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Roteiro afiado, elenco gigante: o filme que prova que crime pode ser sexy (e muito, muito divertido) — veja na Netflix

Nada é mais americano do que vender uma verdade improvisada com confiança absoluta. Em “Trapaça”, David O. Russell transforma essa lógica em espetáculo: cada personagem sustenta uma farsa como quem defende um direito constitucional. Não se trata de um filme policial sobre corrupção; é sobre o charme irresistível da mentira quando ela se veste de purpurina, decotes generosos e laquê em escala industrial.

Irving Rosenfeld (Christian Bale), com sua barriga macia e a peruca construída como se fosse um templo sagrado, é o retrato perfeito do golpista que acredita ser um benfeitor. Ao lado da enigmática Sydney (Amy Adams), que alterna sotaques e identidades com a naturalidade de quem troca de pele, ele cria um ecossistema peculiar onde fraude é afeto e sobrevivência é arte performática. A ética? Uma categoria tão flexível quanto os vestidos dela.

E é então que chega Richie DiMaso (Bradley Cooper), um agente do FBI movido não por patriotismo, mas pela ânsia adolescente de ser reconhecido. Ele é o tipo de homem que confunde ambição com destino e acha que pode controlar uma operação sem controlar a si mesmo. Ao tentar capturar trapaceiros, torna-se apenas mais um personagem seduzido pelo próprio reflexo no espelho da vaidade.

Nesse jogo, todos caem. Até Carmine Polito (Jeremy Renner), o político que acredita sinceramente que ser “honesto” significa apenas escolher bem quem você beneficia. Em “Trapaça”, ninguém é puro, e isso talvez seja seu aspecto mais honesto.

Mas aí entra Rosalyn. Jennifer Lawrence transforma o exagero em método. Ela é o perigo com esmalte brilhante: o caos emocional que ameaça derrubar todo o castelo de cartas apenas porque sente tédio, ou porque derramaram o verniz errado no móvel novo. Sua ignorância estratégica e humor involuntário fazem dela um dos retratos mais genuínos do narcisismo doméstico.

O filme vibra quando seus personagens se deixam levar pelo delírio de serem alguém melhor, ou pelo menos mais interessante, do que realmente são. A câmera circula como cúmplice, interessada em mãos nervosas, bocas mentindo com elegância e olhares que revelam o medo de que a verdade seja pequena demais para ser vivida.

Muito já se discutiu sobre a suposta superficialidade da narrativa. Mas não é superficialidade, é diagnóstico social: todos nós interpretamos papéis para conquistar amor, dinheiro, segurança ou apenas validação. A trapaça, aqui, não é crime; é mecanismo vital. A identidade é performance. Quem ousaria dizer que não joga esse mesmo jogo diariamente diante de chefes, parceiros e seguidores sedentos por versões editadas da vida?

O romance entre Irving e Sydney se impõe como a única coisa que parece verdadeira, justamente porque nasce da mentira compartilhada. Eles se apaixonam não apesar dos disfarces, mas através deles. A farsa é a ponte; o afeto, o risco de atravessá-la.

“Trapaça” não não nos faz escolher heróis. Não há redenção puritana, tampouco discursos moralistas. Em vez disso, O. Russell oferece o que dói admitir: o mundo é governado por quem sabe dançar melhor sobre terrenos escorregadios. Os trapaceiros não vencem porque são maus, vencem porque entendem o jogo que todos fingem negar.

Se há algo verdadeiramente subversivo aqui, é a ideia de que a autenticidade pode ser a maior fraude de todas. E quem conseguir sustentar o salto alto por mais tempo, ganha.

Filme:
Trapaça

Diretor:

David O. Russell

Ano:
2013

Gênero:
Crime/Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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