Sempre haverá episódios sobre os quais pouco se sabe — ou sobre os quais não se sabe tudo — envolvendo a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A Segunda Guerra continua sendo o saco sem fundo da História, e quanto mais se mexe, mais surgem enredos sempre macabros, por óbvio, mas que também guardam notas divertidas a respeito dos vilões e, mais importante, dos heróis que ganharam fama durante esse triste momento da humanidade. Dotando seu trabalho de ritmo, guinadas muitas vezes artificiosas, mas tecnicamente irrepreensíveis, referências metalinguísticas pouco óbvias e algum humor, o polonês Michał Kwieciński faz de “Servindo Nazistas” o resgate de uma narrativa confusa, mas digna de ser explicada. Levando a termo uma proposta irreverente, Kwieciński e os corroteiristas Anna Gronowska e Michał Matejkiewicz esmiúçam as artimanhas de um rebelde solitário, que se vale de seu corpo como uma arma contra Hitler. Esta é uma daquelas tramas que só poderiam mesmo ter saído da vida como ela é.
O homem passa a vida defenfendo-se de seus próprios impulsos, abafando a vontade de rebelar-se contra toda a insana fantasia que o cerca, e dessa forma refina o propósito de se aperfeiçoar, de fazer da permanência neste plano um tempo mais afortunado. Essas são as impressões de Leopold Tyrmand (1920-1985), um espectador privilegiado do que se passava na Europa oito décadas atrás, quando judeus não conjugavam nenhum verbo além de “aceitar”. “Filip” (1961), o romance semi-autobiográfico de Tyrmand, confere ao personagem-título a dimensão de um revolucionário pitoresco, bem próprio dos contos da Idade Média. Resolvido a não ser uma presa fácil dos alemães, Filip se diz francês e é admitido como garçom no outrora glamoroso Hotel Park, em Frankfurt, mantendo a Polônia somente em suas recordações mais íntimas. Kwieciński recorre a um erotismo gourmet a fim de detalhar a metamorfose de Filip, de um humilde membro do lumpemproletariado para o garanhão que desonra as esposas e namoradas de oficiais da SS e do Partido Nacional-Socialista teutônico. A beleza de Eryk Kulm faz crer que esta nem foi uma ofensa tão ultrajante assim para o Führer.
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