Bianca Pizzolito, CEO da WTM Latin America (Arquivo/M&E)

(*) Bianca Pizzolito

Quando escolhemos o turismo regenerativo como tema central da próxima edição da WTM Latin America, que será realizada entre 14 e 16 de abril de 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo, sabíamos exatamente onde estávamos pisando. Não se trata de uma pauta sedimentada. Pelo contrário: o turismo regenerativo é um conceito em discussão, cercado de controvérsias, interpretações distintas.

Há mais perguntas do que respostas. E talvez seja exatamente por isso que ele precise estar no centro do debate agora.

Nunca entendemos nosso papel como o de oferecer soluções prontas ou verdades absolutas. Não é essa a função de um evento. Nosso papel é ser plataforma, palco e catalisador. Trabalhamos para criar o espaço no qual acontecem as discussões relevantes para o futuro da indústria, com profundidade e diversidade de vozes.

É por isso que a escolha do tema do evento nunca é aleatória. Ela nasce de um processo estruturado, que começa quando uma edição termina e já estamos olhando para a próxima. Analisamos tendências de mercado, relatórios, indicadores, movimentos globais e conversas que estão acontecendo no setor para consolidar a coerência de uma narrativa que construímos ao longo dos anos.

Assumir o turismo regenerativo como tema não significa defender uma doutrina, mas reconhecer que ele traz uma potência de transformação que precisa ser debatida ampla, aberta e coletivamente. Existe a consciência de que estamos lidando com um tema importante e em construção, que exige escuta e humildade. Não queremos antecipar conclusões que ainda estão em construção, mas sim dar visibilidade ao debate

Quando trazemos o turismo regenerativo não estamos mais falando apenas de conservação ou preservação. Estamos em outra esfera. O turismo regenerativo propõe um passo além: a ideia de que a atividade turística pode deixar impactos positivos nos territórios. Não há consenso nesse conceito, mas há uma ampla e importante discussão que, por si só, já gera um efeito de reflexão. Neste sentido, inclusive, há estudiosos que defendem que regeneração e turismo são ideias opostas, e há os que defendem que o turismo tem um potencial único para o tema da regeneração de destinos.  

Não me coloco no lugar de resolver esse impasse. Ele existe, é legítimo e faz parte do debate. Da minha perspectiva, se determinadas ações, ainda que pequenas, contribuem para melhorar um território, uma comunidade ou um ecossistema, e isso é importante de ser mapeado, dito, nomeado.

São essas iniciativas que ajudam a inverter a lógica histórica de que o turismo é, inevitavelmente, predador ou gerador de impactos negativos. Elas abrem espaço para outros valores, para outras formas de interação e para a construção de uma relação diferente entre pessoas, destinos e a atividade turística.

É por esse caminho que enxergamos a relevância dessa discussão e nos propomos a incluir o tema de forma transversal na programação. Criamos uma categoria especial para o Turismo Regenerativo dentro do Prêmio de Turismo Responsável, justamente para reconhecer ações concretas que já estão acontecendo no mercado e que podem nos ensinar muito.

Firmamos parceria com a Iniciativa Global de Turismo Regenerativo, ligada à ONU Turismo, e com o Instituto Aupaba, trazendo tanto uma visão internacional quanto um olhar brasileiro sobre o tema. Além de contribuir com a curadoria de conteúdo e com o aprofundamento do debate, essas organizações nos ajudam a dar mais densidade ao tema, evitando simplificações e trazendo referências técnicas, metodológicas e conceituais para a discussão.

Também levamos essa discussão para o campo da política pública e dos negócios. O primeiro Encontro de Ministros da WTM Latin America terá o turismo regenerativo como tema central na região, com direito a apresentação de indicadores associados, compilados em um estudo de ajudará a traduzir esse debate em números, impactos econômicos e oportunidades reais de negócio. Porque outro equívoco é pensar que regeneração e negócios são caminhos opostos, quando eles podem ser paralelos, correlatos e complementares.

Existe uma oportunidade concreta de alinhar propósito, impacto positivo e viabilidade econômica, e ignorar isso seria perder de vista uma tendência que já dialoga com o comportamento do consumidor e com novas demandas de mercado.

Talvez o turismo regenerativo hoje ainda pareça restrito e abstrato, mas não é assim que muitas transformações começam? Como um protótipo, uma pequena ação que, aos poucos, ganha escala para unir milhares de pessoas em ações simples, coordenadas e com impacto positivo é enorme. Temos certeza de que muitas ideias inspiradoras virão, inclusive, dos próprios finalistas do Prêmio de Turismo Responsável e juntos aprenderemos muito com o movimento do próprio mercado

A história da inovação no turismo mostra que mudanças relevantes raramente nascem prontas. Elas são testadas, ajustadas e expandidas ao longo do tempo. No fim, o que a WTM Latin America propõe não é oferecer uma resposta, mas fazer um chamamento. Um convite ao diálogo, à escuta e à construção coletiva. Porque acreditamos que o futuro do turismo não será desenhado por uma única instituição, conceito, empresa ou evento. Ele será construído a partir das perguntas certas.(*) Bianca Pizzolito é CEO da WTM Latin Americ