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Seus pais não querem que você veja este thriller, no Prime Video

Há histórias que, quando confrontam a relação entre desejo e disciplina, revelam a dimensão política da intimidade. “Thelma”, dirigido por Joachim Trier, aposta exatamente nesse atrito: uma jovem cuja existência foi moldada pela obediência religiosa descobre que o corpo tem memória própria e uma vontade que não se dobra ao catecismo doméstico. Não há nada de romântico nessa descoberta, ela se torna um processo de autoinvestigação brutal, em que cada impulso representa uma ameaça à ordem que ergueram para ela desde a infância.

A narrativa acompanha uma universitária norueguesa que tenta se integrar à vida adulta longe dos pais. O ambiente acadêmico, com sua promessa de autonomia, funciona como catalisador para uma transformação que não se explica apenas pela biologia. O filme estrutura o conflito em duas frentes: o mundo externo, marcado por regras, aparência de normalidade e vigilância moral; e o mundo interno, onde desejos reprimidos ganham forma sem pedir permissão. Quando a protagonista se aproxima de uma colega, despertando uma atração que ela não consegue nem nomear sem culpa, o corpo responde com violência. Convulsões, colapsos e eventos inexplicáveis desmentem qualquer noção de controle.

O roteiro trabalha com a tensão entre fé e ciência. A epilepsia surge como a explicação médica possível, mas logo se torna insuficiente para conter o fenômeno. O filme coloca a protagonista diante de uma pergunta que é tanto espiritual quanto filosófica: o que fazer quando o próprio eu se torna inimigo? O medo que ela sente não provém do sobrenatural, e sim da percepção de que sua identidade foi construída sobre proibições. Ao desobedecê-las, toda a estrutura desaba. A repressão espiritual e afetiva não apaga o desejo, apenas o transforma em força destrutiva.

O romance entre as duas jovens evita fórmulas sentimentais. Não há trilha grandiosa nem diálogos açucarados tentando justificar o afeto. Há hesitação, estranhamento e descoberta gradual. Cada gesto evidencia o quanto o carinho pode ser também um campo de risco. Não se trata de uma história de libertação idealizada; a câmera insiste em expor o peso psicológico que acompanha a quebra de dogmas. O filme não elogia o impulso pela transgressão, mas o examina como um fato humano inevitável.

A direção de Trier adota um ritmo que desagrada quem busca estímulo imediato, porém se alinha perfeitamente às camadas do conflito. A lentidão não serve para ornamentar a experiência, e sim para estabelecer uma atmosfera em que o perigo se infiltra de forma quase imperceptível. O suspense não depende de sustos, e sim da suspeita constante de que a protagonista pode despertar algo irreversível a qualquer momento. Cada silên­cio se torna uma ameaça. Cada escolha, uma possibilidade de ruína.

Há elementos que remetem a narrativas clássicas sobre poderes fora do comum associados à adolescência e ao pecado, a referência a “Carrie” é inevitável. No entanto, aqui o fenômeno não se reduz a metáfora para marginalização social. Ele se desloca para uma reflexão sobre autoritarismo familiar, responsabilidade afetiva e culpa religiosa. O filme questiona a legitimidade de vínculos baseados na vigilância: pais que dizem proteger, mas controlam; crenças que prometem sentido, mas limitam; regras que fingem orientar, mas amarram a subjetividade.

O filme não pretende oferecer uma resposta consoladora sobre o destino da protagonista. A possível conquista de liberdade cobra um preço alto, e não há garantia de que a independência seja sinônimo de paz. A protagonista termina diante de um futuro cuja única certeza é a ausência de tutela. O que resta é o desafio de conviver com a própria potência, sem que ela destrua aquilo que tenta construir. “Thelma” observa esse confronto com rigor e frieza: não há heroísmo, apenas a constatação de que amadurecer significa assumir o risco de ser si mesmo.

Filme:
Thelma

Diretor:

Joachim Trier

Ano:
2017

Gênero:
Drama/Fantasia/Terror

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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