Em “Lisa Frankenstein”, lançado em 2024, a diretora Zelda Williams coloca uma adolescente deslocada no subúrbio americano do fim dos anos 1980 diante de uma solução improvável e perigosa para sua solidão: trazer um morto de volta à vida. A história acontece nesse ambiente doméstico e escolar bastante reconhecível, onde Lisa Swallows (Kathryn Newton) tenta sobreviver à própria invisibilidade social e encontra, por acidente, uma forma de mudar o rumo da própria existência, ainda que isso cobre um preço alto.
Lisa não é exatamente ignorada por todos, mas vive à margem, deslocada dentro da escola e também em casa, onde a convivência parece mais uma obrigação do que um espaço de acolhimento. Sua rotina ganha um ponto de fuga quando ela passa a frequentar um cemitério próximo, um lugar silencioso onde, pela primeira vez, parece ter algum controle sobre o próprio tempo. É ali que uma tempestade altera o curso das coisas: um túmulo antigo é atingido, e o corpo de um jovem vitoriano (Cole Sprouse) acaba sendo reanimado de forma inesperada.
O que poderia ser apenas um evento isolado vira rapidamente um projeto. Lisa leva o corpo para a garagem de casa e decide reconstruí-lo, peça por peça, como quem tenta reorganizar a própria vida a partir de restos. Usando uma cama de bronzeamento quebrada e outros recursos improvisados, ela começa a “corrigir” o que considera defeitos, numa lógica que mistura desejo, controle e uma certa ingenuidade perigosa. Cada avanço técnico traz um ganho concreto, o corpo responde, se move, se aproxima de algo reconhecível e também amplia o risco de tudo sair do controle.
Quando a criatura ganha forma mais humana, a relação entre os dois muda de natureza. O que antes era um experimento passa a ser companhia. Lisa tenta ensinar comportamentos, impor limites, ajustar o modo como ele se apresenta ao mundo. Há um esforço quase metódico em transformá-lo no parceiro ideal, alguém que não a rejeite, não a ignore, não a confronte. Só que essa tentativa esbarra em um problema simples: ele não compartilha as mesmas referências. E isso transforma cada interação em um pequeno teste.
É aí que o filme fica mais engraçado. As situações em que Lisa tenta encaixar o rapaz em ambientes sociais, corredores de escola, encontros casuais, interações básicas, revelam um descompasso constante entre intenção e resultado. Ele reage de forma literal, deslocada, às vezes inadequada, obrigando Lisa a intervir rapidamente para evitar exposição. A gargalhada surge desse controle falho, dessa tentativa insistente de normalizar o que claramente não pertence àquele espaço.
À medida que o vínculo entre os dois se intensifica, as decisões de Lisa passam a ter consequências mais diretas. Para manter o que construiu, ela precisa esconder evidências, lidar com a nova rotina e com a presença de outras pessoas que podem perceber algo errado. Taffy (Liza Soberano), por exemplo, circula nesse mesmo universo e representa uma espécie de contraste: alguém que se adapta melhor às regras sociais e que, por isso mesmo, pode desestabilizar o frágil equilíbrio que Lisa tenta manter.
Há também uma dimensão afetiva que cresce sem pedir licença. Lisa não está apenas conduzindo um experimento, ela está investindo emocionalmente em algo que depende totalmente de suas decisões. Isso cria uma relação desigual, em que ela controla os meios, mas não necessariamente os resultados. E quanto mais ela tenta garantir estabilidade, mais precisa lidar com imprevistos que escapam à sua capacidade de controle.
Zelda Williams leva essa história com um olhar que alterna entre o estranho e o familiar. A ambientação nos anos 1980 não serve só de inspiração estética, mas também é um reforço desse universo em que aparências importam, onde se encaixar tem um valor quase imediato. A diretora também sabe quando segurar a informação, deixando certas ações acontecerem fora de quadro ou retardando respostas, o que aumenta a tensão sem precisar recorrer a explicações excessivas.
Lisa tenta corrigir o que sente faltar em si mesma projetando no outro uma versão idealizada de afeto e pertencimento. Só que esse tipo de controle cobra um preço, e o filme deixa claro, com um humor ácido e situações cada vez mais desconfortáveis, que nem tudo pode ser consertado como uma peça defeituosa em uma garagem.
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