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Terror zumbi: o filme mais assistido da Netflix no Brasil vai te prender por 120 minutos

Há algo de intrigante quando um filme de zumbis se recusa a ser apenas mais uma variação sobre o mesmo cadáver narrativo. “O Elixir”, dirigido por Kimo Stamboel, parte de um clichê reconhecível: o experimento científico que dá errado, mas não o utiliza como pretexto para o riso fácil ou para a autocomplacência gore. O que o filme propõe, ainda que sem pretensões intelectuais explícitas, é um olhar sobre a degradação moral e familiar, utilizando o apocalipse como um espelho ampliado daquilo que já está em decomposição muito antes da contaminação: o homem e suas ilusões de controle.

A narrativa se inicia com uma família reunida para discutir a sucessão de um negócio. O patriarca, guiado por ambição e ressentimento, aposta em um elixir capaz de restaurar a juventude, metáfora óbvia, mas eficaz, da negação da decadência e da obstinação humana em recusar o tempo. O gesto tem consequências físicas e simbólicas: o corpo renasce, mas se corrompe; o desejo de eternidade se converte em peste. A partir daí, a contaminação não é apenas viral, é também ética. A luta pela sobrevivência deixa de ser uma metáfora social e se torna o próprio argumento moral do filme: a humanidade se revela, como sempre, quando já não há estrutura alguma que a sustente.

O mérito de Stamboel está em compreender o potencial daquilo que se assume como derivativo. O enredo não pretende reformular o gênero, mas o energiza com uma brutalidade artesanal. Os efeitos práticos, viscerais e nada elegantes, resgatam o horror físico como experiência sensorial e, paradoxalmente, devolvem ao espectador a consciência de que o grotesco pode ser mais verdadeiro que a perfeição digital. Há algo de primitivo e honesto nesse sangue que jorra de forma quase anacrônica, como se o filme reivindicasse o retorno à materialidade do medo.

A mise-en-scène é funcional e direta. A câmera evita o virtuosismo gratuito e acompanha o caos com um ritmo quase documental. O cenário rural de Yogyakarta confere uma estranheza que rompe com o imaginário ocidental do apocalipse, menos neon e mais lama, menos sobreviventes heroicos e mais corpos atordoados. Essa paisagem, saturada de verde e sangue, traduz o colapso de uma sociedade que ainda acredita na pureza da natureza enquanto a corrompe em nome do progresso. É um comentário discreto, mas presente, sobre o capitalismo periférico e sua versão tropical do delírio biotecnológico.

Os personagens, longe de inspirarem empatia, funcionam como tipos morais: o pai que acredita poder dominar a morte, os filhos movidos por ganância e ressentimento, os que amam por conveniência e os que matam por medo. Essa escolha deliberada impede que o filme se perca em sentimentalismos. Não há redenção, apenas sobrevivência. O afeto, quando aparece, é sempre breve, como se o amor fosse uma anomalia biológica que ainda resiste no meio da infecção.

O clímax, mais que um espetáculo de carnificina, é uma forma de encerramento filosófico. O horror em ”O Elixir” não é o zumbi em si, mas o impulso que o cria: a crença de que o corpo pode ser corrigido, a morte adiada, o tempo vencido. O filme compreende, talvez sem declarar, que a busca pela imortalidade é a mais patética das utopias modernas. E o faz sem pregações: apenas observa o colapso, como um naturalista diante de uma espécie em extinção.

“O Elixir” é um filme menor em ambição, mas sólido em coerência. Não quer revolucionar o gênero, apenas devolvê-lo à sua função original, a de expor o que há de podre por baixo da carne humana. E ao fazê-lo com simplicidade brutal e uma honestidade quase artesanal, torna-se mais relevante do que muitos títulos que se disfarçam de metáfora social sem suportar o próprio discurso. Stamboel, ao fim, entrega um horror que não se explica: apenas acontece, como toda verdadeira decadência.

Filme:
O Elixir

Diretor:

Kimo Stamboel

Ano:
2025

Gênero:
horror/Suspense

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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