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Scorsese expõe o delírio narcísico no Prime Video: um clássico sobre fama, ego e ruína

A história de Rupert Pupkin tem sido um show feérico, com mais de mil palhaços, trapezistas, motociclistas do globo da morte, domadores de feras e mulheres barbadas no picadeiro. Assim é, se lhe parece: a vida tem as dimensões e a natureza que se lhe queiram dar, e é dessa forma que Rupert procede, apropriando-se da estranheza que os outros desprezam. Solitário, esse nerd de 34 anos está sempre à beira do precipício, buscando alguma coisa em que acreditar, e essa sua instabilidade dá a tônica de “O Rei da Comédia”, um ponto de inflexão na carreira de Martin Scorsese. Com uma ou outra exceção, o diretor costumava não saber intercalar muito bem a carga dramática e passagens mais leves, mas aqui Scorsese atinge essa delicada harmonia, graças a um parceiro que foi virando uma espécie de talismã em seus trabalhos.

Robert De Niro confere ao protagonista o rol de qualidades e defeitos que o fazem único em sua carreira e na filmografia de Scorsese, e os dois afinam-se brilhantemente nesse complexo mosaico humano que constitui o personagem. Pupkin não acorda do sonho de tornar-se um comediante famoso, levando um número de stand-up no talk show noturno de Jerry Langford. Na sequência de abertura, os dois se conhecem em circunstâncias esdrúxulas, e Pupkin vai na limusine do apresentador até a portaria do edifício dele, fazendo uma propaganda ostensiva de seus talentos artísticos. Langford nunca mostra-se grosseiro, sequer descortês, e, como se vai ver, esse é seu grande equívoco. O roteiro de Paul D. Zimmerman (1938-1993) inventa todas as situações absurdas que consegue na intenção de fixar no público a imagem de Pupkin como um lunático, um perseguidor que não hesitaria em tomar uma atitude radical para chegar a seu objetivo. Felizmente, não é esse o propósito de Scorsese, que contorna facilidades e deslinda a personalidade de seu anti-herói de um jeito mais conveniente, mas nem um pouco monótono.

Quando se cansa de esperar pela intercessão do ídolo, Pupkin passa a ir à sede comercial da emissora onde Langford trabalha, até ser expulso pelo chefe de segurança. Ele viaja à casa de campo do astro, sofre mais uma humilhação e a etapa seguinte é raptá-lo, junto com Masha, a ex-namorada vivida por Sandra Bernhard, sem, claro, pretender ferir ninguém — até porque Masha usa um revólver de brinquedo. Langford nem desconfia, mas será o trampolim que impulsiona Pupkin ao estrelato, e as passagens em que De Niro e Jerry Lewis (1926-2017), o verdadeiro Rei da Comédia, são antológicas. Aos delírios de Pupkin, Scorsese adiciona lances de incômoda crueza, e o espectador não discerne a verdade da fantasia, assumindo-se também um Rupert Pupkin.

Filme:
O Rei da Comédia

Diretor:

Martin Scorsese 

Ano:
1982

Gênero:
Comédia/Drama/Suspense

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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