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Rainha do Carvão: a história real da primeira mulher trans a desafiar um sistema inteiro, na Netflix

“Rainha do Carvão” parte de uma contradição que estrutura todo o seu conflito: o desejo de Carla Antonella Rodríguez de trabalhar no subsolo de Río Turbio colide frontalmente com uma tradição que associa a presença feminina na mina ao infortúnio. A narrativa acompanha Carla desde a juventude, quando ainda registrada como homem, até o momento em que sua identidade de gênero passa a ser reconhecida pelo Estado argentino. O filme deixa claro que o reconhecimento legal não equivale à aceitação social. Ao contrário, transforma-se em um novo obstáculo, já que a condição de mulher passa a ser usada como argumento para afastá-la do trabalho que sempre definiu seu horizonte de vida.

Lux Pascal interpreta Carla com contenção, evitando qualquer excesso emocional. Sua atuação se apoia em gestos mínimos, no olhar atento e na postura corporal moldada pelo esforço físico, o que reforça a veracidade da personagem. Carla não é construída como símbolo abstrato de resistência, mas como alguém que insiste em permanecer onde sempre esteve. A mina não surge como metáfora distante, e sim como espaço concreto de sobrevivência econômica, herança familiar e identidade coletiva. Desde cedo, o roteiro estabelece que o sonho de Carla não nasce de rebeldia, mas de pertencimento.

Identidade, lei e exclusão cotidiana

O ponto de virada ocorre quando a Lei de Identidade de Gênero entra em vigor e Carla decide retificar seus documentos. O filme expõe com clareza a ironia central desse processo: o mesmo Estado que garante o direito à identidade passa a ser usado pela empresa como justificativa para removê-la do subsolo. A personagem é transferida para funções administrativas sob o argumento direto de que mulheres não podem entrar na mina. A partir daí, “Rainha do Carvão” abandona qualquer ilusão conciliatória e assume o embate institucional como eixo narrativo.

Carla reage de forma pragmática. Não há discursos inflamados nem vitimização. Ela registra uma denúncia formal por tratamento discriminatório e anuncia que retornará ao seu posto original. Essa decisão não é apresentada como gesto heroico isolado, mas como enfrentamento calculado dentro das regras do sistema. O filme enfatiza o desgaste desse processo, o isolamento progressivo da personagem e a hostilidade silenciosa dos colegas. Laura Grandinetti, no papel da amiga que a acompanha fora da mina, funciona como contraponto afetivo, enquanto as mulheres trans do clube noturno representam uma rede de apoio construída à margem das instituições oficiais.

Direção, limites e impacto narrativo

A direção de Agustina Macri opta por uma abordagem direta, interessada na dinâmica social de Río Turbio mais do que em grandes arcos dramáticos. A fotografia privilegia ambientes fechados, tons escuros e paisagens austera, reforçando a ideia de um espaço que oprime tanto quanto sustenta. Em alguns momentos, porém, o filme simplifica o comportamento dos trabalhadores da mina, reduzindo conflitos complexos a reações previsíveis. Essa escolha enfraquece certas cenas e torna a progressão dramática irregular.

Ainda assim, o filme se sustenta pela clareza de seu recorte. “Rainha do Carvão” não dá ao público a satisfação de redenções fáceis e nem transformações coletivas rápidas. O desfecho reafirma que a permanência de Carla na mina não resolve o problema estrutural, mas estabelece um precedente incômodo. A narrativa encerra com a ideia de que mudanças reais costumam começar de forma isolada, enfrentando resistência antes de produzir qualquer efeito visível. Assim, o filme se mantém fiel à história que conta, negando a oferecer atalhos emocionais e preservando a dimensão concreta de sua protagonista.

Filme:
Rainha do Carvão

Diretor:

Agustina Macri

Ano:
2025

Gênero:
Biografia/Drama

Avaliação:

8/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

Redação

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