Categories: Cultura

Um dos filmes brasileiros mais premiados da história, e o mais aguardado de 2026, acaba de chegar à Netflix

Kleber Mendonça Filho abre “O Agente Secreto” com um homem tentando sumir no Recife do Carnaval de 1977. Interpretado por Wagner Moura, Marcelo chega à cidade para encontrar abrigo, rever o filho e escapar de um passado que continua em seu encalço. Nada ali é neutro. Logo na entrada, ao lado de um posto de gasolina, a visão de um cadáver avisa que a violência não está fora do caminho, mas dentro da própria paisagem.

Recife aparece cheio de calor, buzina, esquina, vizinho e suspeita. O Carnaval ocupa as ruas, mas a festa não encobre a sensação de que sempre há alguém olhando pela janela, acompanhando horários, farejando passos, tentando descobrir o que cada um esconde. Cada gesto cobra cuidado. Quando Marcelo passa a depender de uma rede clandestina, de quartos improvisados e da clandestinidade como forma de vida, o filme acerta em cheio ao transformar o terror político em rotina física, em corpo acuado, em gente que mede a distância entre uma porta e outra antes de respirar.

Papéis, nomes, rastros

Mendonça Filho prende esse cerco a tarefas muito concretas, e é aí que o longa ganha peso. Marcelo trabalha num arquivo de identificação, mexe com papéis, nomes, rastros e ausências, e o emprego deixa de ser detalhe de enredo para virar imagem direta de um país que registra vidas enquanto aprende também a apagá-las. Há sempre alguma coisa em jogo. O vínculo com o sogro, ligado ao “Cinema São Luiz” e à guarda do menino, impede que o personagem vire apenas um homem correndo de um ponto a outro. Entre documento, corredor, cabine e encontro marcado com cautela, “O Agente Secreto” pisa em chão firme e não precisa levantar a voz para se impor.

Algumas imagens ficam de imediato. O corpo ao lado da bomba de gasolina, logo no começo, resume um Recife em que a brutalidade se acomoda no cotidiano como se tivesse hora para abrir e fechar. Depois vem a história da perna encontrada no estômago de um tubarão, espalhada pela cidade enquanto “Tubarão” circula no imaginário popular e nas conversas de rua, e esse rumor grotesco não entra em cena como adorno. A rua devolve tudo em eco. Boato, medo público e violência de Estado passam a dividir o mesmo asfalto, o mesmo barulho, as mesmas calçadas.

O cinema e o abrigo

Também é decisiva a escolha de fazer do “Cinema São Luiz” um lugar de trabalho, abrigo e vínculo familiar, e não apenas uma referência para poucos. O menino, o sogro, a sala de exibição, as fitas e os testemunhos ouvidos no presente dão ao passado uma presença material, como se 1977 continuasse circulando em voz gravada, poltrona gasta, projetor ligado e poeira suspensa no facho de luz. Tudo passa por objetos. Em vez de transformar a memória em discurso, Mendonça Filho a prende a coisas que podem ser tocadas, ouvidas, atravessadas.

Wagner Moura segura o centro desse redemoinho sem buscar efeito fácil, e essa contenção ajuda a dar medida ao filme. Seu Marcelo anda, observa, escuta, calcula, recua, e a cada gesto dá a impressão de medir o custo de continuar vivo numa cidade onde a perseguição se mistura à rotina e o filho que ele tenta reencontrar segue dando sentido à fuga. Ninguém baixa a guarda. Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco e Alice Carvalho ajudam a povoar esse circuito sem quebrar o segredo que une essas figuras, e “O Agente Secreto” termina ficando na cabeça como presença física, feita de rua quente, papel manuseado, janela vigiada e zumbido de projetor no escuro.

Kleber Mendonça Filho leva Wagner Moura ao Recife do Carnaval de 1977 para seguir um homem cercado por arquivos, vizinhos atentos e quartos clandestinos. “O Agente Secreto” acompanha a tentativa de rever o filho enquanto a cidade mistura festa, boato e violência. Entre um posto de gasolina, o “Cinema São Luiz” e papéis guardados num arquivo de identificação, o filme põe a política no plano do corpo, do medo e da rua.



Fonte

Redação

Recent Posts

Thriller claustrofóbico na Netflix vai te fazer duvidar da própria sombra

Uma noite que deveria ser apenas diversão pode virar um pesadelo quando alguém percebe que…

42 minutos ago

Projeto Golfinho Rotador vence ITB Earth Award

O Projeto Golfinho Rotador conquistou um reconhecimento histórico para o turismo sustentável brasileiro ao vencer…

45 minutos ago

Lula lidera rejeição, seguido de perto por Flávio Bolsonaro

Entre os demais pré-candidatos, os governadores Ratinho Jr (PSD) e Romeu Zema (Novo) têm 19%…

58 minutos ago

Eliana diz que pediu chorando que Silvio Santos não a demitisse após programa acabar. Veja resposta

Eliana falou sobre seu 35 anos de carreira na TV em entrevist ao Jornal O…

1 hora ago

Fernando de Noronha promove capacitação “Noronha Te Aguarda”

Fernando de Noronha foi o foco de uma ação estratégica realizada em Caruaru, no Agreste…

2 horas ago

Canetas emagrecedoras podem prevenir e tratar o vício, diz novo estudo

Medicamentos análogos do GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, usados em especial no tratamento do…

2 horas ago