Numa noite quente, uma garrafa passa pelo balcão e Phil Robertson tenta sair do bar antes de passar do ponto outra vez. Em “Antes da Dinastia”, Aron Von Andrian põe o personagem para atravessar a porta e voltar pela rua como quem conta os passos para não cair. A cobrança encosta quando ele chega em casa tarde, com a mão na maçaneta e gente acordada do outro lado, esperando uma frase que não venha com cheiro de bebida. Para quem assiste numa sessão noturna, o preço é ficar preso ao mesmo trajeto por vários minutos, olhando a mesma porta e contando o tempo que poderia virar sono.
De manhã, a mesa da cozinha vira o lugar onde tudo precisa caber, prato, conversa e a lista de obrigações que não diminui porque a noite foi ruim. Phil promete que vai ser pai e marido, mas precisa levantar cedo, encontrar o rumo e não faltar ao que combinou, e cada falha vira atraso que recai sobre a casa inteira. A rotina se repete em ações pequenas, sentar, levantar, engolir seco, e o espectador paga com atenção contínua, porque não há resumo que economize tempo, é preciso acompanhar os detalhes como quem confere uma conta antes de sair.
À tarde, um carro na estrada leva Phil para longe da sala e o coloca diante do tipo de decisão que se toma com as duas mãos no volante. Kerry Knuppe entra como a mulher que precisa administrar a casa e ainda encarar o retorno do marido, e isso custa energia em horas que vão embora em conversa curta, reconciliação interrompida e nova desconfiança. Para o público, a espera tem corpo, porque a estrada não encurta o intervalo entre promessa e recaída, e a sessão cobra paciência de quem preferia pular direto para o dia seguinte.
Numa noite seguinte, o sofá da sala recebe um homem que tenta ficar quieto, mas não aguenta o próprio silêncio por muito tempo. Phil escolhe voltar para perto da família, só que traz junto o hábito de arranjar desculpa, e a cobrança recai sobre quem precisa acordar cedo e ainda assim escutar a mesma conversa até tarde. O espectador atravessa a repetição sem alívio fácil e paga com cansaço, porque o tempo de tela estica como uma discussão que passa da meia noite e invade o corpo de quem está sentado.
No dia seguinte, uma porta batida e uma chave girando no trinco marcam o limite entre dentro e fora da casa, e os parentes entram e saem como se cada visita pedisse uma explicação nova. Phil encara o olhar de quem o conhece de perto e tenta falar do passado sem correr, mas cada palavra custa porque não apaga ausência, não devolve noite perdida e não recompõe confiança no mesmo dia. Para quem assiste à tarde, o gasto é de coordenação, acompanhar nomes e relações sem pausa, como se fosse preciso guardar tudo na cabeça para entender por que uma porta fechada pesa tanto naquela manhã.
Perto da meia noite, um relógio insiste no tique taque enquanto Phil remexe lembranças que preferia manter trancadas, como quem abre uma gaveta e encontra coisa velha e incômoda. Ele tenta encarar vergonha e responsabilidade sem voltar ao bar, e isso cobra horas acordado e um esforço físico visível, ombros tensos, mãos inquietas, passos curtos pela sala. Na poltrona, quem assiste ajeita as costas e percebe o tempo passar, porque a cena demora o bastante para a madrugada virar companhia.
Num domingo cedo, um banco de madeira recebe Phil por mais tempo do que ele costuma aguentar parado, e ele precisa escolher ficar sentado quando o impulso manda levantar e sumir. O recomeço vem como tarefa que se repete, voltar, escutar, levantar e voltar de novo, e isso custa semanas de rotina em vez de uma noite brilhante. Para o espectador, o gasto é acompanhar esse esforço com o corpo, aceitando a lentidão de uma manhã que se alonga, como se cada minuto no banco tivesse que ser pago ali, sem desconto.
Na última meia hora, uma conta sobre a mesa lembra que reconstruir não cabe em frase curta, porque envolve dinheiro, horários e o trabalho diário de combinar o óbvio. Phil tenta manter o cotidiano sem a fuga rápida, mas a cobrança surge em pequenas ações que precisam se repetir, chegar em casa no horário, encarar a cama sem cair na rua, aceitar que confiança custa meses. Na saída da sessão à noite, muita gente confere a hora no celular e amassa o bilhete no bolso, levando junto a sensação física de ter passado 1h45 acompanhando um homem que não consegue comprar atalhos.
Filme:
Antes da Dinastia
Diretor:
Andrew Hyatt
Ano:
2023
Gênero:
Drama
Avaliação:
8/10
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Natália Walendolf
★★★★★★★★★★
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