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Uma história cheia de delicadeza e sensibilidade, o filme do renomado cineasta argentino Juan José Campanella chega na Netflix

Uma história cheia de delicadeza e sensibilidade, o filme do renomado cineasta argentino Juan José Campanella chega na Netflix

Algumas amizades começam por afinidade imediata; outras surgem do choque entre duas personalidades que simplesmente se recusam a desaparecer do mundo. É dessa tensão cotidiana que nasce o coração de “Parque Lezama”, filme dirigido por Juan José Campanella que transforma um simples banco de praça em palco para uma história surpreendentemente humana, divertida e melancólica.

A trama acompanha o encontro improvável entre León Schwartz, vivido por Luis Brandoni, e Antonio Cardozo, interpretado por Eduardo Blanco. Os dois são homens idosos que carregam histórias de vida muito diferentes, mas acabam dividindo o mesmo espaço no tradicional Parque Lezama, em Buenos Aires. León é expansivo, provocador e cheio de discursos improvisados; Antonio é mais reservado, cauteloso e prefere evitar confusão. A convivência começa quase por acaso, marcada por conversas atravessadas e pequenas irritações, mas aos poucos revela uma conexão que nenhum dos dois planejava construir.

Campanella conduz essa relação com grande sensibilidade, deixando que o filme respire no ritmo das interações entre os personagens. Em vez de apostar em grandes acontecimentos, a narrativa se constrói a partir de situações aparentemente simples: um diálogo que começa com ironia, uma discussão que vira provocação pública ou uma tentativa improvisada de resolver algum problema que aparece no parque. León costuma liderar essas iniciativas, muitas vezes inventando histórias ou assumindo papéis improváveis para impressionar ou intimidar quem cruza seu caminho. Antonio observa tudo com um misto de incredulidade e preocupação, mas pouco a pouco percebe que aquela energia caótica do amigo também funciona como uma forma inesperada de proteção.

O que torna “Parque Lezama” tão envolvente é justamente a forma como a comédia surge desse contraste entre os dois. Brandoni transforma León em uma figura barulhenta e imprevisível, alguém que parece viver em permanente estado de improviso. Blanco, por outro lado, constrói Antonio como um homem que já viu o suficiente da vida para preferir cautela ao confronto. Cada encontro no banco do parque vira um pequeno duelo entre essas duas maneiras de encarar o mundo, e é dessa fricção que surgem momentos genuinamente engraçados e também surpreendentemente delicados.

Mas o filme não se contenta apenas com o humor. Aos poucos, a história revela um tema mais profundo: a sensação de invisibilidade que muitas pessoas enfrentam ao envelhecer. León verbaliza essa revolta com clareza, recusando a ideia de que a idade signifique silêncio ou irrelevância. Antonio reage de forma mais silenciosa, tentando preservar estabilidade em vez de desafiar o mundo. Ainda assim, a convivência entre os dois começa a alterar esse equilíbrio, porque a amizade acaba criando um espaço onde ambos podem recuperar algo que parecia perdido: a sensação de ainda ter voz.

Campanella filma essa dinâmica com enorme respeito pelos personagens. A câmera raramente abandona o ambiente do parque, como se reconhecesse que aquele banco já contém tudo o que importa para a história. Em vez de buscar espetáculo visual, o diretor aposta na força do texto e na química entre os atores. E essa aposta funciona muito bem, porque Brandoni e Blanco dominam cada pausa, cada troca de olhar e cada provocação com uma naturalidade que faz os personagens parecerem absolutamente reais.

Verónica Pelaccini também aparece em momentos importantes da narrativa, ajudando a ampliar o universo ao redor dos protagonistas e lembrando que a vida deles não se resume apenas às conversas no parque. Ainda assim, é no encontro entre León e Antonio que o filme encontra sua verdadeira energia. Eles discutem, discordam e às vezes parecem incapazes de dividir o mesmo espaço sem conflito, mas existe ali um tipo de lealdade silenciosa que cresce a cada novo encontro.

“Parque Lezama” pode parecer, à primeira vista, um filme pequeno, quase íntimo demais para o cinema. No entanto, essa simplicidade acaba se transformando em sua maior força. Ao acompanhar dois homens que se recusam a aceitar o apagamento imposto pelo tempo, Campanella constrói uma história que alterna humor, fragilidade e afeto com grande delicadeza. O filme deixa uma impressão muito clara: às vezes, tudo o que alguém precisa para continuar lutando contra o mundo é simplesmente um banco de praça… e alguém disposto a sentar ali ao seu lado.

Filme:
Parque Lezama

Diretor:

Juan José Campanella

Ano:
2026

Gênero:
Comédia/Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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