Acompanho a produção literária de Raquel Naveira há cerca de três décadas, uma autora que vem de uma trajetória marcada por intensa e densa criatividade, não apenas como escritora que transita por diversos gêneros, mas como professora, crítica e ensaísta, com uma bibliografia bem referenciada e recebida pela crítica.
Em “Ursa maior” (Scotecci, 2025), seu novo livro condensa o olhar multifacético de uma rastreadora de mundos, cartografando, numa perspectiva de mundiviudências, o universo das Letras, aí compreendendo a plenitude da constelação que as diversas categorias da escrita simbolizam a partir do metafórico título.
Trabalho de prospecção na aluvião cósmica dos extratos literários, a partir da reflexão, diálogo e inflexão filosófica que a autora entabula com autores e obras, dos clássicos aos contemporâneos, da tradição à vanguarda, essa empreitada de fôlego consiste num pout-pourri não apenas temático, mas de vertentes literárias, sendo que enquadrá-lo simplesmente como romance ou texto autobiográfico seria uma redução que empobreceria um volume de natureza heterogênea, tal o hibridismo com que forja suas concepções críticas. Na verdade, “Ursa maior” é um mapeamento do que há de mais reluzente nas galáxias literárias, a partir de uma exegese muito singular de uma escrita que, operando entre a ficção e a memória, albergada por uma linguagem diáfana e cristalina, vai pontuando, no amálgama da prosa poética e em clave fragmentária, toda uma vida dedicada à leitura (e, primordialmente, ao seu ensino), calcada nas percepções de alguém que transcende o mero espaço de suas convicções estéticas para impor-se como testemunho-testamento de um tempo em que obras e autores que deixaram suas marcas no cânone pessoal, mas também na construção de uma vasta bibliografia, culminam em baliza para os estudos presentes e de futuras gerações.
Segmentado em “Pontos luzentes”, “Astros cintilantes” e “Luminescências”, Raquel Naveira sinaliza para os leitores a amplitude desse vasto mundo da criação literária e de suas perspectivas pessoais, deduzindo os seus escritores eletivos e a deambulação afetiva por uma órbita onde gravita uma panóplia de emoções e sensações epifânicas, muito bem identificado no prefácio do escritor Krishnamurti Góes dos Anjos, para quem, além das dimensões oníricas e das expansões espirituais que o prazer da leitura emula, a autora “exercita uma veia literária onde aflora uma erudição notável e uma vasta bagagem de leitora e professora de literatura”.
Invocando suas raízes açorianas e indígenas, o apelo das várias influências culturais e históricas na sua formação, seja como mulher e ser pensante, e, sendo uma estrela entre eles, a autora enumera os astros que sempre a iluminaram nesse percurso profícuo, não apenas na literatura, mas na pintura e em outras linguagens artísticas, entre os quais Pablo Neruda, Drummond, Bandeira, Kafka, Saint-Exupéry, Yeats, Cassiano Ricardo, Blake, Jane Austen, Poe, Vermere, Champollion etc, pois o que sobressai de seu arcabouço literário e intelectual é a consciência de humanidade e civilização que esses ambientes nos proporcionam.
Com cerca de quatro dezenas de obras, participação em diversas entidades literárias e uma vida acadêmica de simbiótica interlocução com seus pares, com “Ursa maior! Raquel Naveira consolida-se como umas das vozes mais representativas e polifônicas da literatura contemporânea brasileira.
Ronaldo Cagiano
Escritor, crítico literário, poeta e membro da Associação Nacional de Escritores.
E-mail: ronaldo.cagiano@hotmail.com
Texto original publicado no Jornal Linguagem Viva / página 7 – setembro de 2025.
SOBRE A AUTORA
Uma mulher sensível, escritora, pesquisadora de Literatura e Arte, numa noite estrelada e insone, olha para a imensidão do cosmos, vê a constelação da Ursa Maior, que passa a ser a sua interlocutora. Aos poucos, vai relatando suas angústias, suas descobertas, suas leituras, seus gostos e delírios, num processo poético e existencial de autoconhecimento.
SERVIÇO
Livro: URSA MAIOR
Autora: Raquel Naveira
Scortecci Editora / ISBN 978-85-366-7044-7
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