Em 2010, o cineasta iraniano Jafar Panahi foi proibido pelo governo de filmar por 20 anos, de conceder entrevistas e até de deixar o país. Ainda assim, a tentativa de silenciamento nunca se concretizou. Panahi seguiu filmando, contornando restrições com engenho e insistência, e chegou a 2026 indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional por “Foi Apenas Um Acidente“. Seu cinema, profundamente político, nunca abandonou esse impulso de denúncia, um gesto contínuo de expor, tensionar e criticar o sistema que o cerca.
Muito antes dessa proibição, em 2006, ele já ensaiava esse enfrentamento em “Impedimento“, construindo uma sátira que beira o documentário, com forte dose de improviso. Para conseguir filmar, recorreu a um roteiro falso e obteve autorização para gravar no estádio Azadi, em Teerã, durante a partida entre Irã e Bahrein pelas eliminatórias da Copa do Mundo. A ideia do filme nasceu de experiências reai: a tentativa frustrada de sua filha de entrar em um estádio, resolvida apenas quando ela se disfarçou de homem, e um episódio anterior de tumulto em jogo, que deixou mortos e serviu como justificativa para o endurecimento das restrições à presença feminina nesses espaços.
No enredo, acompanhamos uma jovem que se disfarça de homem para tentar assistir a uma partida decisiva da seleção iraniana. No trajeto até o estádio, entre torcedores e olhares desconfiados, ela chama a atenção de um rapaz que se oferece para ajudá-la a entrar. Ela recusa, mas logo percebe que não está sozinha, outras garotas adotam o mesmo disfarce, movidas pelo mesmo desejo simples e proibido: assistir ao jogo.
A tentativa, porém, fracassa. A protagonista, que não tem nome, é descoberta por um soldado e levada para um cercado improvisado do lado de fora do estádio, onde outras jovens já aguardam o fim da partida para serem encaminhadas à delegacia. Ali, confinadas em um espaço que não é exatamente uma prisão, mas também não é liberdade, cada uma revela, à sua maneira, os motivos que a levaram até ali. Não são apenas histórias sobre futebol: há traços de nostalgia, pequenas rebeldias, frustrações acumuladas e sonhos.
Com estrutura aberta, o filme se constrói no presente. As falas nascem no momento da filmagem, e isso se reflete na naturalidade dos diálogos. O jogo nunca é mostrado, ele existe apenas no som: nos gritos da torcida, na vibração que atravessa as grades, na narração improvisada de um soldado que tenta descrever o que acontece em campo. Assim como aquelas garotas, também somos colocados do lado de fora. Compartilhamos da mesma exclusão, presos a um evento que só podemos imaginar.
Entre momentos de humor e pequenas tensões, o filme revela um cotidiano marcado por regras arbitrárias, onde nem mesmo quem as aplica sabe explicá-las. Não há grandes discursos, o absurdo se revela sozinho, na repetição da situação. As mulheres ali não estão lutando por um grande ideal abstrato; querem apenas ocupar um espaço banal que lhes foi negado.
A fotografia acompanha essa proposta sem qualquer artifício: câmera na mão, luz natural, imperfeições mantidas. Não há preocupação estética evidente, e justamente por isso há um realismo documental que sustenta tudo. O filme parece acontecer mais do que ser encenado.
Quando o Irã vence a partida, algo muda. Por alguns instantes, a euforia coletiva atravessa qualquer barreira. Soldados, torcedores e detidas compartilham o mesmo clima de celebração, como se aquela divisão deixasse de fazer sentido. É um momento breve, quase frágil, mas suficiente para sugerir que, apesar de tudo, existe uma experiência comum que insiste em sobreviver.
Simples na forma, direto na proposta e surpreendentemente profundo, o filme foi aclamado internacionalmente e venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim. No Irã, no entanto, acabou proibido. Mais do que isso, ampliou o desconforto entre Panahi e o governo, que passou a observá-lo com atenção redobrada, já não como um cineasta promissor, mas como alguém disposto a expor fissuras que muitos prefeririam manter invisíveis.
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