Profissionais expõem desafios reais e mostram por que o papel deles nunca foi tão necessário (Freepik)

“Na era da informação, quem faz diferença é quem orienta”. A frase resume bem o momento do turismo, mas ganha ainda mais peso quando vem de quem acompanha de perto essa transformação. Para a Abav Nacional (Associação Brasileira de Agências de Viagens), o desafio não está só nas novas tecnologias, mas em algo mais profundo: manter a essência humana em um cenário cada vez mais automatizado.

A pergunta é direta: qual o maior desafio de ser agente de viagem hoje? A resposta, como mostram profissionais de diferentes regiões do país, passa por um ponto em comum: provar valor em um mundo que insiste em olhar só para preço.

Vivemos um tempo em que qualquer destino está a poucos cliques de distância. Plataformas, inteligência artificial e redes sociais mudaram completamente o acesso à informação. Ao mesmo tempo, criaram um excesso que muitas vezes confunde mais do que ajuda. É nesse cenário que o agente tenta se posicionar não apenas como vendedor, mas como alguém que traduz, organiza e cuida, para que a viagem vire uma boa memória e seu trabalho siga sendo indispensável.

Entre tecnologia e agentes de viagem: quem está ao seu lado quando tudo dá errado? Veja os relatos reais
Ana Carolina Medeiros, da Abav Nacional (Ana Azevedo/M&E)

A própria Abav resume bem esse momento: “O maior desafio do agente de viagens hoje é se superar a cada dia, e ele consegue. Em um cenário de transformação acelerada, com digitalização, inteligência artificial e plataformas de venda direta ganhando espaço, o agente precisa se reinventar constantemente sem perder a essência do seu trabalho: a confiança”, analisa.

“Nenhuma tecnologia substitui o profissional que o viajante quer ao seu lado, alguém que conhece seus gostos, antecipa seus desejos e cuida de cada detalhe para que a viagem seja exatamente o que ele imaginou. Em meio a tantas mudanças, a Abav tem muito orgulho de caminhar ao lado desses profissionais, celebrando suas conquistas e trabalhando todos os dias pela capacitação, representatividade e o reconhecimento que essa categoria merece.”

Neste dia 22 de abril, quando se comemora o Dia do Agente de Viagens, a reportagem do M&E ouviu profissionais de diferentes regiões para entender, na prática, quais são os principais desafios da profissão hoje.

Preço ainda fala mais alto

“O maior desafio hoje é competir em preço com algumas plataformas online. Mesmo com um trabalho diferenciado de acompanhamento, muitas pessoas ainda olham apenas para o preço, e não para o valor. Além disso, ainda há dificuldade em compreender o papel do agente de viagens e as vantagens de contar com esse profissional”, disse Evelyn Souza, Rotas e Planos.

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Evelyn Souza, da agência Rotas e Planos (Arquivo pessoal)

Confiança acima de tudo

“Ser a pessoa em quem o passageiro possa acreditar e, acima de tudo, confiar. Nós vendemos sonhos”, afirmou Flóris Chierigatti, Vero Viagens.

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Floris Chierigatti, da Vero Viagens (M&E)

O que não depende da gente pesa

“Para mim, o mais difícil hoje de ser agente de viagem é lidar com condições adversas que não estão sob o nosso controle, como clima, política e questões financeiras. São fatores que fogem da nossa gestão e exigem sabedoria para continuar vendendo, trabalhando e fazendo acontecer, porque as contas não param.

Também considero muito desafiador ter que se renovar todos os dias. É preciso ter uma boa comunicação, ler bastante, entender o que está acontecendo no mundo. Sempre há um destino novo, algo novo no turismo. Manter-se atualizado é, sem dúvida, um grande desafio”, explicou Leonardo Morais, Home Tour.

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Leonardo Morais, Home Tour (M&E)

Concorrência que desvaloriza o mercado

“O maior desafio que encontro hoje em ser agente de viagem é lidar com outros profissionais e agências que desvalorizam o mercado ao reduzir comissões para conseguir vendas. Essa prática acaba prejudicando o setor e criando uma concorrência desleal.

Acredito que, para melhorar isso, é fundamental que os agentes de viagem atuem de forma ética, valorizem o atendimento e a prestação de serviço que oferecem diariamente aos clientes. Esse é o caminho para fortalecer o mercado”, destacou Leonan Mendes, da Delta Turismo Goiás.

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Leonan Mendes, Delta Turismo Goiás (Arquivo pessoal)

Mostrar valor virou missão diária

“O maior desafio que enfrento como agente de viagens é evidenciar, de forma clara, o valor do nosso trabalho, sempre associado à segurança, confiabilidade e tranquilidade que o cliente tem ao viajar conosco. Mais do que emissores de passagens, atuamos como verdadeiros consultores de viagem. Nosso papel é cuidar de cada detalhe, desde o planejamento até a execução, organizando, acompanhando e revisando todas as etapas para garantir que tudo aconteça conforme o esperado. O objetivo é transformar cada viagem em uma experiência fluida, segura e memorável.

Em um cenário atual marcado pela abundância de plataformas digitais, inteligência artificial e influenciadores de viagem, destacar esse diferencial de atendimento personalizado e suporte completo torna-se, na minha visão, o principal desafio ao conquistar e engajar novos clientes”, avaliou Welington Zambon, da Gateway Viagens.

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Welington Zambon ,da Gateway Viagens (Arquivo pessoal)

Sem proteção, sem paz

“Descobrir uma forma de nos proteger contra a quebra de fornecedores. Não temos paz”, resumiu Inês Melo, da Unav.

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Inês Melo, CEO da Unav (M&E)

Muito além de vender pacote

“Acredito que o maior desafio em ser agente de viagens nos dias atuais é a falta de reconhecimento da nossa profissão como turismólogos. Ainda existe uma percepção equivocada de que nosso trabalho se resume à venda de pacotes, quando, na verdade, envolve planejamento estratégico, conhecimento técnico, curadoria de experiências e, principalmente, responsabilidade sobre sonhos e investimentos importantes dos nossos clientes.

Somos profissionais que estudam destinos, culturas, logística, legislação e tendências do mercado turístico para oferecer segurança, personalização e excelência em cada viagem. No entanto, essa complexidade nem sempre é valorizada como deveria.

Valorizar o turismólogo é reconhecer a importância do turismo como um setor essencial para a economia e para a realização de experiências transformadoras na vida das pessoas”, pontuou Keila Freitas, Martur Viagens e Turismo.

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Keila Freitas, da Martur Viagens e Turismo (Arquivo pessoal)

Expectativa alta, realidade limitada

“Primeiro vem o fator humano, né, que é a expectativa do cliente. Aquele cliente que quer o luxo ao barato, ou seja, aquele cliente que tem uma expectativa de que vai comprar algo barato, mas quer algo bom, do melhor, luxuoso.

As limitações reais são justamente a concorrência que a gente vive hoje com as plataformas e aplicativos, que querem ofertar um determinado preço que não existe. E aquele cliente que tá focado no preço, ele vai acreditar nessa concorrência toda, que, na maioria das vezes, acaba sendo desleal.

E os imprevistos com os serviços… é aquele cliente que contratou e que justamente vai querer que você entregue aquilo que ele contratou. E os imprevistos são justamente esses: atrasos de voos, cancelamentos e alterações.

Tudo isso que a gente vive nessa guerra toda são os três maiores desafios, na minha visão, de ser agente de viagem.

O atendimento humanizado, a experiência do cliente e a confiança que ele acaba gerando hoje no agente de viagem são realmente grandes, fortes desafios”, avalia José Graco Silva, da Gracco Viagens e Turismo.

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José Graco Silva, da Gracco Viagens e Turismo (Arquivo pessoal)

Informação demais, segurança de menos

“É lidar com um cliente que tem informação em excesso, mas nem sempre com segurança. Com a facilidade de pesquisar tudo online, muita gente acredita que consegue montar uma viagem sozinho, mas, na prática, não vê os riscos, as regras e os detalhes que fazem toda a diferença.

Vai muito além de vender passagem ou hotel. É traduzir esse excesso de informação em uma experiência segura, personalizada e sem imprevistos. É estar preparado para mudanças constantes, regras de entrada em países, variações de preços, instabilidade de companhias aéreas e, ainda assim, transmitir confiança e tranquilidade para o cliente.

O maior desafio é justamente esse: mostrar o valor do nosso trabalho em um mundo que acha que não precisa mais dele, quando, na verdade, nunca precisou tanto”, comentou Natália Camargo, Bangalô Viagens.

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Natália Camargo, da Bangalô Viagens (Arquivo pessoal)

Comunicar virou parte do trabalho

“Em tempos de tanta desinformação, acompanhar a dinâmica e a velocidade da comunicação e levar ao cliente segurança, credibilidade, confiança e autoridade que só um consultor de viagens pode entregar!”, disse Giuliano Wassall, da Clube Turismo.

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Giuliano Wassall, da Clube Turismo (M&E)

Falta de ética no jogo

“O maior desafio de ser agente de viagem nos dias de hoje são as incertezas que ocorrem em muitos países, companhias aéreas que se aproveitam do momento e elevam muito seus preços e a competição que, muitas vezes, é injusta. Ninguém respeita ninguém e a ética parece ter ficado no passado”, criticou Rogério Linguanotti, Hello Connection Brazil.

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Rogerio Linguanotti, fundador da Hello Tourism Connections (Arquivo pessoal)

Quando o fornecedor vira concorrente

“Um dos principais fatores, na nossa opinião, é a concorrência das operadoras com as agências de viagens. Nós prestamos serviços ao cliente através da operadora de viagem. Claro que recebemos uma comissão, mas eles também. Só que a maioria delas fecha serviços diretamente com o cliente, oferecendo desconto com percentual de mais ou menos 10%. Claramente perdemos o cliente para eles. Além das ocorrências atuais de guerras, que geram muita instabilidade”, explicou Walse Richa, da Fair Wind Viagens, Eventos & Cia.

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Walse Richa, FAIR WIND Viagens, Eventos & Cia (Arquivo pessoal)

Curadoria virou diferencial

“O maior desafio hoje não é encontrar opções, mas filtrar o excesso de informações. Em um mundo saturado de ofertas digitais, o agente de viagens precisa ser um curador de experiências e um gestor de riscos. O desafio é provar que o nosso valor está na segurança, no suporte em tempo real e no conhecimento técnico que nenhum algoritmo substitui”, concluiu Sergio Mota, Vermari Business Travel.

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Sergio Mota, da Vermari Business Travel (Arquivo pessoal)