Kleber Mendonça Filho abre “O Agente Secreto” com um homem tentando sumir no Recife do Carnaval de 1977. Interpretado por Wagner Moura, Marcelo chega à cidade para encontrar abrigo, rever o filho e escapar de um passado que continua em seu encalço. Nada ali é neutro. Logo na entrada, ao lado de um posto de gasolina, a visão de um cadáver avisa que a violência não está fora do caminho, mas dentro da própria paisagem.
Recife aparece cheio de calor, buzina, esquina, vizinho e suspeita. O Carnaval ocupa as ruas, mas a festa não encobre a sensação de que sempre há alguém olhando pela janela, acompanhando horários, farejando passos, tentando descobrir o que cada um esconde. Cada gesto cobra cuidado. Quando Marcelo passa a depender de uma rede clandestina, de quartos improvisados e da clandestinidade como forma de vida, o filme acerta em cheio ao transformar o terror político em rotina física, em corpo acuado, em gente que mede a distância entre uma porta e outra antes de respirar.
Mendonça Filho prende esse cerco a tarefas muito concretas, e é aí que o longa ganha peso. Marcelo trabalha num arquivo de identificação, mexe com papéis, nomes, rastros e ausências, e o emprego deixa de ser detalhe de enredo para virar imagem direta de um país que registra vidas enquanto aprende também a apagá-las. Há sempre alguma coisa em jogo. O vínculo com o sogro, ligado ao “Cinema São Luiz” e à guarda do menino, impede que o personagem vire apenas um homem correndo de um ponto a outro. Entre documento, corredor, cabine e encontro marcado com cautela, “O Agente Secreto” pisa em chão firme e não precisa levantar a voz para se impor.
Algumas imagens ficam de imediato. O corpo ao lado da bomba de gasolina, logo no começo, resume um Recife em que a brutalidade se acomoda no cotidiano como se tivesse hora para abrir e fechar. Depois vem a história da perna encontrada no estômago de um tubarão, espalhada pela cidade enquanto “Tubarão” circula no imaginário popular e nas conversas de rua, e esse rumor grotesco não entra em cena como adorno. A rua devolve tudo em eco. Boato, medo público e violência de Estado passam a dividir o mesmo asfalto, o mesmo barulho, as mesmas calçadas.
Também é decisiva a escolha de fazer do “Cinema São Luiz” um lugar de trabalho, abrigo e vínculo familiar, e não apenas uma referência para poucos. O menino, o sogro, a sala de exibição, as fitas e os testemunhos ouvidos no presente dão ao passado uma presença material, como se 1977 continuasse circulando em voz gravada, poltrona gasta, projetor ligado e poeira suspensa no facho de luz. Tudo passa por objetos. Em vez de transformar a memória em discurso, Mendonça Filho a prende a coisas que podem ser tocadas, ouvidas, atravessadas.
Wagner Moura segura o centro desse redemoinho sem buscar efeito fácil, e essa contenção ajuda a dar medida ao filme. Seu Marcelo anda, observa, escuta, calcula, recua, e a cada gesto dá a impressão de medir o custo de continuar vivo numa cidade onde a perseguição se mistura à rotina e o filho que ele tenta reencontrar segue dando sentido à fuga. Ninguém baixa a guarda. Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco e Alice Carvalho ajudam a povoar esse circuito sem quebrar o segredo que une essas figuras, e “O Agente Secreto” termina ficando na cabeça como presença física, feita de rua quente, papel manuseado, janela vigiada e zumbido de projetor no escuro.
Kleber Mendonça Filho leva Wagner Moura ao Recife do Carnaval de 1977 para seguir um homem cercado por arquivos, vizinhos atentos e quartos clandestinos. “O Agente Secreto” acompanha a tentativa de rever o filho enquanto a cidade mistura festa, boato e violência. Entre um posto de gasolina, o “Cinema São Luiz” e papéis guardados num arquivo de identificação, o filme põe a política no plano do corpo, do medo e da rua.
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