“O Boneco de Barro” (2025), dirigido por Meng-Ju Shieh, acompanha um casal que vê a rotina doméstica sair do controle depois que um objeto antigo entra em casa, e ninguém sabe exatamente até onde isso pode ir. Ambientado no presente e concentrado quase todo dentro do apartamento dos protagonistas, o filme se ancora no conflito entre razão e crença: de um lado, Hsu-Chuan (Yo Yang), que tenta tratar tudo como parte de um projeto; do outro, Muhua (Cecilia Choi), que passa a se envolver de forma cada vez mais intensa com o objeto. O motivo é que ele quer usar o boneco como referência para um jogo de realidade virtual; ela quer restaurá-lo. O problema é que o boneco parece reagir.
Hsu-Chuan trabalha como planejador em uma empresa de realidade virtual e está desenvolvendo um jogo de terror. Durante uma pesquisa, ele encontra um boneco de barro danificado em um local com fama de assombrado e decide levá-lo para casa. Ele acredita que o objeto pode ajudar a dar mais realismo ao projeto. Só que, ao cruzar a porta do apartamento, o boneco deixa de ser apenas material de trabalho.
Muhua, grávida e restauradora de artefatos, enxerga outra possibilidade. Em vez de ignorar os danos, ela decide consertar o boneco, como faria com qualquer peça antiga. Monta sua bancada, separa ferramentas e começa o processo com cuidado técnico. No início, tudo parece seguir um caminho conhecido, mas aos poucos surgem sinais de que aquele não é um objeto comum. Pequenas alterações no ambiente, desconfortos físicos e uma sensação constante de que há algo fora do lugar começam a interferir no trabalho.
O que poderia ser apenas um incômodo vira tensão doméstica. Hsu-Chuan tenta manter o controle, organiza horários, observa mais de perto e sugere interromper a restauração. Muhua, por outro lado, insiste em continuar. Para ela, parar no meio do processo não é uma opção simples, é quase admitir que perdeu o domínio sobre o próprio trabalho. Essa diferença de postura cria um atrito constante, daqueles silenciosos, que não explodem de uma vez, mas vão ocupando espaço.
A casa, que deveria ser um lugar seguro, começa a funcionar como extensão do problema. O ambiente muda, o clima pesa, e decisões banais, como dormir, fechar uma porta ou ficar sozinho em um cômodo, passam a ter outro peso. O filme acerta ao transformar esse espaço limitado em um campo de tensão contínua. Não é preciso exagero, basta um detalhe fora do lugar para que tudo pareça instável.
Sem conseguir resolver sozinho, Hsu-Chuan procura ajuda externa e encontra A-Sheng (Derek Chang), um pesquisador de folclore com conhecimento em práticas espirituais. A entrada dele muda o jogo. A-Sheng não descarta a hipótese de que o boneco esteja ligado a algo mais antigo, possivelmente uma maldição ou uma história mal resolvida. Ele traz novas informações, incluindo a existência de uma cantiga associada ao objeto, o que amplia o problema e, ao mesmo tempo, complica qualquer solução rápida.
A partir daí, o casal passa a lidar com três formas diferentes de entender o que está acontecendo: a lógica técnica de Hsu-Chuan, o olhar profissional de Muhua e a leitura espiritual de A-Sheng. Nenhuma delas resolve tudo sozinha. E o filme não tenta simplificar esse problema, pelo contrário, ele sobrevive justamente nesse impasse.
Há também um elemento interessante na forma como a história se conecta com o trabalho de Hsu-Chuan. Ele desenvolve experiências de terror em realidade virtual, mas se vê diante de algo que não pode controlar, editar ou desligar. É quase irônico: alguém acostumado a criar medo de forma programada precisa lidar com um tipo de ameaça que não segue roteiro.
“O Boneco de Barro” caminha melhor quando mantém esse equilíbrio entre o concreto e o inexplicável. Não depende de sustos fáceis nem de explicações didáticas. O interesse está em observar como os personagens reagem, insistem, desistem e tentam negociar com algo que não responde como deveria.
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