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Últimos dias para se despedir de Robin Williams em comédia genial, aclamada e indicada ao Oscar, na Netflix

Últimos dias para se despedir de Robin Williams em comédia genial, aclamada e indicada ao Oscar, na Netflix

Às vezes, o maior teste de amor não acontece em público, mas na mesa de jantar, quando reputações estão em jogo e cada palavra pode comprometer um futuro inteiro. É exatamente esse o motor de “A Gaiola das Loucas”, comédia dirigida por Mike Nichols que transforma um encontro familiar em campo minado social, político e afetivo. Aqui, o riso nasce do constrangimento, mas também da coragem de existir.

Armand Goldman (Robin Williams) administra uma boate de drag queens em South Beach com eficiência quase empresarial, enquanto Albert (Nathan Lane), sua companheira de vida e estrela do palco sob o nome de Starina, é o coração performático da casa. Os dois construíram uma rotina sólida entre figurinos, ensaios e a intimidade do apartamento que divide espaço com o brilho do clube. O equilíbrio começa a balançar quando Val, filho de Armand, anuncia que vai se casar com Barbara (Calista Flockhart), filha do senador Kevin Keeley (Gene Hackman), político conservador que defende valores familiares tradicionais com firmeza quase militante.

O problema não é o casamento em si, mas o encontro inevitável entre dois mundos que se toleram à distância e colidem quando precisam compartilhar o mesmo teto. Val, com medo de perder a aprovação do futuro sogro, pede que Armand e Albert escondam quem são por uma noite. O pedido é direto: nada de extravagância, nada de boate, nada que revele a dinâmica real daquela família. Armand tenta negociar, compreende o pânico do filho e topa adaptar a casa. Albert, porém, sente o golpe. Não se trata apenas de trocar roupas ou moderar gestos, mas de aceitar ser apagado para facilitar uma aprovação política.

Nathan Lane transforma o desconforto de Albert em comédia física e emocional irresistível. Ele tenta se ajustar, tenta caber num molde que claramente não foi feito para ele, e cada esforço gera situações ainda mais embaraçosas. Robin Williams equilibra tudo com um Armand contido, estratégico, quase diplomático, tentando proteger o filho sem trair completamente o parceiro. Já Gene Hackman constrói um senador Keeley rígido, vigilante, sempre atento à própria imagem pública, especialmente porque sua carreira depende de coerência diante do eleitorado.

O jantar que deveria ser protocolar vira um espetáculo paralelo ao da boate. Talheres, arranjos e pequenas formalidades ganham peso político. Cada frase é medida. Cada olhar carrega suspeita. A graça surge justamente do contraste entre a espontaneidade de Albert e o ambiente carregado de formalidade. Mike Nichols conduz tudo com ritmo preciso: ele alonga silêncios, corta para reações constrangidas, cria pequenas pausas que fazem o público rir antes mesmo de alguém terminar a frase. Não há exagero gratuito; há timing.

O mais interessante é que a comédia nunca se resume à caricatura. O filme brinca com estereótipos, mas também expõe a fragilidade deles. O senador, que chega armado de convicções, também tem muito a perder. Armand, que parece o mais racional da casa, vive o dilema real entre proteger o filho e proteger a própria história. E Albert, que poderia ser apenas alívio cômico, é quem mais sente o peso da negociação.

“A Gaiola das Loucas” transforma um conflito doméstico em disputa de identidade sem virar sermão. É leve, é engraçado, mas também é esperto. A boate, com seu brilho e liberdade, contrasta com a sala de jantar onde tudo precisa ser contido. Entre um ambiente e outro, os personagens tentam preservar amor, reputação e futuro. O filme não entrega um vilão absoluto. Ele prefere mostrar o esforço de cada um para manter a própria dignidade enquanto negocia espaço. E essa escolha faz com que a comédia continue atual, divertida e surpreendentemente afetuosa.

Filme:
Gaiola das Loucas

Diretor:

Mike Nichols

Ano:
1996

Gênero:
Comédia

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

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