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Um dos filmes mais lindos de 2026: adaptação de clássico da literatura que transforma o gótico em experiência poética na Netflix

Em “Frankenstein”, Guillermo del Toro abandona qualquer pressa por impacto e prefere acompanhar, passo a passo, a degradação de um homem que acreditava ter tudo sob controle. Victor Frankenstein (Oscar Isaac) é apresentado como um cientista brilhante, articulado e profundamente convencido de que sua inteligência o autoriza a ultrapassar limites. Ele não age por desespero imediato, mas por ambição prolongada, movida pela promessa de reconhecimento e domínio absoluto sobre sua criação.

A decisão de dar vida à criatura não surge como um momento isolado de ruptura, e sim como o resultado de escolhas acumuladas. Victor acelera etapas, ignora alertas técnicos e transforma o laboratório em um espaço fechado, onde apenas ele dita regras. Esse isolamento funciona como vantagem inicial, permitindo avanços rápidos, mas logo se revela um obstáculo: quanto menos gente sabe o que está acontecendo, menos margem existe para corrigir erros quando algo sai do previsto. O filme deixa claro que o problema não é criar, mas insistir em controlar sozinho.

A criatura, interpretada por Jacob Elordi, surge menos como ameaça imediata e mais como presença incômoda, cuja simples existência desmonta o plano de Victor. Del Toro evita transformá-la em espetáculo. O foco está na reação do criador diante daquilo que já não responde às expectativas. A cada tentativa de impor regras, Victor perde autoridade. Ele tenta organizar rotinas, estabelecer limites e manter tudo sob sigilo, mas quanto mais força, mais frágil sua posição se torna.

Christoph Waltz entra como uma figura que representa experiência, cautela e, em certo sentido, consciência prática. Seu personagem observa, questiona e oferece caminhos que poderiam reduzir danos, mas sempre encontra resistência. Victor negocia, cede parcialmente e esconde informações quando convém. Essas escolhas não geram grandes reviravoltas, e esse é justamente o ponto: o filme aposta no desgaste gradual, na erosão silenciosa do controle, em vez de choques repentinos.

Há um humor discreto, quase seco, especialmente na forma como Victor se agarra a justificativas técnicas para decisões claramente emocionais. Del Toro observa esse comportamento com ironia contida, deixando que as contradições do personagem falem por si. Não há discursos explicativos nem julgamentos explícitos. O constrangimento nasce do fato de que Victor sempre acredita ter mais uma solução, mesmo quando as opções já diminuíram drasticamente.

Visualmente, o laboratório funciona como extensão do conflito. O espaço que antes simbolizava domínio passa a restringir movimentos, impor prazos e amplificar riscos. Cada ajuste improvisado gera uma nova limitação. O filme não precisa explicar isso: basta mostrar como Victor passa de alguém que autoriza acessos para alguém que reage a emergências. A inversão de poder é gradual, mas incontornável.

“Frankenstein” não está interessado em sustos fáceis nem em grandes viradas finais. O drama se sustenta na observação de escolhas e custos. Ao recusar atalhos narrativos, del Toro entrega uma história sobre ambição que se corrói por excesso de confiança. O impacto não vem de uma revelação, mas da constatação de que certas decisões, uma vez tomadas, reduzem todas as saídas possíveis.

Sem oferecer respostas confortáveis, o filme termina fiel à lógica que construiu desde o início: quem cria esperando controle absoluto acaba lidando apenas com consequências imediatas. E del Toro acompanha esse processo com paciência, clareza e uma dose calculada de ironia, transformando “Frankenstein” em menos uma fábula de terror e mais um retrato humano de limites ignorados.

Filme:
Frankenstein

Diretor:

Guillermo del Toro

Ano:
2026

Gênero:
Drama/Fantasia/Ficção Científica

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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