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Sem alarde, uma obra-prima de Martin Scorsese desembarcou no Prime Video — e você deixou passar

A fé é o único jeito de se atravessar o tempo. Acreditar seja no que for é o que faz com que o homem consiga rejeitar sua natureza moldada pela destruição e preze por buscar redimir-se, para começo, e a partir dessa libertação de velhos e péssimos hábitos estar apto a ser uma nova criatura. A estrada para a perdição é larga, porém tenebrosa. Uma vez que o homem envereda por essa trilha nefanda da existência, vão se anunciando mil outros desvios que, por mais retos que se apresentem, conduzem-no à desventura e quiçá à irreparável morte, e para que se reduzam as chances de que tal ocorra é que existe a religião. Yeshua, Muhammad, Siddharta Gautama, Vishnu. Deus é o que quisermos que Ele seja, um salvador, um facínora, um filósofo desapegado, um peregrino numa vida curta e miserável de solidão, sordidez e brutalidade, como disse Thomas Hobbes (1588-1579) em seu “Leviatã” (1651). Em “Silêncio”, Martin Scorsese urde um conto de fé e de autoafirmação, cheia dos lances épicos que domina como poucos. Baseado no romance homônimo de Shûsaku Endô (1923-1996), de 1966, Scorsese e o corroteirista Jay Cocks deslindam um episódio trágico da história do cristianismo, passado no Japão do século 17, quando a doutrina era ilegal. Anos da paz dos cemitérios.

Após a Rebelião de Shimabara, entre 1637 e 1638, a Igreja Católica Apostólica Romana foi declarada uma inimiga do povo japonês. Seus membros, os kakure kirishitan (“cristãos ocultos”, em tradução literal), passaram a encontrar-se em sessões clandestinas e, perseguidos, foram obrigados a adotar comportamentos e códigos como se estivessem no princípio da cristandade. Quarenta anos antes, a cristofobia já havia arreganhado as presas, num episódio que popularizou os chamados Mártires do Japão de 1597, e uma voz em off situa o espectador nos eventos bárbaros que voltam a espalhar o pânico entre todos. Os padres portugueses Sebastião Rodrigues (1602-1685) e Francisco Garupe (1611-1643) propõem-se a resgatar  Cristóvão Ferreira (1580(?)-1650), um religioso que desapareceu enquanto trabalhava como missionário, e a partir dessa informação Scorsese vai encadeando uma sequência de mistérios. Desde a abertura, paira a desconfiança de que o padre Ferreira apostatou, pisando na imagem de Cristo quando capturado pelas tropas da imperatriz Meishō (1624-1696), e o diretor manipula quem assiste contrapondo a importância do sacrifício ao amor incondicional de Deus. Mas Deus talvez  tenha seus eleitos.

Rodrigues e Garupe entram no Japão por Macau, ajudados por Kichijiro, um cristão enfrentando seu anátema no canto de uma taberna imunda, e Yōsuke Kubozuka confere ao personagem a aura de dubiedade que Ferreira já havia encarnado no segmento anterior.

Escondidos numa choupana no alto de uma montanha, os portugueses são obrigados a permanecer trancados todo o dia, atentos a qualquer um que não bata à porta de uma determinada maneira. Os dois decidem que Rodrigues é quem irá partir rumo a uma ilha distante a ver se tem alguma pista do paradeiro de Ferreira, ao passo que Garupe reza pelo sucesso da empreitada, e “Silêncio” entra em sua fase cruenta. A narrativa cresce ao suscitar debates sobre o livre-arbítrio e a discreta onipotência divina, que muda testemunharia campear a iniquidade, deixando aos homens tomar a atitude que entendessem a mais justa. Pouco depois de desembarcar, Rodrigues é atraiçoado por Kichijiro, capturado e conduzido à presença de Inoue Masashige (1585-1661), o inquisidor pagão responsável por manter os cristãos sob controle. Com a morte, se preciso.

Respeitoso, Scorsese compõe uma obra que recusa facilidades. Ora desolado, ora colérico, Rodrigues, vivido com beleza e gênio por Andrew Garfield, divide-se entre a certeza de saber-se cumpridor de sua missão e a agonia de jamais receber do Altíssimo o sinal pelo que espera enquanto os anos correm implacáveis. O padre é confrontado com as atrocidades infligidas aos convertidos, pregados no madeiro, queimados em covas e afogados no mar, mas seu verdadeiro martírio é a nunca ser perspicaz o bastante para entender o que o Chefe quer dele. Exasperantemente magro, o Garupe de Adam Driver materializa as inquietações do companheiro, até que sucumbe na flor da idade. Liam Neeson volta a aparecer na iminência do desfecho, provando que Ferreira foi o antípoda de Rodrigues e Garupe ao renunciar a sua fé e tomar uma mulher japonesa por esposa, com quem teve prole numerosa. Só não se sabe se conseguiu ser feliz.

Filme:
Silêncio 

Diretor:

Martin Scorsese

Ano:
2017

Gênero:
Drama/Thriller

Avaliação:

10/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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