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Timothée Chalamet estrela filme mais brutal e sombrio de Luca Guadagnino, no Prime Video

Em “Até os Ossos”, de Luca Guadagnino, acompanhamos Maren Yearly (Taylor Russell) a partir de um ponto de ruptura simples e brutal: aos dezesseis anos, ela acorda e descobre que a mãe foi embora. Não há bilhete explicativo nem plano B. O que sobra é uma jovem que quer, acima de tudo, ser alguém que possa existir entre outras pessoas sem pedir desculpas o tempo todo. A decisão de procurar o pai que nunca conheceu nasce menos da curiosidade e mais da necessidade prática de entender quem ela é e até onde pode ir sem se esconder.

Maren entra na estrada sem dinheiro, sem garantias e sem adultos dispostos a protegê-la. Cada cidade pequena funciona como um teste silencioso: quem observa demais, quem oferece ajuda, quem pode virar ameaça. Guadagnino não acelera esse percurso. Ele deixa o desconforto se instalar, alonga os deslocamentos e faz a viagem pesar no corpo da personagem. A estrada não é liberdade aqui; é uma negociação permanente para continuar em movimento sem ser exposta.

O encontro com Lee (Timothée Chalamet) muda o ritmo, mas não resolve o problema. Lee reconhece Maren de imediato, não porque a idealiza, mas porque compartilha o mesmo desajuste. A aproximação entre os dois nasce de um acordo prático antes de virar afeto: dividir comida, rotas, silêncio. Há carinho, mas ele nunca vem desacompanhado de cautela. Quanto mais próximos ficam, mais claro se torna que a relação também cria dependências e reduz alternativas.

Nesse percurso, surge Sully (Mark Rylance), uma figura que oferece abrigo e orientação, mas cobra controle em troca. A presença dele introduz uma tensão diferente, menos impulsiva e mais sufocante. Aceitar ajuda significa ganhar tempo; recusar significa preservar autonomia. O filme nunca romantiza essa escolha. Cada aproximação tem custo, e cada recuo deixa marcas. Guadagnino é preciso ao cortar cenas no momento exato em que o risco deixa de ser abstrato e passa a ser operacional.

O terror do filme não vem de jumpscares, mas da rotina de autoproteção. Maren e Lee ajustam horários, evitam lugares, aprendem a ler pessoas rápido demais. Um erro de cálculo pode significar perder abrigo ou chamar atenção indesejada. A tensão cresce porque tudo é frágil: vínculos, confiança, a ideia de normalidade. Quando há breves momentos de descanso, eles duram pouco, e o mundo trata de impor limites outra vez.

O romance, nesse contexto, nunca é fuga. É suporte emocional para continuar andando, não solução. Maren quer ser vista como alguém digna de respeito; Lee prefere desaparecer antes que isso seja exigido. Essa diferença atravessa o relacionamento e obriga ambos a ceder em pequenos gestos para seguir adiante. O amor existe, mas vive sob vigilância constante, sempre ameaçado pelas mesmas regras que os empurraram para a estrada.

“Até os Ossos” funciona porque nunca tenta explicar demais seus personagens nem suavizar suas escolhas. Guadagnino observa, acompanha e registra consequências. Maren não está em busca de redenção nem Lee de heroísmo. Eles querem continuar vivos, juntos se possível, sem abrir mão de quem são. O filme termina fiel a essa lógica: não oferece conforto fácil, apenas a sensação incômoda de que algumas histórias só podem avançar, mesmo quando não há lugar seguro para chegar.

Filme:
Até os Ossos

Diretor:

Luca Guadagnino

Ano:
2022

Gênero:
Drama/horror/Romance/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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