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Um dos filmes mais importantes de Sidney Poitier chegou ao Prime Video — e segue atual

Em geral, americanos se saem muito bem quando usam o cinema para expor suas fragilidades. Assuntos espinhosos como racismo, sexo, drogas, as perenes iniquidades do jeito de viver propagado pela nação mais plural (e mais complexa) do planeta costumam vir à baila com toda a virulência nos filmes, o que nem de longe afasta o público, pelo contrário: quanto mais coragem um diretor usa na elaboração de um argumento ingrato, mais o espectador sente-se compreendido, certo de que suas dores não são só suas. Com “No Calor da Noite”, Norman Jewison (1926-2024) dá uma contribuição sólida quanto a se entender uma das chagas mais dolorosas dos Estados Unidos, com um recorte bem incômodo. Sidney Poitier (1927-2022) talvez tenha sido aquele que com mais elegância personificou em Hollywood a coragem de voltar à discriminação por critérios raciais um olhar acurado e combativo, sem vitimizar-se. Heróis como Virgil Tibbs, o abnegado detetive que ancora o filme de Jewison, passou à História como o exemplo do policial idealista, incorruptível, mas que não inspira a confiança de seus pares por ter a cor errada. Isso, contudo, é problema deles.

O progresso quer chegar a Sparta, mas o que há é a barbárie. A cidadezinha do nordeste do Mississípi está nos planos de um forasteiro rico, que abriria uma fábrica na região se não fosse brutalmente assassinado antes de poder sonhar com sua epopeia, e quem toma a frente da ocorrência é um delegado obtuso, que precisa arrumar rápido um bode expiatório. Ele manda um subalterno para uma diligência pelas cercanias mais suspeitas, e o guarda detém um homem negro de terno que espera o trem para a Filadélfia. Baseado no romance de John Ball (1911-1988), de 1965, o texto de Stirling Silliphant (1918-1996) estica a corda sem medo, acreditando na serenidade de Poitier, que vale-se apenas de expressões faciais suaves para deixar transparecer a revolta de Tibbs, que sabe o motivo de estar sendo importunado. Por uma dessas ironias que a arte reproduz a partir da vida como ela é, Tibbs é o único habilitado a dar conta de todos os detalhes desse crime, iluminando mistérios que, graças a ele, tornam-se óbvios.

Boa parte do enredo é ocupada pela rivalidade entre Tibbs e Bill Gillespie, o xerife de Rod Steiger (1925-2002), que se sai bem na pele de um sujeito despeitado, consciente de sua inferioridade em relação a um colega — mas não a ponto de tirar de Poitier o Oscar de Melhor Ator, quase uma piada de mau gosto que empana a mensagem do filme. Numa sequência que pontua a escalada de tensão da narrativa, surge a senhora Colbert, a viúva do industrial morto, e Lee Grant salienta alguns temas que o diretor já vinha esboçando, a exemplo da conveniente impunidade que premia os que exercem o poder. Referência literal à canção homônima de Ray Charles (1930-2004), “No Calor da Noite” é uma lembrança perene de vergonhas que custam a ter o merecido repúdio. E de como Sidney Poitier foi muito mais que um galã.

Filme:
No Calor da Noite

Diretor:

Norman Jewison

Ano:
1967

Gênero:
Drama/Suspense

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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