jonathan Rhys-Meyers, um irlandês pobre que abdica da carreira no tênis em nome de um pouco de sossego e projetos mais ambiciosos. Tudo o que consegue é tornar-se instrutor num clube frequentado por milionários londrinos, entre os quais está Tom, de Matthew Goode, um jovem aristocrata que vira seu aluno e de quem se aproxima, levado por uma simpatia mútua. Não demora a surgir um convite para a ópera, e nesse encontro bastante inusitado, coisas ainda mais improváveis acontecem, e Chris é captado pelo radar de Chloe, a irmã de Tom. E então parece que a sorte vai lhe beijar a testa, afinal — não fossem as maravilhosas confusões que Allen urde como ninguém.

Amor, dinheiro e degradação moral

Chris já estava com a mão no troféu, porém não contava com Scarlett Johansson, ou melhor, Nola Rice, a noiva do personagem de Goode. Aspirante a atriz, Nola vem do mesmo planeta que o possível futuro concunhado, e Allen explora as belezas e o talento desse núcleo voltando-se ora para a dupla masculina, ora para Johansson e Emily Mortimer, e por fim para Chris e Nola, duas figuras completamente deslocadas, que dependem de seus cônjuges para ganhar a vida e, portanto, a relação dos dois não tem nenhuma possibilidade de futuro. Allen se socorre da gasta imagem de que, geralmente, amor e dinheiro andam de braços dados, mas em “Ponto Final — Match Point” o tema adquire nuanças filosóficas delicadas, graças à dicotomia de se permitir que as aparências assenhoreiem-se de tudo ou colocar abaixo o estabelecido e ver germinar o amor romântico. Não, o final não é feliz. Entretanto, o flerte do diretor com Fiódor Dostoiévski (1821-1881), como em “Crime e Pecados” (1989), ilustra uma narrativa sobre amor e degradação moral. Woody Allen não é para principiantes.

Filme:
Ponto Final — Match Point

Diretor:

Woody Allen

Ano:
2005

Gênero:
Drama/Romance

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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