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Romance no Prime Video que mistura fantasia e melancolia vai prender você do início ao fim

A ideia de acompanhar a trajetória de alguém que atravessa o século mantendo a mesma aparência poderia facilmente escorregar para a fantasia inofensiva, mas “A Incrível História de Adaline” escolhe outro caminho. A figura de Adaline Bowman, interpretada por Blake Lively, não é apresentada como um enigma místico a ser decifrado, e sim como alguém que carrega um tipo específico de sofrimento: o desgaste mental provocado pela impossibilidade de seguir o fluxo do tempo. A condição que a mantém presa aos 29 anos não funciona como metáfora decorativa; é um fator que determina cada escolha, cada renúncia e cada tentativa de manter alguma forma de vínculo humano sem comprometer a própria segurança. Essa abordagem confere à narrativa um rigor que se distancia do sentimentalismo fácil. A protagonista vive como alguém consciente de que a estabilidade depende do afastamento, e o filme obtém força justamente ao insistir nesse distanciamento como método de sobrevivência.

A relação entre Adaline e Ellis Jones, vivido por Michiel Huisman, funciona como o primeiro grande teste dessa lógica. Ele se aproxima movido por um interesse genuíno, sem artifícios heroicos ou idealizações, o que torna mais evidente o conflito interno da personagem. Ellis representa uma possibilidade de convivência real, mas também o risco concreto de exposição. Não se trata de decidir entre paixão e prudência; a questão é que qualquer envolvimento exige enfrentar décadas de fuga. Quando Adaline aceita acompanhá-lo para um fim de semana com a família dele, o enredo dá um passo relevante ao introduzir William, interpretado por Harrison Ford. A reação do personagem ao reencontrar traços de alguém que conheceu no passado reorganiza a narrativa, permitindo que o filme abandone o romantismo como eixo principal e opere em outra camada: aquela em que passado e presente se chocam, revelando o quanto a protagonista pagou por permanecer intacta enquanto todos ao redor envelheceram.

A construção dessa tensão é reforçada pelo modo como o filme lida com o tempo. Em vez de se deter em longas reconstruções históricas, aposta em fragmentos que indicam a passagem das décadas sem diluir o foco central. A estética muda, os cenários mudam, mas o que sustenta o interesse é a percepção de que Adaline mantém uma rotina cuidadosamente calculada para evitar suspeitas. A presença de Flemming, interpretada por Ellen Burstyn, é essencial para estabelecer essa dimensão. Filha que envelhece diante da mãe incapaz de envelhecer, ela evidencia a dissonância moral que acompanha a personagem principal, além de mostrar o quanto a manutenção de uma identidade fixa corrói qualquer relação familiar. Essa inversão temporal, tratada com naturalidade pela atriz, impede que o conceito do filme seja apenas uma curiosidade narrativa.

O conflito dramático se intensifica quando a protagonista se vê obrigada a confrontar a própria rigidez. O acidente que desencadeia a ruptura em sua rotina não funciona como artifício melodramático, e sim como consequência lógica de um estado prolongado de alerta. Nesse ponto, o filme questiona o próprio sentido de uma existência sem transformação: permanecer igual durante oito décadas exige não apenas disciplina, mas uma espécie de negação sistemática. O retorno da possibilidade de mudança, ainda que imposto pelas circunstâncias, reorganiza o destino da personagem e sugere que a estabilidade absoluta não é um privilégio, mas uma forma de paralisia.

No conjunto, “A Incrível História de Adaline” adota uma estrutura mais contida do que aparenta. A direção de Lee Toland Krieger evita exageros e se concentra em construir relações que fazem sentido dentro do cenário proposto. Blake Lively interpreta Adaline sem teatralidade, sustentando a melancolia como consequência lógica de uma vida interrompida. Michiel Huisman articula seu personagem com simplicidade, o que impede que Ellis funcione como ideal romântico. Harrison Ford introduz complexidade emocional ao reativar memórias que revelam o impacto real da juventude eterna sobre os demais. O filme não se impõe como revelação, mas alcança um ponto relevante ao tratar de um dilema que ultrapassa o romance e se aproxima de questões filosóficas: o que significa continuar vivendo quando a passagem do tempo não acompanha a experiência interior.

O interesse não está na fantasia da imortalidade, mas na constatação de que a ausência de mudança cobra um preço alto demais. A permanência absoluta, quando observada de perto, deixa de ser promessa para se tornar um limite. Essa escolha narrativa faz de “A Incrível História de Adaline” um estudo sobre identidade, memória e desgaste, não uma história sobre a celebração da juventude, mas sobre a dificuldade de sustentar uma vida que insiste em não avançar.

Filme:
A Incrível História de Adaline

Diretor:

Lee Toland Krieger

Ano:
2015

Gênero:
Drama/Fantasia/Romance

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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