Categories: Cultura

Um sci-fi perturbador, cerebral e esquecido: por que este filme dos anos 90 merece ser revisto na Netflix

A ideia central de “O Enigma do Horizonte” não gira em torno de monstros, mas de limites. Limites da ciência, da sanidade e, sobretudo, da arrogância humana diante do desconhecido. O filme parte de uma premissa direta: em 2047, a nave Event Horizon reaparece após sete anos desaparecida, e uma equipe de resgate é enviada para investigar o que restou. Desde os primeiros minutos, a narrativa deixa claro que a viagem não será sobre salvar algo, mas sobre confrontar aquilo que deveria ter permanecido inacessível.

O reencontro com a nave acontece sob uma atmosfera sufocante. Não há sinais de luta recente, tampouco respostas imediatas. O silêncio é o primeiro aviso. O capitão Miller, interpretado por Laurence Fishburne, conduz a missão com pragmatismo, enquanto o doutor William Weir, vivido por Sam Neill, carrega um entusiasmo inquietante. Ele não é apenas o criador do motor gravitacional da nave; é também o porta-voz de uma fé cega no progresso, incapaz de reconhecer as consequências do próprio experimento.

A partir do momento em que a tripulação entra na Event Horizon, o filme abandona qualquer ilusão de segurança racional. Alucinações começam a surgir, sempre ligadas a traumas pessoais: culpa, luto, violência. O terror não vem de fora, mas de dentro. Weir, aos poucos, deixa de ser um cientista e assume o papel de mediador entre dois mundos, convencido de que o lugar visitado pela nave representa uma evolução, não uma condenação.

Essa escolha narrativa afasta o filme de comparações preguiçosas com histórias de criaturas espaciais. Não existe um inimigo a ser derrotado, nem uma ameaça concreta a ser eliminada. O que está em jogo é a ideia de que certas fronteiras não foram feitas para serem atravessadas. O buraco negro criado pelo motor não leva apenas a outra dimensão física, mas a um espaço onde dor e desejo se confundem, algo que o roteiro sugere sem jamais explicar por completo.

Paul W. S. Anderson demonstra um controle surpreendente do ritmo, apostando mais na tensão acumulada do que em choques fáceis. Mesmo quando a violência se intensifica, ela aparece como consequência inevitável, não como espetáculo gratuito. É impossível ignorar o potencial de cenas ainda mais perturbadoras que ficaram de fora, fruto de decisões comerciais que suavizaram aquilo que poderia ter sido mais radical.

O elenco sustenta esse equilíbrio instável. Sam Neill constrói um William Weir perturbador justamente por sua calma, enquanto Fishburne oferece um contraponto ético sólido. Joely Richardson, Kathleen Quinlan, Jason Isaacs e Richard T. Jones completam o grupo com personagens que, embora não profundamente explorados, despertam empatia suficiente para que o perigo tenha peso real.

“O Enigma do Horizonte” é um filme injustamente subestimado, lembrado mais por fãs de ficção científica e terror do que pelo público amplo. Talvez porque se recuse a oferecer explicações confortáveis. Talvez porque sugira que o inferno não é um lugar distante, mas uma consequência lógica da curiosidade sem freios. O que assusta não é o que a nave encontrou, mas a facilidade com que alguém decidiu atravessar aquela porta.

Filme:
O Enigma do Horizonte

Diretor:

Paul W.S. Anderson

Ano:
1997

Gênero:
Ficção Científica/Suspense/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

Recent Posts

O sci-fi do Prime Video que transforma ciência em pânico — e te faz desconfiar até do que você sente

A sensação de que forças invisíveis rondam as fronteiras do real cria o cenário perfeito…

3 minutos ago

CEOs discutem geopolítica, eleições e custos sob pressão no Lacte 21

São Paulo (SP) — Em um ano marcado por conflitos armados, fronteiras mais rígidas, exigências…

7 minutos ago

Arrecadação federal bate recorde e soma R$ 325,7 bilhões em janeiro

A arrecadação federal alcançou R$ 325,7 bilhões em janeiro, o maior valor já registrado para…

25 minutos ago

Vila Vestir Massayó reúne mais de 100 artesãs do programa Economia Solidária até o dia 1º de março

Artesãs do programa de Ecomomia Solidária expõem e vendem seus produtos na Vila Vestir Massayó…

33 minutos ago

Por que o sapiens difamou tanto o neandertal?

Em 1856, escavadores que trabalhavam em uma caverna no Vale do Neander, na Alemanha, descobriram…

57 minutos ago

Um dos melhores filmes de ação do último ano acaba de chegar ao Prime Video

“Anônimo 2”, de Timo Tjahjanto, acompanha Hutch Mansell em um momento de desgaste que nasce…

1 hora ago