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Um filme de ação na Netflix tão intenso que você vai querer assistir duas vezes

Um filme de ação na Netflix tão intenso que você vai querer assistir duas vezes

Em Jacarta, Ito tenta voltar para casa com a esperança de que o passado aceite distância. Em “A Noite nos Persegue”, Timo Tjahjanto coloca Joe Taslim, Iko Uwais e Julie Estelle numa trama em que um executor de alto nível rompe a própria tríade ao poupar uma criança durante um massacre e, a partir daí, precisa mantê-la viva enquanto foge de uma caça que vem de dentro.

A decisão de Ito nasce de um freio raro. Ele não muda de profissão nem reescreve a biografia; apenas escolhe não matar. A motivação é simples, quase física: um impulso de misericórdia que chega tarde. O obstáculo é imediato. A tríade vive de obediência e exemplo, e um desvio vira ameaça de contágio. O efeito é colocar na mira um homem treinado para cumprir ordens, sem tempo para negociar nada.

O filme arma essa fuga como um procedimento improvisado. Ito procura abrigo em contatos antigos, tenta arrumar uma saída para ele e para a menina, cogita desaparecer antes que o cerco se feche. Cada passo pede confiança, e confiança é artigo em falta. Amigos querem saber onde ele esteve, o que fez, o que trouxe. O risco cresce porque proteger alguém exige exposição: telefonemas, deslocamentos, pedidos de favor, tudo vira rastro.

Arian, tríade e a caça vira pessoal

Em paralelo, a tríade decide quem vai apagar o problema. Arian, vivido por Iko Uwais, é convocado para caçar o amigo de juventude que virou traidor. A motivação é dupla: lealdade a quem paga e a chance de subir mais um degrau. O obstáculo é justamente a história compartilhada. Caçar um desconhecido é trabalho; caçar alguém que conhece suas manias vira ajuste de contas. O efeito é dar à perseguição um rosto, uma direção, não apenas volume.

A escolha seguinte é elevar o nível do ataque. Entre os nomes mobilizados surge uma assassina interpretada por Julie Estelle, que entra no tabuleiro como solução prática: alguém sem afeto, sem hesitação, paga para encerrar o assunto. A motivação dela é profissional, e isso muda o jogo. O obstáculo, para Ito, passa a ser previsibilidade. Não basta correr; é preciso adivinhar a tática de quem não tem compromisso com regra alguma além do resultado. A consequência é um ritmo de fuga que não permite descanso, porque a ameaça se move com disciplina e rancor.

Tjahjanto encosta a câmera na carne

Tjahjanto encosta a câmera na carne e trata cada embate como decisão forçada. Quando a perseguição alcança Ito, a pergunta deixa de ser se haverá luta; passa a ser o que essa luta impede ou permite: atravessar uma porta, manter um aliado de pé, comprar minutos para trocar de endereço. O sangue não aparece como enfeite. Ele marca o custo de cada escolha. Assim, o excesso vira dado, e a violência não fica apenas no espetáculo.

Há momentos em que o enredo parece reduzir tudo a logística. Um lugar seguro deixa de ser seguro. Um aliado vira peso. Uma ajuda vem com condição. Ito segue. Reina segue. Ninguém discute muito. Ninguém pode. A cada ataque, a janela de saída diminui.

Reina como espelho e peso da proteção

Nesse desenho, a menina deixa de ser apenas motivo para ação. Reina existe como espelho incômodo do que Ito foi e do que ele tenta negar. Ele a carrega, a esconde, a escuta quando dá, e isso o obriga a decidir com alguém mais frágil ao lado. O obstáculo é que ele só conhece uma linguagem, a da força. O efeito é um paradoxo duro: proteger também significa ferir antes que outros firam.

A rivalidade com Arian, anunciada desde o princípio, funciona como relógio invisível. Quanto mais a caça avança, mais as opções de Ito se estreitam, ou melhor, mais ele percebe que cada solução provisória aumenta a dívida com quem o ajuda. A motivação dele muda: começa como culpa, vira sobrevivência, depois vira responsabilidade. O obstáculo permanece o mesmo, o passado que não aceita ser ignorado. A consequência é um caminho sem retorno fácil.

Confronto inevitável e a conta final

À medida que a perseguição afunila, o filme recusa o alívio de uma conversa explicativa e empurra os personagens para o choque direto. Arian entra para encerrar o caso com as próprias mãos, e a assassina contratada avança com a frieza de quem só cumpre serviço. Ito reage com o repertório que tem — movimentação, cálculo, reflexo — e com um aprendizado recente, simples e caro: às vezes recuar é a única forma de manter Reina viva. O risco já não é apenas morrer; é perder a única decisão que o tirou da máquina.

Parte do fascínio de “A Noite nos Persegue” vem do modo como ele empilha urgência sobre urgência e transforma deserção em motor dramático. O prazer do filme está na coreografia e na intensidade, mas a história insiste numa pergunta seca: um ato de misericórdia compensa uma carreira inteira de mortes? Tjahjanto não oferece resposta confortável. Ele mantém a contagem, empurra os corpos, fecha portas e deixa Ito escolher, de novo, sob pressão.

Filme:
A Noite nos Persegue

Diretor:

Timo Tjahjanto

Ano:
2018

Gênero:
Ação/Crime/Thriller

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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