Na primeira vez em que ouvi a obra orquestral “Bolero”, do compositor francês Maurice Ravel (1875-1937), sua peça musical mais conhecida, tentei, sem sucesso, associar seu ritmo ao romântico estilo musical latino-americano de mesmo nome.
Afinal, o “Bolero” é um bolero? Sim, mas não a dança do “dois pra lá, dois pra cá” com a qual estamos muito acostumados aqui no Brasil. O bolero espanhol é uma dança clássica e, semelhante à valsa, em ritmo ternário (3/4). Já o bolero latino-americano, surgido em Cuba no final do século XIX e popularizado no México, possui raízes no bolero espanhol, porém seu ritmo é quaternário (4/4), sendo geralmente cantado e com letras românticas.
Conheci o “Bolero” no filme “Mulher Nota 10” (“10”), de Blake Edwards, de 1979. O personagem George (Dudley Moore), um famoso compositor de meia-idade, está obcecado pela bela e jovem Jenny (Bo Derek) desde que a viu pela primeira vez, no casamento dela. George vai atrás de seu objeto de desejo e segue Jenny em sua lua de mel no México. Em determinado ponto do filme, após o marido dela ter se acidentado, é Jenny quem acaba seduzindo George ao som do “Bolero”. Ela diz a ele que essa música tem um forte efeito afrodisíaco. Será?
Maurice Ravel nasceu na cidade de Ciboure, localizada na região cultural do País Basco Francês, perto da fronteira com a Espanha, mais precisamente na divisa com a comunidade autônoma do País Basco, em território espanhol. O pai de Ravel era músico amador e o iniciou no mundo da música; sua mãe era de origem basca e transmitiu ao filho o rico legado folclórico basco e espanhol.
Maurice ainda era uma criança quando sua família se mudou para Paris, o que lhe abriu um leque de possibilidades que ele soube aproveitar. Ravel passou para a história como um homem reservado e discreto, porém um músico disciplinado, inventivo e exímio artesão da arte orquestral.
Ele compôs sua obra mais famosa em 1928, a pedido da bailarina russa Ida Rubinstein, que queria uma música para a montagem de um balé cuja ação é ambientada na Espanha. A estreia do balé em Paris provocou certo escândalo por sua ousada coreografia, porém a música de Ravel caiu no gosto do público. Ravel não considerava o “Bolero” uma grande obra, referindo-se a ele como uma peça trivial ou um exercício de orquestração.
Por falar em balé, pouco tempo depois de “Mulher Nota 10”, em 1981, estreou outro filme no qual a música de Ravel aparece com destaque: “Retratos da Vida” (“Les Uns et les Autres”), de Claude Lelouch. A película conta as histórias de quatro famílias de diferentes países, desde o período entre as guerras mundiais até a época atual no filme. As histórias dos diferentes personagens se cruzam e se entrelaçam, sempre com a presença da música de Ravel. O ápice do filme é seu final, quando membros das quatro famílias se encontram na Praça do Trocadéro, em Paris, para a apresentação de um balé com coreografia de Maurice Béjart para o “Bolero”, executado pelo bailarino Jorge Donn.
Existe também um filme mais recente, mas ainda não o assisti. Trata-se de uma dramatização biográfica que foca no próprio Maurice Ravel, em seu processo de composição do “Bolero” e em sua complicada relação com essa música: “Bolero, A Melodia Eterna” (“Boléro”), de 2024, dirigido por Anne Fontaine.
O que faz o “Bolero” ser tão amado por tantas pessoas? A música possui uma estrutura singular: tanto seu ritmo quanto seus dois temas melódicos são invariáveis e se repetem ao longo de mais de 15 minutos de duração. O que varia ao longo da obra — e aí está a prova da genialidade de Ravel — é sua intensidade e sua orquestração que, a cada repetição, ficam mais fortes e com mais instrumentos participantes. É esse crescendo constante que confere tanto brilho à música mais famosa de Ravel.
Além de filmes, a peça de Ravel foi fonte de inspiração para a música popular, em particular para o rock. É surpreendente a quantidade de músicas de rock que, de uma maneira ou de outra, bebem na fonte do “Bolero”. O elemento mais utilizado por essas músicas é o ritmo, seja em determinados trechos, seja durante toda a composição, como em “Beck’s Bolero”, do Jeff Beck Group, e “Abaddon’s Bolero”, do Emerson, Lake & Palmer. Esta última ainda utiliza o efeito de crescendo, o que também ocorre em “White Rabbit”, música psicodélica por excelência que, além de ter sua estrutura baseada no “Bolero”, traz na letra referências às obras “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho”, de Lewis Carroll.

