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Suspense na Netflix que não vai subestimar sua inteligência e ainda vai te deixar sem ar

A tensão que estrutura “Desaparecida” se forma desde o primeiro minuto, quando June, interpretada por Storm Reid, percebe que a mãe, Grace (Nia Long), não retornou da viagem romântica para a Colômbia com Kevin (Ken Leung). A narrativa se organiza a partir desse ponto de ruptura, transformando o cotidiano digital da personagem em ferramenta de investigação. Cada aba aberta, cada acesso a contas esquecidas e cada fragmento de informação recuperada compõem o processo pelo qual ela tenta recompor o trajeto dos desaparecidos. O filme adota a dinâmica das telas como seu principal eixo formal, mas não como artifício vazio: é ali que o enredo avança, revelando contradições e expondo a distância emocional entre mãe e filha antes mesmo do desaparecimento.

A construção do suspense depende do modo como June utiliza sua familiaridade com a tecnologia para suprir a lentidão institucional. A polícia representada por agentes como Park (Tim Griffin) falha em fornecer respostas imediatas, e essa deficiência leva a protagonista a depender de Javier, vivido por Joaquim de Almeida, um prestador de serviços contratado por aplicativo na Colômbia. A presença dele movimenta o enredo e introduz uma contraposição evidente: enquanto June opera em alta velocidade, Javier se guia por um senso de responsabilidade mais humano, ainda que limitado pelos recursos de que dispõe. Essa dinâmica sustenta parte da credibilidade do enredo, mesmo quando certas decisões do roteiro extrapolam a plausibilidade.

O filme articula uma série de pistas que exigem atenção constante do espectador. As imagens de câmeras de segurança, os rastros de geolocalização e o cruzamento de dados em redes sociais criam um panorama amplo que estimula a expectativa de uma conclusão lógica. Contudo, quando a revelação central ocorre, o enredo sofre um deslocamento brusco. A complexidade do plano por trás do desaparecimento se mostra excessiva, dependente de coincidências pouco verossímeis e de decisões improváveis tomadas por personagens que deveriam agir com maior prudência. Essa mudança também altera o ritmo, que abandona a investigação metódica e adota um tom de ação convencional, enfraquecendo a coerência construída até então.

Apesar desses problemas, Storm Reid sustenta a narrativa com uma interpretação sólida. A transformação de June, que passa da irritação adolescente à angústia de quem percebe a dimensão da perda, é conduzida sem exagero. Também é relevante a forma como o filme expõe a fragilidade das relações mediadas pela tecnologia. A frieza inicial entre mãe e filha contrasta com a urgência que surge quando a ausência de Grace se torna uma ameaça concreta. Esse contraste alimenta o impacto emocional do desfecho, mesmo que o roteiro não alcance a mesma consistência no plano lógico.

A aproximação temática com “Buscando…” é inevitável, mas “Desaparecida” evita a simples repetição. A narrativa amplia o escopo, deslocando a ação para outro país e incorporando ameaças que vão além da exposição digital. O uso das telas permanece central, porém submetido ao objetivo de acompanhar a deterioração psicológica da protagonista. Mesmo com escolhas discutíveis na reta final, o filme mantém uma estrutura que envolve, sobretudo pela sensação de proximidade com situações possíveis no cotidiano contemporâneo. Essa proximidade sustenta o interesse, mesmo quando a credibilidade narrativa se enfraquece.

Filme:
Desaparecida

Diretor:

Nicholas D. Johnson e Will Merrick

Ano:
2023

Gênero:
Drama/Mistério/Suspense

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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