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Spok finca o pé na ancestralidade e abre caminhos em “Raízes”, seu primeiro voo solo

Há muito tempo, Spok vinha sendo atravessado por uma inquietação silenciosa. Não era sobre abandonar o frevo – território onde construiu seu nome –, mas sobre expandir o que cabia dentro dele. A partir de uma descoberta que o conectaria com seus antepassados, o impulso virou gesto. 


Em “Raízes”, seu primeiro álbum solo, Spok costura tudo o que acumulou ao longo da vida, em um trabalho que soa como uma síntese de sons, encontros e memórias que lhe atravessaram.


Neste trabalho, Spok reúne sonoridades afro-brasileiras, guitarras pesadas, violas, poesia popular e um time de convidados que realçou de forma especial este novo passo do maestro, como Lenine, Chico César, Zeca Baleiro, Ylana, Maciel Melo e Grupo Bongar.




Um disco que nasce da busca

Se há uma palavra-chave para entender “Raízes”, ela é descoberta: em meio à inquietação criativa de Spok, um exame de DNA revelou sua ligação direta com o povo Tikar, de Camarões.


“Quando eu vi isso, eu disse: ‘achei o viés, a força, o texto do trabalho que eu quero fazer!’”, conta Spok, sem esconder a alegria da descoberta.


A partir daí, o disco ganhou direção. “Foi uma busca pela minha ancestralidade. Nesse disco tem todas as paisagens e cenários que marcam a minha vida. Tudo tá ali”, resume. “O frevo tá ali, o rock tá ali, as manifestações estão ali, a poesia popular… tem muita poesia dentro do trabalho”.


A África aparece como origem, mas também como horizonte, ao qual Spok se dedicou visceralmente e que o levou a um encontro fundamental: o Grupo Bongar, com quem já havia feito alguns trabalhos. Mais do que participação, o grupo virou guia. “Eu aprendi muito nos ensaios, na confecção das canções”.


Ajudaram a construir a sonoridade de “Raízes”, Miguel Mendes (produção, baixo, synth e voz), Gilberto Bala (percussões e voz), Thúlio da Xambá (percussões e voz), Meme Bongar (percussões), Lieve Ferreira (guitarra, viola), Nilo Dias (guitarra) e Doug Brito (bateria e voz).


Orixás e amplificadores

A partir da descoberta pessoal, Spok mergulhou em estudos sobre orixás e tradições afro-brasileiras. “Comecei a estudar, conversar muito com os meninos do Bongar”, conta. 


O resultado aparece em faixas como “Êxê Babá”, um ijexá em saudação a Oxalá, “Kaô”, que fala de Xangô, e “Mo R’ómi Màá Yó”, uma canção de domínio popular dedicada a Oxum, cantada por Gilberto Bala.


Mas nada soa didático ou engessado. Pelo contrário: há guitarras, peso, distorção, através de Nilo Dias, o filho “metaleiro” de Spok, há o sax barítono, de sonoridade mais grave, do qual o maestro lança mão no álbum.


Do instrumento para o canto

Acostumado a se expressar pelo instrumento, Spok encara em “Raízes” um desafio: a própria voz. Confessadamente tímido, Spok conta que, ao longo dos anos, por questões fortuitas, em algumas ocasiões ele teve que assumir o microfone e falar; depois, cantar.


“Cantei e fui gostando disso. Fui gostando, fui gostando, fui gostando. Fui cada vez mais tendo coragem de olhar para as pessoas”, diz o músico. “Não é uma coisa muito simples, né? Mas é um lance que eu gosto muito. Eu já me sinto muito mais à vontade”, confessa. 


“Me sinto tão bem quanto qualquer outro para cantar o que eu quero, entendeu? Para cantar as coisas que eu me proponho a cantar.” E talvez esteja aí uma das chaves do disco: mais do que um experimento sonoro, “Raízes” torna-se um gesto de afirmação.


Canções e convidados

Em “Raízes”, Spok constrói um repertório em que cada faixa carrega um ponto de partida muito concreto – um poema, uma paisagem, uma lembrança.


E ele não caminha sozinho: faz das parcerias um dos motores criativos do disco. Cada participação chega como extensão natural do universo que ele constrói, ampliando sentidos e tensionando fronteiras sonoras.

Um dos singles de “Raízes”, “Bela África” foi inspirada no poema “Invictus”, do inglês William Ernest Henley, que ajudou Nelson Mandela a resistir aos 27 anos de prisão.


“Eu achei aquilo muito forte, muito simbólico, e quis transformar em música”, conta Spok. Trecho do poema é recitado por Thúlio Xambá, enquanto o paraibano Chico César faz alguns vocalizes. 


Já “Kaô” nasce sob a força de Xangô, ganhando corpo e energia a partir de um diálogo que atravessa o rock, a espiritualidade e a experimentação. Ela surgiu de um riff de guitarra de Nilo Dias, com o pai criando letra e melodia, dando-se a parceria. 

“Tem uma pegada mais rock, mais pesada, que vem muito da influência do meu filho, que toca guitarra”, explica Spok, assumindo o diálogo com outras gerações e gêneros. 

Na canção, Spok convida Lenine, com quem estreitou parceria nos últimos anos, em espetáculos conjuntos com a SpokFrevo Orquestra. “Lenine entendeu na hora a proposta, veio muito aberto”, comenta Spok, destacando a sintonia imediata.

É também nessa chave de fusão que aparece a faixa-título “Raízes”, ao lado do Grupo Bongar. A composição, parceria de Spok com Ylana, é uma das faixas que melhor sintetizam o espírito coletivo e ritualístico do álbum.


Em outra direção, “Verde Chão”, nasce de uma imagem quase cinematográfica, em Carnaíba, no Sertão do Pajeú:


“Fiquei num hotel em Carnaíba, quando eu abri uma janela, vi várias coisas: vi a seca, vi o pedaço do verde, vi os pássaros e fiz essa canção ali, daquele cenário que eu vi.”


A faixa ganha mais delicadeza com a participação de Ylana. “A voz dela trouxe uma coisa que eu sozinho não alcançaria”, confessa um orgulhoso pai.

Zeca Baleiro divide voz com Spok  em “Tikar”, faixa que reforça o elo direto com a ancestralidade africana que estrutura o disco. “Ele trouxe uma leitura muito sensível, muito conectada com a ideia da música”, diz Spok.

Em trecho da letra  de“Tikar”, Spok evoca o percussionista Naná Vasconcelos, que nos deixou há 10 anos. “Naná é proteção para mim também”, exalta Spok.

A faixa que encerra o álbum, “Aboio de um vaqueiro”, é um clássico de Jacinto Silva, e conecta Spok à infância.


“Esse trabalho tem todas as paisagens da minha vida, e Jacinto Silva faz parte dela. O meu pai ouvia muito música de Jacinto Silva, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Luiz Gonzaga… os poetas populares tocavam em casa o ano inteiro, sei várias poesias e quando eu era criança decoradas, de tanto meu pai ouvir, e de tanto eu ter me encantado e me apaixonado.”


Spok já havia gravado “Aboio de um Vaqueiro” na coletânea “Jacinto Silva, no coração da gente”, em 2010.


Em “Raízes”, a faixa conta com a participação de Maciel Melo, parceiro de longa data e entusiasta da releitura, reafirmando o elo com o sertão e a tradição nordestina. “Maciel tem esse aboio na veia, essa verdade”, destaca Spok.

A etnia Tikar, a África, o sertão, a infância, a escuta doméstica dos cantadores, da poesia popular… tudo se entrelaça em “Raízes”. E, ao colocar tudo isso em movimento, Spok não apenas revisita suas origens, ele inventa novos caminhos a partir delas.

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Fonte

Redação

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