“Matrix Resurrections” é, em essência, um reencontro desconfortável com o passado. Não porque ele envelheceu, mas porque o presente desistiu de ser radical. Quando Lana Wachowski decidiu revisitar o universo que redefiniu a ficção científica no final dos anos 1990, o que surgiu não foi um novo salto ontológico sobre realidade e simulacro, mas um reflexo cansado do que já foi subversão. O filme tenta ser meta, tenta ser irônico, tenta ser emocional, mas em meio a tantos “tenta”, o que sobra é uma nostalgia paralisante, uma espécie de luto pela originalidade perdida.
O enredo é engenhosamente autofágico: Neo vive como um designer de jogos que criou a trilogia Matrix como produto cultural dentro da própria Matrix. É uma ideia genial, uma dobra narrativa que poderia ter se tornado um comentário devastador sobre o capitalismo que consome até suas revoluções. Mas o potencial crítico se dissolve na superfície polida do entretenimento corporativo que o filme, paradoxalmente, critica. O espectador percebe a ironia, ri do meta, reconhece as referências, e tudo se esgota aí. O gesto de autocrítica é engolido pelo mesmo sistema que ele pretende zombar.
Lana Wachowski parece lidar com sua própria criação como quem revisita uma cicatriz: não há mais a euforia dos conceitos, apenas a dor do excesso de significado. A relação entre Neo e Trinity, agora o núcleo emocional da narrativa, tenta transformar a distopia em romance. É bonito, mas é também uma confissão de rendição. O amor, que antes era uma centelha de humanidade em meio à opressão das máquinas, aqui se torna o próprio combustível da repetição. A metáfora se inverte: não é mais a liberdade que redime o sujeito, mas a lembrança de um sentimento que o mantém preso a um simulacro. Neo e Trinity amam dentro da Matrix, e isso basta, o que, convenhamos, é uma das ideias mais tristes que o cinema recente já normalizou.
A estética do filme acompanha essa contradição. O primeiro “Matrix” era sinônimo de reinvenção visual: movimentos impossíveis, coreografias que fundiam kung fu com filosofia e efeitos que redefiniram o conceito de tempo no cinema. ”Resurrections”, por outro lado, parece rodar em 30 quadros por segundo e 20 anos de atraso. As cenas de ação são protocolares, sem o brilho coreográfico que tornava o impossível crível. Keanu Reeves não é o problema, o problema é o desinteresse do filme em parecer vivo. Cada sequência se move como se estivesse cansada de ser o que é. Há energia apenas quando Neo reencontra Trinity, e mesmo assim a faísca vem mais da memória do que do presente.
A crítica mais generosa poderia dizer que ”Resurrections” é um ensaio sobre o próprio colapso do mito. Mas isso seria conceder ao filme uma profundidade que ele apenas roça. Há, sim, uma intenção evidente de desmontar a mitologia original, de transformar o “Escolhido” em um homem comum e a revolução em uma farsa que se repete sob nova roupagem. O problema é que o filme parece desistir de sua própria blasfêmia antes de começar. Quando o vilão afirma que o público “prefere o conforto da repetição à incerteza da liberdade”, não é uma provocação, é um diagnóstico preguiçoso. A Wachowski diz isso com a segurança de quem sabe que o público, de fato, pagará o ingresso para assistir exatamente ao mesmo filme, pela quarta vez.
Ainda assim, há algo fascinante nessa falência. “Matrix Resurrections” é o tipo de fracasso que carrega uma estranha dignidade, porque sua ruína é, de certo modo, coerente com o mundo que ele descreve. A pós-modernidade venceu: tudo é citação, tudo é reinvenção, tudo é retorno. A rebeldia dos anos 1990 virou estética publicitária, e a distopia virou franquia. O que resta é o fetiche de se lembrar do tempo em que acreditávamos que o “despertar” era possível. O filme funciona como um epitáfio da própria utopia cibernética: o sistema venceu, e agora somos nós que mendigamos sentido entre algoritmos e sequelas.
O humor involuntário surge justamente nas tentativas do roteiro de justificar sua existência. Quando os executivos da Warner Bros. são mencionados dentro do próprio filme, exigindo uma continuação da franquia, o gesto é tão autoconsciente que beira a confissão pública. É como se Lana Wachowski dissesse: “Sim, estou sendo obrigada a fazer isso”. Mas a ironia se esgota rápido, porque o resultado final não escapa da lógica que critica. O meta é apenas mais uma camada de marketing. A rebeldia foi absorvida pela planilha de lucros.
”Matrix Resurrections” é um filme sobre a impossibilidade de ressuscitar o que já foi verdade. Ele fala sobre amor, liberdade e memória, mas o faz de dentro de uma prisão de espelhos onde tudo é reflexo e nada é substância. É o retrato de um tempo em que até a revolta precisa de nostalgia para existir. E talvez seja isso o mais doloroso: perceber que o cinema que um dia nos fez questionar a realidade agora se contenta em imitar seus próprios pixels.
Filme:
Matrix Resurrections
Diretor:
Lana Wachowski
Ano:
2021
Gênero:
Ação/Ficção Científica
Avaliação:
8/10
1
1
Helena Oliveira
★★★★★★★★★★
Empresa converterá alguns Airbus A319 em aviões-tanque com capacidade mínima de 17.000 litros de retardanteA…
Por Lisa JuccaBORMIO, ITÁLIA, 14 Fev (Reuters) – O esquiador alpino Lucas Pinheiro Braathen fez…
Maria Elisa Curcio, Diretora de Assuntos Corporativos, Regulatórios e Sustentabilidade da Latam Brasil (Divulgação/Latam)A Latam…
Durante a Corrida do Ouro, dizia a lenda que a melhor forma de enriquecer não…
Edilson ‘Capetinha’ se pronunciou pela primeira vez após ter sido expulso do BBB 26. Em…
Em “Mensagem Pra Você”, sob direção de Nora Ephron, Kathleen Kelly (Meg Ryan), dona de…