Em “O Grande Hotel Budapeste”, Ralph Fiennes, F. Murray Abraham e Mathieu Amalric, sob direção de Wes Anderson, encenam a aliança entre um gerente lendário e seu jovem mensageiro para proteger um quadro renascentista e uma herança cobiçada, enquanto a ascensão de forças autoritárias ameaça fechar fronteiras e interditar rotas.
No balcão do hotel, Monsieur Gustave (Ralph Fiennes) organiza reservas, flores e bilhetes com rigor quase militar, porque sua autoridade depende de reputação intacta entre hóspedes aristocratas. Ele aposta no recém-contratado Zero (Tony Revolori), um refugiado sem documentos, para cumprir tarefas delicadas e ganhar acesso aos corredores privados. A parceria enfrenta a vigilância da família de uma cliente falecida, que recusa o testamento e pressiona advogados. Ao assumir a execução de detalhes do inventário, Gustave amplia seu controle sobre o cofre e reduz a margem de manobra dos herdeiros.
Quando o testamento revela a transferência de um quadro valioso para o gerente, a família reage com rapidez e tenta reverter a decisão em cartório. Gustave decide retirar a pintura do palacete antes que a casa seja lacrada, porque entende que posse imediata altera a posição na disputa. Zero conduz a operação pelos corredores e pela escadaria de serviço, enquanto um herdeiro agressivo mobiliza capangas e advogado. A retirada do quadro garante poder de negociação e coloca os dois no radar das autoridades.
O quadro muda de mãos
Com a pintura já fora do palacete, Gustave precisa registrar a posse para evitar apreensão, mas encontra resistência no escritório que controla o espólio. Ele não diz, mas sabe que um carimbo no documento define quem entra e quem fica de fora do cofre; por isso envia Zero para buscar contatos antigos que possam autorizar a guarda temporária, o que lhes compra dias preciosos e retarda a investida dos rivais. A família aciona a polícia local e questiona a autenticidade da assinatura no testamento. O impasse transforma o quadro em prova e em risco, elevando o custo de cada deslocamento.
No trem que cruza montanhas cobertas de neve, agentes uniformizados verificam papéis e revistam bagagens, porque o clima político já impõe controle sobre viajantes. Gustave responde com formalidade e insiste em seus direitos como cidadão respeitado do hotel, enquanto Zero mantém o envelope com documentos próximo ao casaco. A inspeção interrompe a viagem e cria um prazo concreto para apresentar comprovação de propriedade. A tensão administrativa produz humor seco quando a elegância do gerente colide com a burocracia armada.
Fuga pelos trilhos
A disputa se desloca para delegacias e salas de audiência, onde Gustave precisa explicar a origem do quadro e sua relação com a falecida. Ele contorna perguntas diretas e pede acesso a registros internos do hotel que comprovem visitas e correspondências. O herdeiro insiste em fraude e pressiona por prisão preventiva, tentando impor autoridade pela força. A cada requerimento protocolado, a defesa ganha tempo e reorganiza aliados, recuperando acesso a recursos financeiros.
Zero assume tarefas que vão do envio de telegramas à coordenação de encontros discretos com aliados do passado de Gustave. Ele negocia horários, recolhe assinaturas e arquiva cópias, porque qualquer lacuna pode reabrir a apreensão do quadro. A proximidade entre os dois deixa de ser apenas profissional quando o jovem percebe que o mentor arrisca reputação e liberdade para manter a palavra dada à cliente. Essa lealdade altera a hierarquia interna e consolida Zero como braço direito com autoridade operacional.
Herança em disputa
A família amplia a pressão ao questionar a sanidade da falecida e tenta interditar a execução do testamento, buscando anular a transferência do quadro. Gustave recua estrategicamente e aceita mediação, desde que o objeto permaneça sob sua guarda até decisão final. O acordo provisório estabelece prazos e restringe movimentações, o que reduz o risco de confisco imediato. A negociação preserva o acesso ao cofre e mantém a pintura fora do alcance dos rivais.
O humor emerge na forma como Gustave trata cada audiência como extensão do lobby, ajustando postura e vocabulário para desarmar adversários. Ele insiste em etiqueta impecável diante de oficiais impacientes, criando contraste que expõe o absurdo das acusações. A plateia percebe o cálculo por trás do charme, porque cada frase busca proteger um documento ou ganhar um dia extra. O efeito prático aparece quando a guarda do quadro é mantida até nova sessão.
Entre guerras e fronteiras
A mudança política no país altera o ambiente do hotel e impõe inspeções mais frequentes, afetando reservas e circulação de hóspedes. Gustave tenta preservar o padrão de serviço enquanto lida com exigências oficiais que ameaçam fechar o estabelecimento. Zero administra a correspondência e reorganiza o quadro de funcionários para evitar demissões precipitadas. A adaptação garante funcionamento mínimo e protege receitas essenciais.
Anos depois, o próprio Zero, já interpretado por F. Murray Abraham, relata como aquelas decisões moldaram seu destino e o do edifício. Ele descreve arquivos reabertos, dívidas pagas e o peso de manter um nome em meio a bandeiras trocadas nas fachadas públicas. A memória não serve como ornamento; ela registra que a posse do quadro e a defesa do testamento definiram quem controlou o cofre e quem perdeu acesso aos salões. Ao preservar a pintura sob sua guarda, a dupla mantém a chave do hotel e sustenta sua posição quando o mapa ao redor muda.
Filme:
O Grande Hotel Budapeste
Diretor:
Wes Anderson
Ano:
2014
Gênero:
Comédia/Drama
Avaliação:
9/10
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Helena Oliveira
★★★★★★★★★★
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