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Renée Zellweger e Greg Kinnear em história de fé e redenção na Netflix

Renée Zellweger e Greg Kinnear em história de fé e redenção na Netflix

Quando a doença impõe um prazo real à vida, certas escolhas deixam de ser discurso bonito e viram urgência dentro de casa. “Somos Todos Iguais”, dirigido por Michael Carney, parte dessa pressão concreta para contar a história de Deborah Hall (Renée Zellweger), uma mulher profundamente religiosa que, ao enfrentar um câncer agressivo, decide que precisa salvar mais do que a própria saúde: ela quer resgatar o casamento com Ron Hall (Greg Kinnear) e, no processo, transformar a maneira como o marido enxerga o mundo.

Ron é um negociante de arte respeitado, acostumado a circular por galerias e eventos sofisticados, alguém que sabe lidar com clientes exigentes e cifras altas. Dentro de casa, porém, ele vive uma relação desgastada, marcada por distanciamentos silenciosos. Quando Deborah insiste para que ele se aproxime de Denver Moore (Djimon Hounsou), um homem em situação de rua com um passado de abandono e violência, Ron reage com desconforto evidente. Para ele, aquilo parece caridade mal calculada, um risco desnecessário à imagem e à rotina que levou anos para construir.

Deborah não trata a aproximação como gesto simbólico. Ela enxerga em Denver uma peça concreta de um plano maior: reconstruir vínculos, quebrar preconceitos, obrigar o marido a sair da bolha confortável onde negocia quadros caros enquanto ignora quem dorme nas calçadas. Ron aceita os primeiros encontros mais por amor à esposa do que por convicção. Ele tenta manter o controle da situação, oferecendo ajuda dentro de limites que o deixem seguro. Denver, interpretado com firmeza contida por Hounsou, não facilita. Ele observa, testa, impõe distância quando sente condescendência.

Ron acredita que pode administrar a relação como administra negócios: com cautela, estratégia e alguma formalidade. Denver responde com silêncio ou franqueza direta, desmontando qualquer tentativa de superioridade disfarçada. Deborah, mesmo fragilizada pelo tratamento médico, conduz a aproximação com determinação quase prática. Ela organiza encontros, insiste em conversas, coloca o marido diante de situações que ele preferia evitar. Cada decisão dela tem efeito imediato sobre o equilíbrio do casamento.

Michael Carney opta por uma narrativa clara, sem floreios excessivos. Ele mantém o foco nas interações, nos gestos pequenos que revelam mudanças reais. Não há pressa em forçar grandes viradas. O que se vê é um processo gradual de convivência, cheio de ruídos, constrangimentos e momentos de humor inesperado. Ron tenta quebrar o gelo com comentários leves; às vezes funciona, muitas vezes não. Denver não está ali para cumprir o papel de “lição de vida” ambulante. Ele tem orgulho, dor acumulada e uma história que pesa.

O drama biográfico não transforma ninguém em santo nem em vilão. Ron erra, recua, hesita. Deborah insiste, pressiona, mas também demonstra medo e cansaço diante do avanço da doença. Denver observa os dois e decide até onde pode confiar. Essa dinâmica dá ao filme um tom humano e reconhecível. Não é um discurso abstrato sobre igualdade, e sim de três pessoas tentando conviver apesar das diferenças sociais, culturais e emocionais que os separam.

Renée Zellweger entrega uma Deborah firme, sem cair na caricatura da mulher perfeita e iluminada. Há dureza em suas decisões, e isso torna a personagem mais interessante. Greg Kinnear constrói um Ron inicialmente fechado, quase arrogante, mas capaz de revelar fragilidade quando percebe que pode perder mais do que reputação. Djimon Hounsou traz dignidade e intensidade a Denver, evitando qualquer estereótipo fácil.

“Somos Todos Iguais” se concentra nessas trocas diretas, nesses encontros que obrigam cada personagem a rever certezas práticas. O filme não precisa de grandes discursos para sugerir mudança. Ele aposta no acúmulo de gestos, no desconforto que vira diálogo, na resistência que aos poucos cede espaço à escuta. Sem recorrer a reviravoltas apelativas ou soluções mágicas, a história acompanha como uma amizade improvável pode afetar casamento, fé e identidade. E faz isso com uma simplicidade honesta que, mesmo previsível em alguns momentos, mantém o interesse até o fim sem entregar respostas fáceis.

Filme:
Somos Todos Iguais

Diretor:

Michael Carney

Ano:
2017

Gênero:
Biografia/Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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