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Quem precisa de um coração?

Quem precisa de um coração?

Vamos chamá-la Adolfa. Adolfa jogou o palito de fósforo dentro da panela com óleo vegetal. O pavio acendeu instantaneamente, sinal de que a temperatura estava propícia para a fritura. Desligou a chama do fogão. Segurou a panela pelo cabo usando um pano de prato com a imagem de Nossa Senhora Aparecida bordada nele, para evitar se queimar com a fervura. Retirou as havaianas para calçar os pés. Caminhou devagarinho até o portão da casa e confirmou que o caramelo permanecia deitado na calçada. Era de manhã bem cedo e o vira-latas ressonava, desapercebido do perigo. A astuta Adolfa chegou o mais perto que conseguiu e despejou o óleo fumegante sobre o dorso do animal. O dogue saltou que nem pipoca e descambou rua abaixo, ganindo de dor. Convicta de ter feito o que era preciso, Adolfa esboçou um sorriso capcioso, abriu a grade do portão e conferiu que o cão dobrava a esquina para nunca mais. Bem feito. Era hora de entrar e servir o desjejum para as crianças.

Emputecido com os populares que se espremiam à porta da chefatura, o delegado quis saber se Adolfa tinha mesmo despejado óleo quente sobre o lombo do pequeno animal enquanto ele dormia, conforme foi relatado pelos seus comandados. A mulher cogitou negar o ilícito, mas já sabia que o atentado fora registrado por uma câmera de segurança que ficava bisbilhotando do outro lado da rua. Então, assumiu a bronca. A autoridade policial inquiriu por que motivo tinha cometido tamanha desfaçatez contra o totó que, há tempos, perambulava pelo bairro e que tinha se tornado uma espécie de xodó dos moradores. Chamavam-no Chico.

Adolfa comentou que Chico não era nome que se pusesse em cachorro e explicou que, por ser animal vadio, sem dono, representava risco para os seus filhos, para os filhos das outras famílias e para a cambuia de idosos que residia no bairro. Além do mais, o vira-latas vivia a fazer as suas necessidades na calçada, bem em frente ao portão da casa dela. Tinha necessidade daquilo, doutor? Estava exausta de limpar titica de cachorro todos os dias. Já tinha tentado de um tudo para enxotar o animal, mas o dito-cujo sempre voltava e, claramente, tinha predileção em obrar justamente ali.

Adolfa choramingou quando o delegado anunciou que não tinha outro jeito: lei era lei; ela seria indiciada pelos crimes de maus-tratos e de tortura contra o canídeo. De quebra, orientou que a dona de casa contratasse um advogado ou buscasse adjutório jurídico na defensoria pública. A mulher ligou o modus esperniandis ao contestar, ao garantir que não pretendia ferir de morte o tal Chico e que fez o que fez tão somente para assustá-lo, repeli-lo.

O malfeito não tinha volta. Os moradores estavam pistolas com a atitude da mulher, que já não era bem-quista na rua fazia tempo; já tinha aprontado das suas. Exigiam providências duras da autoridade policial. Já era noitinha. Amolecida pelo temor, Adolfa precisou aguardar que a multidão debandasse. Só então conseguiu regressar em segurança para casa. Sabia-se lá do que era capaz uma turba de enfezados.

De tanto procurar, encontraram o animal escondido embaixo da sucata de um fenemê. O couro tinha se soltado completamente do lombo dele. Viram as chagas. Exclamaram “Jesus Cristo” e se comoveram com o suplício do pobrezinho. Fotografaram os ferimentos. Publicaram as fotos nas redes sociais da internet. A coisa viralizou. Foi assim que fiquei sabendo do cruel ataque sucedido na minha cidade, perpetrado por uma, digamos, cidadã comum, uma mãe de família. Um médico-veterinário voluntariou-se para cuidar do cãozinho. Passa bem o Chico. Eu, nem tanto. Tanto assim que vos escrevo e assino esta crônica.

Vamos chamá-la Adolfa. Adolfa jogou o palito de fósforo dentro da panela com óleo vegetal. O pavio acendeu instantaneamente, sinal de que



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