Não é necessário muito esforço para perceber que o afeto, neste século, deixou de ser uma construção espontânea para se tornar um produto moldado por expectativas econômicas e validações externas. O filme provoca justamente essa interrogação: quando o amor deixa de ser encontro e passa a ser desempenho? A narrativa parte de um ponto simples: uma mulher dividida entre dois homens. Mas o dilema não aponta para o triângulo amoroso clássico. A questão central recai sobre o que sustenta as relações em uma sociedade que mede valor pela capacidade de consumir, ascender e parecer desejável.
A protagonista atua como mediadora entre pessoas que procuram parcerias, mas sua atividade se trava pela lógica transacional que ela mesma reproduz. Relações passam a ser avaliadas pela utilidade: quem oferece mais estabilidade, mais conforto material, mais projeção social. A afetividade perde densidade quando é convertida em moeda simbólica. O desejo de pertencimento se contamina pela cobrança constante de sucesso e eficiência, e qualquer sinal de fragilidade se torna risco de rejeição. Não há entrega quando todas as escolhas são calculadas para evitar perdas.
A disputa entre os dois homens revela, antes de tudo, diferentes modelos de sobrevivência emocional. De um lado, o indivíduo que possui o poder econômico necessário para garantir uma vida “adequada” sob padrões urbanos contemporâneos. Do outro, alguém que tenta permanecer digno apesar da escassez, sustentando valores que já não parecem compatíveis com o mundo ao seu redor. O conflito que emerge não está no confronto direto entre eles, mas na incapacidade da protagonista de assumir o que realmente busca. Ela foi educada para desejar segurança, mas também deseja ser vista, desejada, admirada. Essa dualidade corrói o que resta de sinceridade em seus vínculos.
A direção opera sobre uma estética urbana marcada pela eficiência: apartamentos impecáveis, silêncio planejado, escolhas calculadas. Nada é espontâneo. Tudo funciona como metáfora de um comportamento coletivo: organizamos nossas vidas para exibir sucesso, mas eliminamos o espaço que permitiria experiências genuínas. A câmera parece observar esse desconforto, a vida que se adapta ao padrão ao mesmo tempo em que sufoca quem precisa habitá-la. Não há grandes explosões dramáticas; o que se impõe é a constatação de que qualquer tentativa de amar se torna árdua quando a afetividade é filtrada por métricas de produtividade.
O filme expõe a exaustão emocional de uma geração que transforma o afeto em campo de batalha social. Todos querem ser escolhidos, mas ninguém quer arriscar-se. Todos buscam cumplicidade, mas exigem que o outro já esteja perfeitamente pronto. Ao reduzir o amor a uma espécie de investimento, perdemos a disposição de enfrentar suas incertezas. O medo da precariedade, material ou simbólica, desloca a busca por companhia para um jogo de interesses previsível, no qual o sentimento apenas acompanha o cálculo.
A reflexão final não aponta soluções nem consolos. Apenas revela o esvaziamento progressivo das relações em uma cultura que não tolera falhas. Existe afeto possível dentro dessa lógica? Talvez. Mas, enquanto o amor for submetido ao mesmo sistema que regula o consumo, o que se chama de “escolha” pode ser apenas a necessidade de evitar o desconforto. E aquilo que deveria afastar a solidão acaba apenas sofisticando a forma de senti-la.
Filme:
Amores Materialistas
Diretor:
Celine Song
Ano:
2025
Gênero:
Comédia/Drama/Romance
Avaliação:
8/10
1
1
Fernando Machado
★★★★★★★★★★
Em “Como Eu Era Antes de Você”, dirigido por Thea Sharrock, Emilia Clarke e Sam…
Solução IFS Cloud apoiará manutenção e gestão de frota do programa FAcT da RCAFA IFS…
O segundo dia de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial de São Paulo…
Em “Noé”, dirigido por Darren Aronofsky, Russell Crowe assume o papel de Noé, um patriarca…
apresentação no projeto Todo Mundo no Rio reforça fluxo internacional da América do Sul (Divulgação)A…
Alexei Navalny, líder da oposição ao governo de Vladimir Putin na Rússia, que morreu numa…