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Slasher clássico dos anos 90 na Netflix que vai renovar seu medo do banco de trás do carro

“Lenda Urbana” poderia perfeitamente ter nascido de uma conversa de mesa de bar, aquelas em que alguém insiste que conhece o primo de uma amiga que morreu porque ligou o ventilador molhado. O filme bebe dessa tradição de histórias sussurradas no dormitório universitário, como se o medo fosse uma herança passada de geração em geração, embalado em gargalhadas nervosas e exageros irresistíveis. E talvez seja justamente aí que ele encontra sua maior potência: explorar o fascínio de jovens adultos por aquilo que não conseguem explicar, mas adoram dramatizar.

A jornada é guiada por Natalie, interpretada por Alicia Witt, uma estudante que lida com o luto do passado enquanto tenta sobreviver a um presente que teima em transformar folclore juvenil em método de assassinato. A cada morte, o campus revela o que toda universidade esconde atrás das festas open bar e dos discursos motivacionais: a fragilidade dos pactos sociais que mantêm estudantes crentes de que o mundo está sob controle. Nada mais vulnerável do que um grupo que imagina dominar tudo enquanto não consegue sequer pagar o aluguel sem ligar para os pais.

O filme mobiliza o medo coletivo e o transforma em espetáculo, onde cada ataque é planejado como se a vida fosse uma encenação teatral com direito a referências folclóricas. Mas, ainda que os assassinatos tentem criar uma lógica sofisticada, o roteiro assume uma espécie de prazer na previsibilidade. Nesse ponto, ele não se envergonha de seus próprios excessos. O público sabe que alguém vai morrer a cada quinze minutos. O jogo está em descobrir quem será o próximo a pagar pela curiosidade alheia. A diversão vem dessa cumplicidade tácita entre quem assiste e quem dirige a dança macabra.

Os personagens orbitam o terror com o mesmo desinteresse de quem espera pela próxima festa universitária. Eles existem para confirmar que a imortalidade da juventude é um delírio perigoso. Ainda assim, “Lenda Urbana“ consegue trabalhar uma virada interessante quando coloca Natalie como fio condutor de algo que ultrapassa o simples contado de histórias: a culpa. A protagonista tenta contornar o passado, mas acaba se chocando com o fato de que a violência que assombra o campus é, em alguma medida, consequência direta de escolhas que ela preferiria enterrar.

As atuações variam entre o aceitável e o deliciosamente exagerado. Rebecca Gayheart entrega a performance mais memorável, flertando com o limite entre o melodrama e o puro prazer em abraçar o ridículo. Jared Leto surge no mood galã enigmático, enquanto Robert Englund funciona como um aceno refinado ao legado do terror, quase um professor que ri por dentro de todas as metáforas sangrentas ao seu redor. Ver esse elenco hoje provoca a boa surpresa de perceber quantos nomes sólidos já se aventuraram por essa trilha de gritos adolescentes e casacos com capuz.

A atmosfera se sustenta em cenários que remetem àquele calorzinho nostálgico dos anos 90, quando o terror encontrava charme na simplicidade. Corredores escuros, bibliotecas silenciosas, florestas que parecem guardiãs de segredos que não deveriam ser ditos. Não existe pretensão de criar um comentário existencial profundo sobre medo e sobrevivência. E isso, longe de ser um problema, mantém o filme honesto com sua proposta: diversão com toque de maldade e nenhum pedido de desculpas.

A trilha sonora parece cúmplice das risadas nervosas, e o ritmo não perde tempo com grandes pausas reflexivas. O que interessa é manter o espectador atento e cúmplice das suspeitas. Todo mundo pode ser culpado e, mais interessante ainda, todo mundo pode morrer. A lógica é simples e cruel. Isso gera prazer no olhar que busca exatamente esse tipo de jogo: será que o próximo susto vale a pipoca ou o grito?

Se o slasher dos anos 90 foi uma festa com portas escancaradas, “Lenda Urbana” entrou sem bater, aproveitou a música e bebeu o que estava disponível. Talvez tenha exagerado no figurino ou na repetição de fórmulas conhecidas. Mas há charme nesse exagero. Afinal, o medo também depende de cenário, e nada mais cenográfico do que mitos sussurrados por estudantes que não dormem antes das três da manhã.

O filme recorda que histórias de terror foram feitas para serem compartilhadas, reinterpretadas, exageradas. A tela escurece e a mente continua trabalhando na mesma engrenagem: e se a próxima lenda for real? É esse flerte com o impossível que mantém o terror vivo. E é por isso que, décadas depois, “Lenda Urbana” ainda sabe como cochichar perto do ouvido do público, alimentando aquela dúvida infantil que insiste em sobreviver: e se alguém estiver escondido no banco de trás?

Filme:
Lenda Urbana

Diretor:

Jamie Blanks

Ano:
1998

Gênero:
Mistério/Suspense/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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