Dirigido por Phil Connell, com Cloris Leachman, Thomas Duplessie, Linda Kash e Jayne Eastwood, “No Ritmo da Vida” abre no camarim de um bar gay em Toronto, com Russell meio montado diante do espelho e esmagado por um ultimato amoroso. Tudo começa apertado demais. Depois da ruptura, ele deixa a cidade e segue para Prince Edward County, onde reencontra a avó Margaret em declínio de saúde, agarrada à casa e apavorada com a possibilidade de parar num lar para idosos. Em poucos minutos, o filme junta duas urgências bem concretas, a da separação e a do cuidado.
A mudança de Russell não tem nada de passeio sentimental. Ele chega a uma casa onde há falhas de memória, cabelo queimado, pedidos de ajuda, geladeira vazia e a presença constante de Ene, a mãe vivida por Linda Kash, que insiste na ida de Margaret para o Millbrook Care Home. A casa pesa sobre todos. Phil Connell filma esse espaço como lugar de atrito, onde cada conversa sobre remédio, banho, dinheiro ou permanência vira disputa por controle. Quando Russell decide ficar, o gesto nasce menos de bravura do que de culpa, afeto e falta de saída.
Ao mesmo tempo, o retorno ao interior abre uma segunda frente para Russell, agora longe do bar de Toronto e perto de um pequeno palco onde Fishy Falters pode existir de outro jeito. O palco muda tudo ali. No bar universitário da cidade, ele se apresenta, se atrapalha, testa a própria presença e conhece Zachary atrás do balcão, num flerte que aparece sem fanfarra. A drag deixa de ser só fuga e passa a ser um corpo em risco, exposto à hesitação, ao desejo e ao olhar alheio.
Esse movimento ganha força porque Margaret não é tratada como figura decorativa do drama. Ela ainda fere com precisão. Cloris Leachman dá à personagem uma mistura rara de fragilidade física, lapsos de memória e língua afiada, sem enfeitar a velhice nem pedir reverência a cada entrada em cena. Na sala, na cozinha ou na porta de casa, Margaret continua capaz de constranger o neto, peitar a filha e defender a própria autonomia com o resto de energia que tem.
Thomas Duplessie acompanha esse embate sem adoçar Russell, e isso ajuda o longa a manter os pés no chão. Ele erra bastante também. O rapaz que chega ferido pela separação, sem saber se insiste na atuação ou se sustenta Fishy Falters, não encontra uma resposta limpa nem no romance com Zachary nem na rotina de cuidados com a avó. Há momentos em que o fio amoroso parece mais ralo do que o vínculo familiar, mas o centro de “No Ritmo da Vida” está em outro lugar, na convivência diária entre um neto à deriva e uma mulher idosa que se recusa a ser empurrada para fora da própria vida.
Phil Connell acerta quando prefere o detalhe palpável às grandes viradas, um espelho de camarim, a luz da cozinha, o balcão do bar, a respiração curta de Margaret, a porta da casa que ninguém quer atravessar pela última vez. Fica tudo muito perto. Entre Toronto e Prince Edward County, entre a maquiagem e o cuidado, “No Ritmo da Vida” encontra seu melhor tom ao observar corpos cansados tentando negociar algum resto de escolha. Quando a sessão acaba, permanece a luz do interior batendo no azulejo da cozinha e um rosto parado diante do espelho.
Filme:
No Ritmo da Vida
Diretor:
Phil Connell
Ano:
2020
Gênero:
Drama
Avaliação:
8/10
1
1
Natália Walendolf
★★★★★★★★★★
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