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Um dos filmes mais cultuados do cinema nacional recente: a comédia bizarra com Selton Mello que está na Mubi

“O Cheiro do Ralo” é um dos filmes mais cultuados do cinema brasileiro recente e só agora, quando o longa completa 20 anos, fui assisti-lo pela primeira vez. Não houve nenhuma razão particular para isso. Embora já tivesse interesse, fui adiando. A recente visibilidade de Selton Mello, com obras como “Ainda Estou Aqui” e a mais comercial e hollywoodiana “Anaconda”, funcionou mais como um ultimato do que como um convite para finalmente ver “O Cheiro do Ralo”. Minha própria consciência me colocou numa encruzilhada: “Até agora não viu, por quê?”. Então, vi.

Está na Mubi, meu vício mais recente em streaming, que tenho tentado sugar ao máximo, conforme o tempo me permite. Aquele acervo precioso, tão diverso e rico, tem me possibilitado descobrir filmes que eu vinha adiando há tempos, como “O Cheiro do Ralo”, inspirado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli e dirigido por Heitor Dhalia. A única outra obra do diretor que eu já havia visto é “À Deriva”, drama filosófico com Vincent Cassel que considero um tesouro.

Mas voltando a “O Cheiro do Ralo”, fui surpreendida por uma história completamente incomum, provocativa e capaz de causar certa aversão no espectador. Não são raras as avaliações no IMDb que classificam o filme como bizarro e nojento. Mas, claro, Dhalia sabia que seu filme seria bizarro e nojento, assim como Mutarelli. Outro ponto notável é a combinação entre fotografia e montagem. Se a fotografia é minimalista, fragmentada, frequentemente em plano médio, isolando o protagonista Lourenço (Selton Mello) e revelando seu distanciamento emocional em relação ao mundo, a montagem é seca, dura. Há cenas em que os quadros se completam quase como uma justaposição contínua: Lourenço caminha pela rua e, conforme se movimenta, o fundo muda. Com influências da Nouvelle Vague tardia, a montagem também fala: o corpo é âncora, o mundo é passageiro. Lourenço está fixado em si mesmo, só se preocupa com os próprios desejos e ambições e não se conecta com o mundo. Apenas transita por ele.

O filme começa com uma longa cena em travelling, em close, na bunda de uma garçonete. Lourenço tem uma fixação por essa bunda. Por que nunca sabemos o nome da garçonete? Por que, na única vez em que ela o pronuncia, o filme a emudece? Porque, no universo de “O Cheiro do Ralo”, as pessoas são despersonalizadas. Elas existem como meros objetos para Lourenço. E falando do protagonista, ele é o dono de uma loja de penhores. Enquanto pessoas, movidas pela necessidade ou pelo desespero, se desfazem de bens pessoais carregados de valor sentimental, Lourenço se aproveita dessa fragilidade para oferecer quantias irrisórias. Ali, dentro de seu escritório, aqueles objetos perdem valor, história, significado. Essa troca injusta explicita a regra do capitalismo: se não há demanda, não há valor.

Nesse mesmo escritório, um ralo no banheiro dos fundos exala um odor putrefato. Com medo de que pensem que o cheiro vem dele, Lourenço insiste em justificar que a origem é o ralo. Quando um dos clientes o confronta, afirmando que o cheiro, na verdade, vem dele próprio, Lourenço entra em colapso. Desmancha o noivado e passa a ser completamente movido pela obsessão pela bunda. Trata corpos femininos como objetos transacionáveis e se perde na própria luxúria e ambição. O ralo tem menos a ver com o espaço físico e mais com algo que apodrece dentro do protagonista, em silêncio. Algo ligado a sentimentos internalizados e reprimidos, intimidade, dignidade, afeto. É a alma podre de Lourenço que ele tenta justificar, esconder, cimentar.

Filme:
O Cheiro do Ralo

Diretor:

Heitor Dhalia

Ano:
2006

Gênero:
Comédia/Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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