Em meados dos anos 1990, o cinema transformou a figura do serial killer em espetáculo. Muito disso tem relação com “O Silêncio dos Inocentes“, que cristalizou um tipo específico de violência: elegante, calculada, sedutora. Hannibal Lecter, vivido por Anthony Hopkins, não era apenas um assassino, era um artista. Um homem que pensava a morte como ritual, que selecionava vítimas com método e transformava o horror em gesto estético. A violência, ali, não era impulso, mas linguagem.
O público ficou entusiasmado com essa ideia. Havia fascínio, mas também um certo conforto em observar o mal quando ele parece ter lógica, sofisticação e controle. O problema é que, nesse processo, a brutalidade virou um espetáculo. Entrar na mente desses assassinos virou entretenimento. E, no fundo, o cinema percebeu rápido demais que havia um apelo quase irresistível nessa combinação de repulsa e curiosidade.
É aí que entra “Kalifornia“, como uma resposta. O roteiro, idealizado por Stephen Levy e Tim Metcalfe, nasceu com a intenção de ser uma sátira sombria dessa obsessão coletiva. Mas o projeto se perdeu (ou se encontrou) no caminho. Reescrito inúmeras vezes, ele muda de tom quando Dominic Sena assume a direção. Sai a ironia e entra o terror.
Com orçamento inicial extremamente pequeno, o valor acabou inflado com a entrada de nomes como Brad Pitt, Juliette Lewis e David Duchovny. No enredo, Brian Kessler (Duchovny) é um escritor em busca de material para um livro sobre assassinatos em série. Ao lado da namorada, Carrie (Michelle Forbes), ele decide cruzar os Estados Unidos documentando cenários de crimes reais. Para baratear a viagem, aceitam dividir o trajeto com um casal desconhecido: Early (Pitt) e Adele (Lewis).
A dinâmica entre eles é inicialmente desconfortável. Early e Adele possuem uma energia desajustada, sem classe. São barulhentos, invasivos, intensos demais. Carrie observa com curiosidade, talvez até com uma ponta de fascínio. Brian, mais pragmático, enxerga apenas a economia. O que nenhum dos dois percebe é que carregam no banco traseiro o objeto de sua própria análise.
E é aqui que o filme rompe de vez com a lógica de Hannibal Lecter. Early não é sofisticado, não é metódico, não tem qualquer verniz intelectual que o torne “interessante”. Ele é impulsivo, vulgar, imprevisível. Mata sem ritual, sem discurso, sem necessidade de justificar seus atos. Não há filosofia, não há estética, há apenas violência. Se Lecter permite ao público uma distância segura, Early elimina qualquer mediação. Ele é banal. E justamente por isso, assustador. Pode ser qualquer estranho na rua.
As atuações são fundamentais para essa proposta. Brad Pitt tenta se afastar da imagem de galã, criando um personagem sujo, vulgar e com um dente quebrado propositalmente para o papel. Já Juliette Lewis constrói Adele quase infantil, ingênua, emocionalmente dependente, presa a uma relação que mistura devoção e submissão. O fato de os dois serem, à época, um casal na vida real permitiu uma química altamente palpável.
Mas “Kalifornia“ acabou caindo em um limbo. Talvez desconfortável demais para o comercial e cru demais para o cult. Enquanto “O Silêncio dos Inocentes“ virou referência cinematográfica, “Kalifornia“ ficou deslocada, esquecida. Mas sabe que é esse o charme? O filme não tenta organizar seu caos ou dar sentido à violência, ele apenas aceita que é perturbador.
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