Em “Não Se Preocupe, Querida”, Olivia Wilde dirige Florence Pugh, Harry Styles, Chris Pine e Gemma Chan numa história ambientada em Victory, comunidade experimental erguida no deserto para abrigar os homens do Projeto Vitória e suas famílias. Tudo parece em ordem. Alice e Jack Chambers vivem um casamento de aparência serena, mas essa calma já nasce dividida, porque cada um ocupa um espaço muito bem demarcado desde o início. Todas as manhãs, os maridos saem de carro para um trabalho sigiloso, enquanto as esposas permanecem entre a casa, as compras, os encontros sociais e a espera.
Essa separação organiza a vida inteira em Victory, das casas impecáveis aos jantares coletivos, passando pelas reuniões em que Frank, fundador carismático do lugar, fala como executivo, pregador e mestre de cerimônias ao mesmo tempo. Nada parece fortuito. A repetição das tarefas domésticas, o desfile de carros antigos e o brilho quase agressivo das superfícies montam um cotidiano em que conforto e disciplina aparecem como partes do mesmo pacto. Quando Alice percebe que as mulheres não recebem explicações claras sobre o que os homens fazem fora dali, o bairro deixa de sugerir estabilidade e começa a sugerir confinamento.
Wilde filma essa prosperidade com apuro visual, alinhando linhas retas, salões amplos e um deserto que cerca a comunidade como um limite físico e mental. A paisagem pesa. O vazio ao redor das casas ganha outra densidade quando Alice vê um avião cair e decide sair da rotina para investigar, abandonando o trajeto previsível entre cozinha, varanda e festas noturnas. Ao caminhar para fora do bairro e avançar até o ponto em que já não deveria estar, ela rompe não apenas uma regra prática, mas a própria lógica que sustenta Victory como um lugar de obediência silenciosa.
Alice contra o cerco
Florence Pugh conduz o centro do longa com uma atenção rara ao modo como Alice respira, hesita, se contrai e insiste quando a realidade começa a perder firmeza. O corpo registra antes. As visões desconcertantes se acumulam, Margaret surge como aviso vivo do preço cobrado de quem desafia as regras, e Alice passa a ser tratada como instável por marido, médicos e vizinhos. Quando atravessa o deserto, chega à sede do projeto e encosta na superfície espelhada do edifício, a personagem encontra um ponto concreto para sua suspeita, e o suspense deixa de depender apenas da atmosfera para ganhar matéria, espaço e contato.
Chris Pine ocupa com segurança a posição de anfitrião ameaçador, sempre no centro de festas, jantares e discursos feitos para embalar a obediência com voz mansa e sorriso firme. Ele sorri demais. Nos encontros entre Alice e Frank, quase sempre em ambientes fechados de Victory, o que se impõe não é só a curiosidade em torno do Projeto Vitória, mas a tentativa insistente de empurrá-la de volta para o papel de esposa satisfeita, cercada por vizinhos dóceis e por um marido que prefere o silêncio à pergunta. Harry Styles rende mais quando Jack oscila entre afeto, medo e defesa daquela ordem do que quando precisa sustentar sozinho o encanto doméstico do início, e essa oscilação ajuda a expor as rachaduras do casamento.
“Não Se Preocupe, Querida” por vezes insiste em imagens em preto e branco, dançarinas e sinais de colapso que repetem por outros meios uma inquietação já inscrita na rotina das casas, na saída diária dos homens e na pressão sobre quem pergunta demais. Ainda assim, certas imagens persistem. Wilde acerta ao ligar o luxo de Victory à disciplina das esposas, o carisma de Frank ao sigilo do trabalho masculino e o deserto ao risco de tentar sair dali. No fim, permanecem a rua limpa demais, um copo deixado sobre a mesa e o sol branco batendo no asfalto de Victory.
Filme:
Não Se Preocupe, Querida
Diretor:
Olivia Wilde
Ano:
2022
Gênero:
Drama/Mistério/Thriller
Avaliação:
8/10
1
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Amanda Silva
★★★★★★★★★★

