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Sequência de um dos maiores clássicos do século 20, de Danny Boyle, com Ewan McGregor, chega à HBO Max

Voltar para casa, vinte anos depois, costuma vir carregado de promessas silenciosas: de consertar o que ficou quebrado, de provar que o tempo serviu para alguma coisa, de reencontrar pessoas que talvez já não estejam mais no mesmo lugar. É exatamente esse movimento que guia “T2 Trainspotting”, dirigido por Danny Boyle, quando Mark Renton (Ewan McGregor) retorna a Edimburgo após duas décadas tentando se reinventar longe dali. Ele volta, em teoria, limpo, empregado e disposto a recomeçar, mas o “por quê” dessa volta nunca é simples, e o filme deixa claro que certas contas não prescrevem.

Logo nos primeiros reencontros, fica evidente que o tempo não foi generoso com todos. Simon, ainda chamado de Sick Boy (Jonny Lee Miller), administra um negócio improvisado, desses que sobrevivem mais por insistência do que por estratégia. Já Spud (Ewen Bremner) continua preso a um ciclo de dependência que o impede de estabilizar qualquer aspecto da vida. Renton observa, tenta se encaixar, mas não demora a perceber que sua própria narrativa de superação tem mais rachaduras do que ele gostaria de admitir.

O reencontro entre eles não é caloroso nem nostálgico no sentido tradicional. Há um desconforto prático ali, quase como uma negociação em andamento. Renton precisa reconquistar espaço, e isso passa menos por palavras e mais por ações concretas. Ele oferece parceria, sugere ideias, tenta mostrar utilidade. Sick Boy escuta, mas mede cada proposta com cautela, porque a história entre eles inclui uma traição que ainda pesa. O passado não aparece como lembrança distante, ele entra na conversa como um participante ativo, determinando o que pode ou não avançar.

Spud, por outro lado, funciona como um lembrete constante do que ficou pelo caminho. Renton se aproxima dele com uma mistura de culpa e tentativa de reparação. Há momentos em que a relação dos dois beira uma ternura desajeitada, quase como se estivessem reaprendendo a ser amigos. Mas qualquer gesto de ajuda esbarra na realidade imediata: manter Spud estável exige esforço contínuo, e nem sempre dá certo. Quando falha, o impacto é rápido e direto, sem espaço para romantização.

A ideia de montar um negócio surge como uma espécie de eixo para reorganizar a vida dos dois, ou pelo menos para dar a impressão de que existe um plano. Renton e Sick Boy começam a desenhar algo juntos, visitam possíveis investidores, discutem caminhos. Há uma energia ali que mistura ambição e improviso, como se estivessem tentando transformar velhos hábitos em algo que funcione dentro das regras. O problema é que credibilidade não se constrói do dia para a noite, e o histórico dos dois pesa em cada porta que tentam abrir.

E então existe Begbie (Robert Carlyle), cuja presença muda completamente o tom da história. Ainda que ele comece distante, sua movimentação é sentida como uma ameaça concreta. Begbie não é apenas mais um rosto do passado; ele representa um tipo de acerto de contas que não se resolve com conversa. Quando ele entra em cena, o espaço de manobra de Renton diminui drasticamente. Cada decisão passa a carregar um risco mais imediato, mais físico, quase palpável.

O curioso é como o filme encontra espaço para o humor mesmo nesse terreno instável. Não é um humor leve ou gratuito, é aquele que surge em situações desconfortáveis, em diálogos que escapam do controle, em tentativas meio desesperadas de manter alguma dignidade. Há momentos em que os personagens parecem rir não porque a situação é engraçada, mas porque é a única forma de não desmoronar completamente. E isso funciona, porque aproxima o espectador dessas figuras falhas, contraditórias, mas estranhamente humanas.

Danny Boyle conduz tudo com um olhar atento ao tempo, não só o cronológico, mas o tempo emocional que cada personagem carrega. Há cortes que aceleram encontros, outros que prolongam silêncios, como se o filme soubesse exatamente quando mostrar e quando deixar algo fora de quadro. Esse controle de ritmo não é decorativo; ele interfere diretamente na forma como entendemos as decisões e suas consequências.

“T2 Trainspotting” não está interessado em oferecer redenções fáceis. Renton volta achando que pode reorganizar a própria história, mas encontra um cenário onde cada escolha precisa ser negociada novamente, com pessoas que não esqueceram, e nem pretendem esquecer, o que aconteceu antes. O passado não é um peso abstrato aqui; ele é uma presença concreta, que cobra, limita e, às vezes, empurra os personagens exatamente para os lugares de onde eles achavam que tinham saído.

Filme:
T2 Trainspotting

Diretor:

Danny Boyle

Ano:
2017

Gênero:
Comédia/Crime/Drama

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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