Dean Proffitt (Kurt Russell) é um carpinteiro direto, orgulhoso do próprio trabalho e pouco disposto a engolir desaforo. Quando é contratado por Joanna Stayton (Goldie Hawn), uma herdeira rica, mimada e abertamente cruel, o choque de mundos acontece sem sutileza. Ela trata Dean como alguém descartável, se recusa a pagá-lo corretamente e o expulsa do iate como se aquilo fosse parte natural da ordem social. A raiva dele não nasce de ambição, mas de dignidade ferida, e isso importa.
O rumo da história muda quando Joanna sofre um acidente e perde completamente a memória. Sem documentos, sem reconhecimento e sem o verniz da riqueza, ela se torna apenas mais uma mulher confusa em uma cidade que não a conhece. Dean vê nisso uma chance rara de ajustar contas com a vida. Ele toma uma decisão moralmente duvidosa, mas emocionalmente compreensível: convence Joanna de que ela é sua esposa e mãe de seus quatro filhos. Não há plano sofisticado nem cálculo frio — é um impulso movido por ressentimento e oportunidade.
A partir daí, o filme se organiza no cotidiano dessa mentira. Joanna, agora chamada de Annie, precisa aprender a lidar com uma casa simples, tarefas domésticas e crianças que exigem atenção constante. Goldie Hawn constrói essa transformação com um humor físico afiado e uma vulnerabilidade que nunca soa falsa. Cada tropeço dela tem graça, mas também revela algo mais profundo: a perda de status desmonta certezas, mas abre espaço para outra forma de existência.
Dean, por sua vez, não vira herói nem vilão. Kurt Russell interpreta o personagem como alguém em permanente conflito consigo mesmo. Ele impõe regras, cobra disciplina e tenta manter a farsa funcionando, mas aos poucos percebe que a convivência diária cobra um preço. O controle que parecia confortável começa a escorregar, e a rotina passa a exigir mais do que ele previa. A comédia nasce justamente desse desgaste: sustentar uma mentira é sempre mais trabalhoso do que inventá-la.
As crianças funcionam como termômetro emocional da história. Elas testam limites, fazem perguntas incômodas e reagem com naturalidade à nova “mãe”. O filme acerta ao usar essas interações como motor narrativo, sem infantilizar os conflitos. Cada gesto doméstico muda o equilíbrio da casa, e cada pequena concessão altera a posição de poder entre os adultos.
Edward Herrmann surge como Grant Stayton III, o marido de Joanna, representando o mundo que ficou para trás. Sua presença impõe uma ameaça silenciosa, não pela agressividade, mas pela autoridade que carrega. Ele lembra o tempo todo que aquela nova vida tem prazo, e que a mentira, cedo ou tarde, será colocada à prova.
Dirigido por Garry Marshall, “Um Salto para a Felicidade” entende que seu charme não está na premissa absurda, mas no modo como os personagens reagem a ela. O filme não tenta justificar escolhas nem oferecer lições edificantes. Ele observa, com leveza e ironia, como afeto, convivência e responsabilidade podem surgir dos lugares mais improváveis, e como, às vezes, a felicidade começa num acordo torto que ninguém sabe exatamente como encerrar.
Filme:
Um Salto Para a Felicidade
Diretor:
Garry Marshall
Ano:
1987
Gênero:
Comédia/Romance
Avaliação:
8/10
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Helena Oliveira
★★★★★★★★★★

